O dia de hoje

Hoje 

tive um desejo

de mar de sol de vento

de tamarindo

mas quando saí de de casa para almoçar

caí de mota 

pela segunda vez na vida

ao encarrilhar-me num carril de elétrico

enquanto dobrava lentamente 

a esquina de uma Igreja.

Decidi voltar a pé para casa

mas neste dia que é o vinte

e ao mesmo tempo um trinta

apeteceu-me provar 

um destes sumos de fruta que agora

se vendem por Lisboa

em lojas que parecem estrangeiras

e feitas para estrangeiros

Parei and asked 

for um sumo antioxidante

de laranja beterraba cenoura e qualquercoisa

que até era bom.

Aconteceu-me

pensar ao rezar de tarde

no que teria sido uma amizade

ou uma mera convivência

com uma pessoa que gostava de sorrir

e cuja cara parece que vejo

numa outra pessoa com quem 

ocasionalmente me cruzo 

ao final da tarde

quando passo

pelo jardim da Estrela.

Li

enquanto estava sentado no sofá à noite

um poema de Alberto de Lacerda

chamado Meio-dia

Tombava pela cara abaixo 

a luz 

grande pano branco

Apeteceu-me responder

com um outro poema

chamado Meia-noite

Tombava pela casa a fundo

o silêncio

interrompido apenas pelo som

do frigorífico.

The beginning of a new academic ano

Every other day I’m wondering porque é que o discaço da Sidney Gish não mereceu mais atenção da parte do mundo em geral e da vida em particular. Mas posso ouvi-lo, posso partilhá-lo, e isso basta. Sigo para o que há para seguir, esgotando o quarto de hora académico com escolhas de gravata de última hora. Apanho uma mota para compensar: estou com um síndrome qualquer que me obriga a seguir, simplesmente, o que o dia é e o que o dia traz. Difícil mas divertido, e bô-om. Está um bom céu, um bom sol — tem sido um verão com bons céus, bons sóis, e boas luas (na Lapa, então, nem vos conto). Ao passar de mota pela Castilho vejo se o Manel está em frente ao notário. O Manel é um antigo colega de faculdade que não vejo há eras e que ontem, quando estava a andar de mota (sem gravata, mas com a mesma mochila vermelha às costas) vi à frente de um notário, na Castilho. Chamei-o — olha o Manel! — mas ele não tugiu nem mugiu. Sim, já disseram que sou um pouco eu, sim. Mas agradeço isso, essa liberdade. Agradeço igualmente o vento fresco que me poupa a uma morte por suor, mas confesso que gostava que estas motas elétricas fossem um bocadinho mais robustas. Na Praça de Espanha penso na importância prática de saber cair, na estrada e na vida. Depois entro na faculdade, para dar início a mais um ano académico, dedicado à Graça da educação, da pedagogia e do Direito. Sou tão geek, às vezes. S. Paulo dizia de manhã aos Coríntios para aspirarem com ardor aos dons mais elevados. E depois venho eu pedir a cada aluno para dizer um filme de que goste. Alguns disseram o Vertigo, outros o Pulp Fiction, e outros ainda o Grease. Está dado o mote. Saio de mota para um almoço. Está um bom dia para andar de mota, sinto-o especialmente quando vejo o alcatrão da Avenida de Roma dourado pelo sol. Dá-me fôlego para cantar o Seasons dos Future Islands, mesmo contra a ligeira nostalgia que me bate no peito sempre que passo pela carcaça do antigo cinema Londres (se gostarem de cinema e se algum dia tiverem a oportunidade de trabalhar nesse tipo de instituição hão de perceber um bocado o sentimento que é vê-lo desaparecido). Mas a vida segue: Almirante Reis a fundo, já com a Sidney Gish de novo na cabeça e na voz. Ai, these sweet instincts da Almirante Reis, cruzada a duas rodas, dourada de dia e dourada de noite — já vi monumentos piores, sabem? Estaciono e apanho o João, que é um amigo de há anos e que segundo penso não deve ir muito ao notário, e vamos almoçar. Na casa de pasto Ideal penso que a pescada é fixe, mas que fixe fixe (fish fish? Desculpem, estava a pedir) é este tempo, é este Setembro. É um bom tempo para começar mais um ano académico. Sol, calor, vento fresco, uma pescada impec. E com isto acho que é tempo de terminar as minhas alegações de direito e continuar a viver os factos dos dia. Afinal, há mais uma universidade para visitar, e o ano / ainda agora / começou.

Decoração de interiores

A mulher com cabeça de 

lâmpada

segura a cabeça na

mão esquerda.

O braço direito há muito 

que fugiu, a

pele acizentou-se

e os seios

ficaram à mostra.

Envergonhada, a

mulher virou costas

e irritou-se com a 

poesia. Em

protesto, calcou

uma antologia de

2000 poemas rosados

e ficou assim

sentada à

janela de uma sala de estar 

lisboeta

enquanto lá fora

o rio a ponte o sol e

alguns barcos

existem

e dentro da sala

dois miúdos comem

gaspacho 

com oregãos.

 

Resenha matinal

Nunca li Milton
e acordei com vontade
de viajar pela
América do Sul.
Estava no chuveiro, e pensei
que o amor está nos
olhos de quem
sente. Depois imaginei
o que seria estar em Santiago
do Chile, a trocar poemas
com Neruda, chamar-lhe
Pablo até, sem
descaramento, e ir a Buenos
Aires comprar uma camisola
do River com o nome de outro
Pablo nas costas.
Sonhar é bom — é o
que diz a minha mãe.
Acho que sonhei durante
a noite, mas não me
lembro bem. Está um dia
quente, por cá. Foi me
dado a ver um bonito
nascer do sol, quando
o meu corpo ainda achava,
despido e no meio dos lençóis, que era
madrugada, que devia ser
madrugada.
Deve ser bom viajar
com pessoas que são
sempre nascimentos, princípios e
possibilidades
inesgostáveis de (sor)risos.
E de repente apercebo-me que
sem saber ler nem escrever
virei uma imagem mental
ao contrário.
Será que é por
ter compreendido
o papel desarmante da
liberdade e da confiança, da
beleza do que
é ser e estar, sem mais, nem
menos?
Um chapéu de palha
num pôr-do-sol rosado
dentro de um mundo próprio
que é uma viagem. Às vezes
penso que viajar é uma outra
vida, tal como o cinema
é outra vida. Não é. É
a nossa, só que envolta
numa exposição de
transcendência, mundanamente
divina.
Também pensei
que ser sério é um
pleonasmo.
Quem é ‘sér’io
já é, sem mais,
percebem?
Entretanto estou a
tomar café, e pensei
(penso muito de manhã, não
penso?)que o amor está
no sorriso de quem
vive.

Postal para um casamento

Para a Inês, que para além de leitora e ouvinte deste espaço (e desta pessoa) tem ainda a divina paciência para exercer o cargo existencial de minha amiga, e sendo muito querida em tal difícil empreendimento

 

Que o dia te seja marcado

com o mesmo sorriso alegre,

tranquilo e generoso

com que nos marcas a todos

ano após ano

nesta séria e mui profunda parvoeira

que para os antigos era o que se poderia

chamar de monumento, e que

para nós não precisa de ser exagerado

para lá da maravilhosa e bonita certeza

a que se dá o simples e

sussurrado nome de

amizade.

Romance académico, número regresso

O quão cool é o teu barbeiro? O meu corta-me o cabelo com uma navalha. True story. Fala-me de futebol, e de outras coisas da vida. Hoje falou-me da Venezuela, da crise na Venezuela. Depois disse-me que quando era mais novo costumava cantar fados, em Coimbra. Anos sessenta, esse tempo e idade. Era militar, estava lá sediado. Saía de licença e escondia o uniforme por baixo de uma capa negra. E cantava, enquanto outros, estudantes, com nomes de família (Brito? Marques?) tocavam. Faziam serenatas, os estudantes e o militar com coração de estudante, às meninas que passeavam no jardim. De dia cortava batatas e fazia desporto, e aprendia técnicas de enfermagem. Notei neste momento da história que estava com um alto de cabelo na zona do meu carapito a sobressair. Um pormenor. Mas não preciso de dizer nada. Ele já está a trabalhar em Lisboa, no hospital militar quando o pormenor é atendido e o alto é cortado. Volta para a tesoura, dobra ligeiramente os joelhos. A dado momento esqueço as histórias e concentro-me na postura dele. É uma dança, quase. Uma dança mundana, com tesouras e pentes. Pés para a frente, braços para trás, e depois ao contrário. Há uma elegância e uma classe nisto, nada esforçada, muito real. Voltemos às histórias. Lisboa, anos sessenta: juntamente com um colega, o barbeiro-fadista cedeu dois lugares numa festa popular (quero pensar que foi na Estrela, acho que ouvi a palavra Estrela, mas posso estar demasiado sugestionado) a duas senhoras. Nessa noite um capitão com nome de capitão (Neto? Sousa?) apanhou-os e chamou-os ao gabinete, no dia seguinte. Os recrutas ansiosos, e nisto entra o comandante com nome de pessoa (Faustino? Firmino?) que lhes dá um prémio, pela acção de gentileza demonstrada. Uma semana na terra, tudo pago. E lá vai o beirão divertir-se para onde gosta. Devia ser um soldado gentil, o meu barbeiro. O dançarino mundano, o senhor das tesouras, o verdadeiro benfiquista de terceiro anel. How cool é o teu barbeiro? O meu, às vezes, chega a ser poeta. Quando lhe perguntaram numa entrevista, há anos atrás, sobre se costumava falar de política com os clientes, limitou-se a responder: a minha política é cabelo. Contou-me hoje que se não fosse por políticas de cabelo podia se calhar ter ido para Bruxelas, cortar cabelos a europeus. Mas ficou, e corta-me o cabelo desde miúdo. Se calhar tinha sido a salvação da Europa, não sei. Não sei se as pessoas sabem reconhecer a importância de um bom corte de cabelo. Num cartoon, o Calvin (de Calvin e Hobbes) diz, quando está no barbeiro, que nunca se critica alguém que tem uma tesoura na mão. Nunca precisei de criticar, está sempre em ordem: o corte, o momento, a companhia. Não sei mesmo o quão cool é o teu barbeiro. Imagino que seja bom, e espero que sim, que seja bô-om. Mas prefiro o meu. O meu é um tipo bem fixe, do género verdadeiro, sabes? Nada de ilusões. Sempre o mesmo corte, sempre o mesmo ritmo, sempre a mesma simpatia. E, descobri agora, um romance académico, literal e em pessoa. Beat that.