Romance académico, número Uber

Chamava-se Giuseppe e era romano. Tinha 72 anos, e estava divorciado; a ex-mulher tinha ficado a viver no Brasil. Falou muito do seu filho Alessandro, que tinha sido advogado, e agora estava a estudar para ser juiz. Alessandro fala seis línguas e faz três anos que está a preparar-se para os exames, aproveitando para ler sobre outras constituições. “A Constituição italiana”, disse Giuseppe, “diz que Itália é fundada no trabalho”. Eu disse-lhe que as constituições são exemplos de uma promessa, de uma ideia, até da alma de um país. Ele riu-se. Não lhe disse o que fazia, nem que era o meu dia de anos. Não lhe interessava para nada.

Draft note, número 761

I like this house, I really do. During the morning I feel like I’m on the beach. In the afternoon I feel like I’m on the street. At night, I’m wherever the song takes me to. I’m in one of those restaurants that still exists in this town, where the food is good and comfortable, the wine is a joy, and the owners are the best people you’re never going to be friends with (so that you know, I’ve counted three of these gems so far, resisting as they can in post-crisis Lisbon: Batata Doce, Raízes, and A Camponesa). I’m singing a Mountain Goats song while the machine washes the dishes. I’m drinking a decaf while resisting to watch season something of show x, y, z. I have seven articles / chapters about the EU’s economic and monetary union open on my desktop. I also have memories, feelings, a bottle of water, and some books. And Carol, thank God. I’m singing out of my head, and I don’t want to put any real music in here. It’s quiet, and at the same time, full. I like it. I really do.

Na tina

Estou há quase duas semanas com a canção Ronaldo, do Chico da Tina, na cabeça. Já ouvi muita outra coisa, mas não há maneira de não voltar a esta. Parte do sucedido deve-se à sedutora produção do Bejaflor e do Co$tanza (o beat é ótimo, não há como fugir). Outra parte deve-se à forma da declamação: segura, assertiva, e provocadora, típica de quem está mais que à vontade, cheio de confiança. Não sou o maior fã do trap, mas confesso que esta fica – e já agora, sabem o que é que também fica na tina? Este pequeno som do Bejaflor: aqui fica, para que não passe despercebido.

Sobre pensar (demasiado) nas coisas

I’m Thinking About Ending Things é um filme puxado. A primeira metade corre a um bom ritmo, com imagens e diálogos extraordinários, e uma mise-en-scène que constrói muito bem uma tensão absorvente (excelentes atores, quer o casal quer os pais do namorado). Mas na segunda metade o suspense puxa em demasia, ao ponto de se tornar extenuante. A necessidade de encontrar pistas e simbolismos aumenta estupidamente, e a narrativa acaba por se fechar e concluir de maneira demasiado reduzida face a toda a carga que vinha de trás. Há momentos que esta trip misteriosa a um subconsciente pesado se assemelha aos melhores devaneios lynchianos, embora peque, no final, por ao contrário destes, estar sempre a tentar (com muita força) pôr o pé no chão. Ainda assim, é bom ver Charlie Kaufman de volta ao ativo, sempre pronto para nos levar em novas viagens.

Dick Johnson vive

A realizadora Kirsten Johnson conseguiu um pequeno milagre: chama-se Dick Johnson is Dead, e é um filme sobre agradecer uma vida, na hora do adeus. Em uma hora e meia de imagens duras, ternas e, por vezes, muito engraçadas, tornamo-nos testemunhas de uma despedida difícil, inevitável, mas amorosa – e de como o cinema consegue ser um belíssimo quadro do real e um antídoto para o tempo, uma porta para um além onde todos podemos viver e comungar (e onde Dick Johnson, para sempre, estará). Que documentário difícil e bonito.

Resenha de Setembro

Às vezes é preciso, parafraseando o autor, “diminuirmo-nos”, para que possamos voltar a crescer. Gostei muito de ouvir, nas Canções do Pós-Guerra, o autor Samuel Úria de volta “aos básicos”, com arranjos simples e cheio de espaço para deixar fluir a sua elegante potência. Potência e sentimento são palavras que podia usar para descrever outro disco bom, do Primeira Dama, chamado Superstar Desilusão: no meio de uma produção precisa, entre o fuzz de garagem e o reverb de sonho, sobressai a voz de um jovem cheio de lutas, a querer ser músico em Lisboa com todas as suas forças. Outra força para este tempo de final de tese são os discos dos amigos Filipe (da Graça) e Silas (Te Voy a Matar), muito diferentes na forma (uma exploração folk-divertida sobre a amizade, a distância e a saudade em Talvez Aqui, versus uma narrativa eletrónica de tons épicos em Texto Áureo) mas muito semelhantes no aconchego. A sala é outra, com eles aqui. Mas o disco que me tem mais acomodado nas horas de escrita, recentemente, é o Vias de Extinção, do Benjamim. É um álbum muito (e bem) trabalhado, que se expande em cantos, recantos, com curvas orelhudas e surpreendentes, pedindo-nos para ficar e deixarmos as chaves na receção, que o serviço trata do resto. Belíssima cena.

Som, som, som

Temos duas novas plantas em casa, e a maior chama-se Johnson. A pequena ainda não sabemos; está agora em frente à televisão. A sala está fresca, é preciso ter uma manta para dormir com este tempo ventoso. A lua tem estado bonita, o futebol tem sido bom, Outubro chegou. Ouvi John Moreland: “Before you hang me for my story, Lord, let me be understood”. Apetece escrever. Som, som, som.

The beginning of a new academic ano

Estava a escrever sobre acordar, com a cabeça encostada à janela do carro, a ver o céu e a paisagem e o movimento de tudo, o filme que é a vida quando vista a partir de uma janela de um automóvel. Tinha na minha cabeça o Arizona, e depois o Utah, e depois nada, nenhum sítio em especial; apenas o céu, e o tudo que o céu tem (que é: tudo). Mas é difícil, e quem sabe, talvez inútil, tentar escrever agora, no início de um novo ano académico. Na realidade, e para ser sincero, estava no banco de trás do carro, com janela semi-aberta e o vento a chocar contra a cara. Ruas pouco cheias, que é como quem diz um pouco vazias, que é como quem diz: a acordar. No outro dia passei aqui a pé, nesta avenida, a caminho de casa. Ouvia canções de guerra, de combate, de entrega. Todas do Chefe, claro. Depois fui ouvir, pela primeira vez desde que me lembro de ser pessoa, a canção Photograph, dos Nickelback. É suficientemente orelhuda para ficar na cabeça e invadir-nos os intervalos quotidianos de pensamento, como aquele momento clássico, após o jantar, em que vamos buscar chocolate à cozinha. É, também, suficientemente foleira para se perceber que é melhor, para a minha saúde – para a minha sanidade – ouvir outra coisa (escrevo “ouvir outra coisa” e na minha cabeça começa a tocar time to say goodbye, goodbye-eye-eye. Sacanas). Tenho saudades de ouvir discos bons, ou de ter cabeça para ouvir discos bons, nem sei bem. Por um lado é bom: estou focado, que é como quem diz, comprometido. Por outro, sinto. Comecei a ler Sylvia Plath no primeiro dia deste novo ano académico. Primeira frase: It was a queer, sultry summer, the summer they electrocuted the Rosenbergs, and I didn’t know what I was doing in New York. Depois, ou antes (não interessa, na verdade) estou em casa, e é de manhã; estou descansado, a pensar sobre isto, que é como quem diz: a pensar sobre escrever, e quando levanto a cabeça reparo que estamos, os dois, refletidos no ecrã da televisão, duas figuras no sofá, a beber café, com as tábuas da parede atrás brancas de sol. É uma imagem bonita e imediata. Depois fomos trabalhar. Ouvimos Bach, escrevemos uns bons parágrafos, no meu caso sobre o poder e o dever, sobre o poder do dever e o dever do poder. Aproveito o que recebo, dou o que devo, vivo o que tenho, e o que tenho para fazer. Agora, por exemplo, estou de pé, em casa, a olhar para o espaço para onde vai entrar o armário, e a aperceber-me: a acordar, aos poucos, para o ritmo deste final de ano no qual me encontro. Invade-me a vontade, impele-me o sentido, sorri-me / a / inocência. A dado momento desligamos as luzes, abraçamo-nos, e vamos dormir. Amanhã voltamos a correr, lado a lado: é uma promessa. Ritmo, movimento, e céu, que é como quem diz: tudo.

Álbum, número oito

Estou no meio da pista, e não sei se este é o lugar, ou se é outro, mas depois lembro-me que esta é uma pergunta de quem tem o sentimento como lugar, e o sentimento pode ser muita coisa, porque está dentro de nós, e não sei se este era o lugar, mas senti-me assim, como um adolescente que mais do que passar tardes a ouvir canções vive nelas, aposta tudo naquele lugar onde o som o leva, e o lugar, ontem, eram canções desses tempos, coisas que agora pertencem a um cânone, a um segmento limitado e pré-marcado para passar durante a noite, e não sei se “as pessoas não percebem” o que se passa quando essas canções tocam e estamos lá, porque sentem (vivem?) isso com outras canções, ou com outros filmes, ou com outras coisas, afinal de contas cada um tem os seus sentimentos, cada um teve a sua definição, cada um teve o seu trajeto, e ontem à noite senti-me bem a dançar, estava num lugar bom, o Éme tem uma canção que diz que “um lugar / é tão difícil de encontrar / um lugar” e é verdade, e quando encontras sabes, e ficas, de olhos abertos e pés no chão, uno.

Imagens

Na imagem — num dia sem tempo — estou com os pés junto ao mar, cobertos pela água das ondas que rebentam a um, dois metros do meu corpo moreno. Estou de calções vermelhos e com as mãos atrás das costas, a olhar em frente. Não contemplo, porque não estou descansado o suficiente para isso. Mas oiço as ondas a bater, aquele ruído intensamente calmo do circuito perpétuo das marés. Avanços, recuos, avanços, recuos. Olho para o fundo de todo o espaço e procuro ver a linha que divide o céu da água. Tento discernir um traço que seja, um horizonte mais claro ou mais escuro entre os dois grande azuis que se me apresentam à vista. Quando olho para a minha direita vejo a Carol a andar pela areia molhada, naquela linha mais estável onde os pés não afundam. Vejo o corpo vestido de biquini azul-cyan a desaparecer na imensidão do areal, aos poucos. Depois volto a olhar para o mar. Não contemplo, porque mesmo descansado tenho a cabeça cheia de coisas. Vejo o céu e lembro-me de Brautigan, que dizia que o seu lugar no mundo era ser nuvem. Vejo o mar e não penso em nada. Tenho muito em que pensar. Afinal, durante este verão li livros (demasiados livros), tive sonhos (tantos sonhos), e meti-me em aventuras. Tenho ideias, imagens, canções, momentos, memórias, energias — o diabo a sete. Não tenho é pressa, nem sequer peso (exceto físico). Tenho, isso sim, vontade. Tenho vontade de andar. E então viro-me e ponho-me a seguir a Carol, caminhando na linha do horizonte, com as minhas mãos soltas. Pés na terra, mar à vista, corpo quente, sob o céu.

Title: PIERROT LE FOU ¥ Pers: KARINA, ANNA / BELMONDO, JEAN-PAUL ¥ Year: 1965 ¥ Dir: GODARD, JEAN-LUC ¥ Credit: [ ROME-PARIS/DE LAURENTIIS/BEAUREGARD / THE KOBAL COLLECTION ]

Sonhos de ouro

Quando olhei primeiro, antes de mergulhar uma perna, pareceu-me que fosse uma minhoca. Mas ao olhar com mais atenção, e já com as duas pernas dentro do tanque, percebi que era só uma parte de um cabo de plástico, que deve ter caído com o vento. Estava muito calor ao sol, e talvez por isso a água não parecesse tão gelada. Ainda assim os meus sobrinhos perguntaram-me mais do que uma vez porque é que eu não mergulhava a cabeça. Estava com um livro na mão, a ler e a tirar notas, a ver o que é que uma das mentes mais conhecidas do positivismo jurídico tinha a dizer sobre a problemática da relação do direito com a política (spoiler alert: muito pouco). Acabei por mergulhar a dado momento, sem o livro nem o lápis. Às vezes tenho medo de me enfiar dentro de água. Não é uma coisa muito racional, acho que tem mais que ver com o frio do que com outra coisa, como, por exemplo, o medo de me perder. De me enfiar de cabeça na água e de voltar outro, de ali no mergulho deixar alguma coisa no fundo. Mais tarde, com as mãos raspadas e em ferida por terem aparado a segunda queda em jogos de basquete, sentei-me num banco junto ao tanque pequeno. O Jacinto tocava Leonard Cohen debaixo da árvore; estava um céu muito claro, com metade da lua cheia. Vi duas estrelas cadentes, e com binóculos consegue-se ver a cauda de um cometa, um pouco ao lado da Ursa Maior. Quando adormeci, aconteceu-me novamente: sonhei. Sonhar é como um mergulho: parece que quando entramos não sabemos como vamos sair. Nesta noite sonhei que encontrava os Capitão Fausto e lhes dizia que o meu sobrinho Baltasar (número cinco) me tinha confidenciado que tinha cuca-vírus (coisa que ele me disse mesmo, assim de repente, ao jantar). Não sonhei com o Dia do Gafanhoto, de Nathanael West, uma obra-prima da literatura norte-americana que a Snob editou e me recomendou numa das minhas idas semanais à Brotéria (a Snob é uma livraria e editora como uma livraria e uma editora devem ser, com ótimas edições próprias, uma belíssima seleção de livros à venda, e um atendimento impecável, cuidado e pessoal). O Dia do Gafanhoto é o melhor filme noir que vocês alguma vez vão ler; tenho a certeza de que até o “escritor fracassado” de Roberto Alt (também editado pela Snob) concordaria. Mas também não sonhei com o escritor fracassado, embora inconscientemente o tenha feito, nos últimos dias, enquanto acordado. Porque o calor, as ideias, o desejo, os sonhos… percebem? Há uma cena no filme Zabriskie Point, talvez o maior poema alguma vez filmado, em que o personagem principal entra num avião e foge da polícia. Ele já entra no avião transformado; a partir daquele momento a fuga torna-se uma espécie de sonho dourado sobre o deserto, o espaço maior de provação, de liberdade, de amor. Tenho tido alguns sonhos assim, de ouro. Sonhei com a Carol deitada numa piscina, a olhar para o céu, se bem que o céu podia ser os meus olhos, porque parecia que ela me estava a olhar e a sorrir daquela forma muito feliz e natural que ela tem. Hoje acordei e o Estêvão (sobrinho número oito) estava acordado, mas não queria ir para a sala, sorrindo de forma malandra, como quem está a preparar alguma. Enquanto bebia o leite com café pensei em Nanni Moretti a andar por Roma de Vespa, e a mergulhar numa piscina. Roma é uma cidade de verão: faz muito, muito calor. Depois sentei-me à secretária e escrevi no caderno: viver o verão. Tenho muitas páginas de teoria política e jurídica para ler e escrever, assim como algumas páginas de contos e romances onde me refugiar – e, talvez, alguns filmes. Tenho a Carol, tenho a família, tenho os amigos, e tenho o Beiral, e tenho a certeza de um desejo imenso, de me sentar um dia, livre (nem que por um curto momento) de ocupações intelectuais, para me dedicar a escrever uma história. A história é a seguinte:

B (that summer feeling)

Adorava ser criança para sempre. Assim posso usar tshirts com robôs desenhados quando for adulto. O tio dois usava, se calhar eu também posso. Mas e se for advogado? O tio dois é advogado, como o pai e a avó. O mano dois se calhar vai ser, não sei. Não sei o que quero ser quando for grande. Mas não me consigo imaginar para sempre dentro de uma casa. Prefiro estar fora, ao sol, de cabelo rapado. Gosto de filmes e de futebol, mas prefiro brincar, correr. Correr é bom. A mãe corre, e pinta. Gosto de me sujar e de me sentir livre. Lembro me de passar um aniversário da avó nas ilhas, e de estar no cimo de um monte muito verde, com água e nuvens por baixo. Era tudo muito bonito. Acho que já decidi o que quero. Vou ser criança para sempre, ou então vou passar o tempo a visitar montes e terras, e a estar no Beiral. Gosto muito do verão.