Algumas linhas

É engraçado como, pensando bem, o argumento de Jean Cohen sobre soberania e globalização a partir do pluralismo sabe a pouco. Mas agora vamos começar a preparar um euro digital, por isso… preciso de um livro. Tenho três, e a Carolina dois. Mas apesar de cinco ser um número bom, penso se não devia haver mais um, só para o caso. Há quem leia nas férias o policial do airbnb onde está hospedado – lembro-me de um tempo em que avaliava airbnbs com base nos livros e filmes que por lá encontrava. Parece-me uma boa ideia: ler, explorar. Estamos a fazer as malas, levamos máquina fotográfica e sapatos para caminhar. Queria fazer uma lista de canções, mas não fiz nenhuma lista de canções. Teria Bruno Pernadas, João Bosch, 2nd Grade, Chai, Hand Habits, e… o Jacinto faz anos hoje, relembrando-nos mais uma vez que a juventude não é uma idade e sim um estatuto, um modo de vida. Cantemos, então.

O primeiro mês

Quando acordei, no dia seguinte, era domingo e o quarto estava frio. O chamado oeste português tem esta mania de começar nublado, e de ir abrindo aos poucos. O primeiro mês começou assim, num hotel no oeste, com uma aliança no dedo e um cinto esquecido em Lisboa, para mal das minhas calças. Dediquei-me então à engorda, que acho que é uma dedicação típica e razoável para os primeiros tempos de matrimónio. Passaram-se trinta dias, com muitos exames, muitos testes, alguns almoços, a primeira temporada do Pose, um passeio por Monsanto, um capítulo de tese, um campeonato da Europa, e uma nova sobrinha. Ainda preciso de usar cinto, mas já estou mais compostinho, pronto para a lua-de-mel que aí vem. A Carol sonha com caminhos e passeios, com cascatas e verde. A mim apetece-me o mar, as poças e os mergulhos. Temos muita sorte: ontem celebrámos um mês do melhor dia das nossas vidas e voltámos a sentir isso. Agora apetece-nos a distância, o tempo, e o espaço de um arquipélago. Estamos contentes, tal como no dia seguinte, ou no dia anterior, ou no primeiro dia em que nos sentámos num balcão lisboeta a desfrutar um do outro. Com a Carol é tudo bom, tudo certo, tudo forte, como as melhores canções indie-rock. Fiquem com esta, uma preferida dos últimos tempos. Prometo dar-vos mais, em breve. Até já.

Plácidos Domingos (fim / início)

A dado momento houve uma partida. Não foi imediata, mas progressiva: uma primeira saída para ir colocando os móveis, uma segunda para ir arrumar as caixas, voltando aqui e ali para ver como é que as coisas estavam neste canto, como é que me estava a aguentar, o que estava a fazer (se os discos estavam bem arrumados, essas coisas). Até que, recentemente, olhei à volta e apercebi-me que a despedida tinha acontecido, que o Martinho – ou um tempo, espaço do Martinho – tinha saído. É engraçado, porque já nem me lembro bem dele. Não é muito diferente de mim; aliás, é bastante parecido, na falta de jeito, na falta de pudor, no humor, no gosto por croissants brioche… Mas era um Martinho que foi. Que já era, que já não é. Que já não sou. É estranho, é engraçado (para mim, são duas palavras com sentidos muito semelhantes). Mas ontem reparei nisso. Não houve dor, nem houve chatice com a partida. Foi tudo muito normal, muito leve, muito certo. E sucedeu: aconteceu. Não houve um momento, um jantar ou um evento qualquer. Clássico Martinho, saindo à socapa, com dois ou três adeus e um piscar de olhos. Às vezes ainda o vejo, quando passeio sozinho na rua, ou ando de carro à noite; o mesmo Martinho que se apaixona com as luzes da Avenida de Roma, com paisagens amplas e abertas, que podia ficar horas sentado a ver o mar ou a passear por ruas estrangeiras, e que adora guiar. O mesmo Martinho que gosta de agarrar as pessoas e de as sentir, que adora ideias e imagens e canções tanto como gosta de mãos, de pedras, da terra nos dedos. Que torna tudo uma história, uma estrutura, uma lógica, nem sempre linear. Às vezes, no banco de trás do carro, lá este ele, com o sorriso de quem descobre, no meio do que se passa, algum tipo de graça real e ingénua. É um bom tipo, mas não tão capaz, não tão forte, não tão corajoso. Muito ele, não tão eu. O motivo é um: é que esse Martinho não tinha a Carol, não era com ela. Agora é. Já é há algum tempo – diria mais, sempre foi. Sempre fomos, a Carol e eu, desde que nos conhecemos. Um com o outro e um para o outro. Foi tudo muito normal, muito leve, muito certo, e acrescentaria: bonito como ao raio. Às vezes ainda me surpreendo, sobretudo quando ela sorri. Não há coisa no mundo mais bonita e desarmante do que o sorriso da Carol, na sua inocência e certeza, no seu sentimento e beleza, na sua promessa, na sua vida. Esqueçam. Tragam-me os desertos que quiserem, os monumentos antigos e as modernices mais vanguardistas; falem-me de qualquer pôr-do-soloriental e de qualquer praia portuguesa, de qualquer estrada americana ou praça europeia. Falem-me de livros, dos melhores poemas que conhecem, de discos, de caras, de ações. Não há nada, nenhum tesouro maior, nenhum doce mais insuperável que o sorriso dourado da Carol, numa manhã de fim-de-semana, no sofá, enquanto tomamos o pequeno-almoço e olhamos pela janela. Nem as suas mãos de anjo, nem as suas bochechas de criança ou as sardinhas da sua cara. Não há nada, nada. Arrebata-me o quanto sou dela, e o quanto ela é minha; o quanto somos, um com o outro, e como nos tornámos assim. Aconteceu, sucedeu. Ela é a minha rocha e a minha casa. É a minha melhor amiga, o meu refúgio. E a minha exigência, o meu caminho. A Carol é a minha mulher – bem, do ponto vista canónico-jurídico só será daqui a sete dias (ui, está quase, não está?). E apesar de, dito assim, o acontecimento de dia 12 de junho parecer uma formalidade, nada disso: sinto que é o momento bonito de nos assumirmos como transformados e como novos seres que somos, perante Deus e os outros. É, o momento em si, ele mesmo fundador. Estou para lá de feliz, diga-se de passagem, por ser o marido dela – porque yass, há coisas nesta vida que valem, verdadeiramente, toda a pena. O Martinho dava muitas graças a Deus, no meio de toda a sua fragilidade, pelo muito que sempre teve. Deus deu-lhe uma nova Graça. Não sei muito bem lidar com o amor, não sou espetacular a receber, admito. Mas por ela, e para ela, sou tudo. Sou todo. Sou eu, com ela, e ela, comigo. Na casa, na rua, nas lides e nos afazeres, nos descansos e nas tensões, nos pequenos e nos grandes pormenores. O Martinho sabe disso, e está muito contente. Consigo senti-lo a rir-se connosco, no banco de trás do carro, abanando a cabeça ao som de todos os sons que pomos no rádio, especialmente no Avicii. “Oh, às vezes, tenho um feeling”, dirá ele. Foi bom sê-lo. Foi mesmo muito bom sê-lo, e espero que aí, desse lado do ecrã, também tenham achado o mesmo. Agora, vão ter de lidar comigo. Para ser franco, acho que já andavam a lidar, desde há quase três anos. Sou parecido, mas diferente; melhor, todos os dias. Tenho, dentro de mim, um sorriso do tamanho do mundo. E, ao meu lado, o melhor de todos, a melhor de todas. Ligo o rádio, e toca a canção mais esperançosa que a humanidade já viu. Canto, com o Martinho, como Martinho, que “A porta abre-se / lá estás tu / como uma visão do céu / e no rádio” – num momento de filme, esta seria uma música de entrada perfeita – “Roy Orbinson canta: ‘estou sozinho’ / como estás, eu sou o Martinho” – num momento de filme, olho para a Carol, nos olhos, e remato – “e vou casar contigo”. Bem-vindos ao amor, à minha última semana de solteiro, ao meu último postal enquanto (este) Martinho. Depois, dia 12, as coisas serão – neste momento, na vida real, estou a acabar de ler isto à Carol numa mesa de um restaurante italiano de domingo, com as lágrimas a caírem-me pela cara – como o Ben Lerner diz que os Hasidis dizem que vão ser: iguais, mas diferentes. Até já.

O senhor Sokurov

O senhor Sokurov estava a subir a rua. Era de noite, a rua estava amarela, com as luzes, as cores dos prédios, e ao contraste com a estrada escura, com o céu escuro, com os sacos pretos do lixo que estão junto às portas, devido a uma qualquer política municipal. O senhor Sokurov estava a falar alemão enquanto passeava o cão (se calhar é um programa, falar línguas enquanto se passeia um cão, de noite). Ainda não percebo muito bem alemão, mas parecia-me que o senhor Sokurov estava a contar uma história, a descrever qualquer coisa – a rua, a straße amarela, ou então a música sacra que se ouvia, cantada pelo grupo coral da casa de baixo. O senhor Sokurov estava a subir a rua, levando o cão pela trela, o cão que punha o focinho junto de cada saco do lixo, enquanto o dono falava para o ar em alemão, conversando com Deus sobre isto, aquilo, e as estranhas políticas municipais deste sítio.

Efeméride

Nunca fui bom a responder, nem sequer pontual. Desde há um ano para cá que a coisa agravou-se. Não foi a única coisa que piorou; a barriga ainda é grande, a vontade de filmes é pouca, o telhado ainda não está arranjado, e tenho mais cabelos brancos. Passado um ano compro kombuchas no supermercado sem ter um pingo de vergonha, deixei-me das papas de aveia ao pequeno-almoço, curto bué cenouras descascadas durante o lanche, e assumi o pão que é vida – o de hoje veio de uma padaria dinamarquesa, e tinha um sabor profundo (outra coisa em que sinto que piorei: na utilização de palavras). O que melhorou foi o ritmo, a dedicação, a organização, e o saber receber. E o conhecimento da matéria, dos manuais, das teorias, das opiniões… Há um ano atrás acho que fazia algum sol, mas não me lembro bem: a sensação que tenho é que a chuva foi um fenómeno posterior, que veio durante o período de desconfinamento a seguir ao Verão. Nessa altura já estávamos com uma rotina e um hábito, já tínhamos o tapete na sala, o Dick Johnson (a nossa planta) já cá vivia, e a nossa série da noite era… não me lembro. Talvez depois me lembre, quando sair do modo tese que me vai ocupar todo este ano, pela última vez, mas por todo este ano. Sem postais, sem filmes, sem canções, só com escritas, com ideias, com argumentos e estruturas. E aulas, discussões. Talvez nessa altura me possa lembrar e constatar, como neste sábado de manhã, depois de comer um pão dinamarquês com uma fatia de queijo limiano, da naturalidade espantosa e certa com que a minha vida aconteceu, durante a pandemia, com uma miúda de sorriso luminoso, num quinto andar sem elevador. Sabem, ainda oiço discos, aqui e ali. Mantenho listas de canções. Devoro jornais, e tento manter-me o mais possível afastado de redes sociais para não dispersar. Gostava de rezar mais, devia rezar mais. Devia agradecer todos os dias por no dia doze de março de dois mil e vinte me ter metido em casa com a Carol, sem fazer ideia de quando iríamos sair. Hoje está sol e é para sair, e descansar. Segunda-feira, lá vamos nós outra vez, down down.

Primeiro de Março

Interrompo o tempo só para dizer: Orange is the New Black (sériezaço), e isto: não sabia que a canção “Sou Tão Feliz“ que a malta da Maternidade canta no seu bonito conjunto de canções “Outras Maneiras” era uma canção antiga (mais precisamente, de 1967), mas faz todo o sentido, porque tem aquela certeza dos clássicos, simples e directa, se bem que esta malta da Maternidade conseguiu uma coisa mesmo fixe, que foi transformá-la um hino de bem e juventude, entre calmas e aceleranços, e fica mesmo bem, sobretudo quando ouvida no primeiro dia do terceiro mês do ano, com todas as muitas coisas que se estão a passar, é bom começar o mês assim, a dizer (a sentir) que sou tão feliz, feliz, feliz, e era isso, vou voltar para o covil, onde “há canções de amor / logo pela manhã”, e inté (está quase, hein? está quase).

18. Tradução

Vinte vinte e um, como chegámos até aqui?

Gostava de saber o que fazer por ti

(oi, oi)

Estou só assim

(oi, oi)

Vinte vinte e um olha só para mim

Vou fazer-te viver tudo até ao fim

(oi, oi)

Até ao fim

(solo de guitarra imaginário)

(tradução mini-ridícula de 2021 dos Vampire Weekend)

16. Talharezes

Quem precisa de letras? Acho que precisamos mais de sonhos, se querem que vos diga. Tenho vários; hoje, ao pequeno-almoço, enquanto explorávamos um guia do Canadá, tive imensos. Um dos sonhos que tenho – não relacionado com o Canadá – é fazer um disco de versões dos Mountain Goats chamado Talharezes. Talharezes é uma terra que fica junto à eco-via do Rio Lima, antes de Gemieira. O título do disco-sonho é uma piada-homenagem minhota a um dos quatro opus da banda, o álbum Tallahassee (os outros três são: The Sunset Tree, All Hail West Texas, e Transcendental Youth). Ontem, enquanto aquecia o jantar, lembrei-me do sonho, e de uma viagem noturna para Sintra, a conduzir o carro da minha mãe, no final do verão, iniciando um período interior que vim a pré-caracterizar como “de baixa fidelidade”, com o disco a tocar. Não sei se já o ouviram. Fui ouvi-lo outra vez. Tem pouquíssima percussão, o ritmo vem todo das guitarras e do baixo. É muito bom; especialmente de noite, quando está “tudo tão calmo: o amor, as pessoas, e os livros”.

15. Fevereiro

Passaram-me pelos olhos várias letras, mesmo muitas (nem queiram imaginar quantas). O meu dia é cheio de letras, tal como o teu, imagino. Mas não me ficou nenhuma em especial na cabeça. Estou agora a começar a parar, a perceber que é o primeiro dia do mês. Ponho a canção e caio no sofá. Deixo o espaço vir, vir, vir (mas esperando que a seta, mais logo, seja vermelha, claro).

13. Passos (de corrida)

Corri apenas cinco quilómetros esta semana, na quarta-feira, a cinco minutos e cinquenta e oito segundos por quilómetro. Levei só uma camisola, da próxima vou sem (da próxima é que é). Segunda de manhã descansei da noite de eleições, sexta de manhã preguicei. Talvez compense amanhã (vou compensar amanhã). Imagem da corrida: uma senhora com a pele muito enrugada pelo sol, com um casaco azul claro a tirar uma fotografia ao barco que se preparava para atracar no Cais do Sodré. Olhar fixo, de olhos azuis. Fiz uma nova lista de canções, com Green Day, Maternidade, Foo Fighters, Maria Reis, Guided By Voices, Lande Hekt, Camp Trash, Pavement, Snail Mail e Neutral Milk Hotel. Podem ouvir a lista aqui. De resto, um bom sábado per tutti – mantenham-se a salvo.

12. Preguiça e perspetiva

Falava com um outro Martinho, que se encontra no Brasil, sobre como é difícil aguentar o tempo confinado. Bate a todos, e todos temos maneiras de lidar com as limitações de espaço e de tempo. Montamos rotinas, cumprimos com os trabalhos, entretemo-nos com leituras, redes sociais, séries e filmes, vamos correr ou cozinhar… Mas, inevitavelmente, a perspetiva de um período longo nestas condições acaba por levar à preguiça – e sabemos que chegámos à preguiça quando fazemos uma espécie de “zapping” na secção “Para ver casualmente” do Netflix (se já lá foram parar, saibam que estão perto do fundo). A preguiça e a procrastinação são duas das coisas simultaneamente mais deliciosas e tramadas que a existência produziu, sobretudo quando o tempo é só tempo, sem movimentos adicionais. Ficamos, assim, com o dia que está e com o que temos connosco (nevoeiro, obras no telhado, rissóis de leitão no congelador), o que, admitamos, não é coisa pouca. Estava a ler um excerto de Joan Didion em que a autora falava de como se distraía com o próximo e o imediato, face às ideias. Partir do pequeno para o grande, observar os detalhes, questionar o que está em redor. Por exemplo, a chaminé cinzenta e alta que está mesmo ao lado da palmeira, a bloquear a vista para o mar. Mas quem é que teve a ideia de fazer aquilo?

11. Publicista

Estava a vir da corrida quando vi a placa nas escadas. Nunca tinha ouvido falar de Raul Esteves dos Santos – foi diretor do jornal A Voz do Operário e preso político durante o Estado Novo – mas fixei o título: publicista. Um publicista é um jurista da área do direito público (o direito da política, e do poder de governo); mas o priberam (nota: arranjar um dicionário bom) diz-me que outro significado é o de “escritor público”. A noção de espaço público e sua contestação / transformação foi bem descrita por Arendt (vide A Condição Humana) como o espaço que as pessoas partilham, apresentam-se e relacionam-se umas com as outras. Um publicista é, assim, alguém que se destaca no espaço público, pela manutenção desse próprio espaço e dos que nele vivem. Parece-me uma boa caracterização, que faz falta voltar a ter significado, sobretudo nos tempos que correm.

10. Palmeira

Quanto mais me aproximo, mais ela diminui. Vista da sala, parece uma daquelas imagens de noticiário, captadas num país tropical assolado por tempestades, com os ramos e o tronco a baloiçarem no meio de céu cinzento muito baço. Mas quando chego perto da janela, a palmeira é apenas um objeto perdido no vento, no meio dos telhados e tectos e janelas e terraços. Nada de supremo ou espacial, apenas uma querida ilusão confinada à minha manhã.

9. Políticas

O governo está em modo gestão da pandemia, gestão de danos e gestão de desgaste, sem qualquer plano que não de curto-médio prazo (e mesmo esses são muito atabalhoados). Os partidos tradicionais do centro direita estão sem liderança (é incrível a nulidade que é a direção do CDS), sem ideias, e no caso do maior partido dessa ala política, a abrir a porta a um jogo de poder cuja táctica é para lá de perigosa. A Iniciativa Liberal continuará a crescer na justa proporção que o PSD e o CDS continuarem a descer, mas precisa de mais do que uma comunicação divertida e gente bem intencionada. O Bloco de Esquerda é e será apenas oposição, enquanto que o PCP se manterá no seu reduto enquanto prepara afincadamente o combate das autárquicas (onde se joga cada vez mais, e mais do que no Parlamento, o futuro do seu peso e relevância políticos). Quanto ao Chega, vai continuar a subir em detrimento da direita centrista, e a única coisa que pode impedir a catástrofe que seria Ventura tornar-se essencial para a formação de governo ou de oposição é uma mudança de paradigma no PSD e no CDS, que só pode vir com a substituição dos atuais líderes por pessoas que representem e lutem por verdadeiras alternativas democráticas, cívicas, constitucionais, visionárias e transformadoras no espectro político corrente. Sem essa alternativa, estamos em terreno minado. Marcelo foi reeleito, declarou-se atento à situação, e pareceu declarar que ia ser mais interventivo neste segundo mandato. Trabalho não lhe vai faltar (nem a nós, já agora; nem a nós).

8. Colagens: a letra cê

Constituição. Caos. Carlos. Colagens. Corrida. Carmo – ok, largo do, estiquei-me com essa, admito. Mas, nos títulos, tem estado sempre a letra cê. Não fiz de propósito, fui deixando aparecer. Disseram-me: cê devido ao big cê da verdade, Carol. Sempre, Carol para sempre. Cê de Covid? Vamos falar de outra coisa. Cê de cabidela. Estava tão boa… Cê de cinema – o método, forma, quadro com que encaro a realidade? O que é vida ou deixa de ser? A palavra política também tem a letra cê, mas no fim, antes da letra à. Hoje é dia de reflexão, por isso não vou desenvolver nenhuma ideia ou pensamento, deixo isso para segunda-feira. Está um bom dia para reflectir: chuva forte, café demasiado passado, papas de aveia sem mel suficiente. Dia vinte e três de janeiro e tanta coisa que parece que já aconteceu: o tempo foi pela janela desde que a pandemia chegou. Só o clima é que nos vai dando uma noção mais concreta e definida de espaço. Ontem comecei a fazer uma canção, e a aprender a misturar canções com um guia que descobri na internet. Há uma palavra ótima no meio de tanta terminologia técnica: chama-se equalização. Mexer com frequências, atribuir “claridade” e “profundidade” ao som. É uma aventura, moldar a irrealidade. Passei para uma fase descritiva da tese, antes de voltar ao analítico. Estou a gostar muito do livro Gelo da Anna Kavan, que me lança em caminhos diferentes a cada parágrafo, onde “a realidade é qualquer coisa cuja quantidade é desconhecida”. Passou-se uma semana, que pareceu imenso. Não faço a mínima ideia de qual será a letra da próxima, ou se haverá sequer uma letra. A (ir)realidade está dura, e vai continuar assim; que tenhamos força para a receber, viver e enfrentar. Agora, vou voltar a ler, a aprender, e a misturar.

7. Corrida semanal

Esta semana corri quinze quilómetros. Percurso habitual. Primeiro dia com duas camisolas devido ao frio, segundo dia arrependido de ter mantido as duas camisolas, terceiro dia só com uma camisola e arrependido de não estar só de t-shirt. Calçada húmida, algum vento junto à margem, e a conseguir evitar poças de água aqui e ali. Passo médio foi de seis minutos por quilómetro, acusando o peso e a falta de forma (e alguma impressão nos gémeos). Resultados imediatos: sede, apetite, e quebra pós-almoço mais acentuada. Imagem que fica: no Rossio, um homem muito elegante com uma barba parecida à do Charlton Heston no filme Os Doze Mandamentos; vestia um fato azul com uma gravata rosa, e andava pela rua com um ar espantado, surpreendido. A lista musical incluiu (em shuffle):

1- Wilco, “I’m Always in Love”

2- Thin Lizzy, “The Boys are Back in Town”

3- Veenho, “Meio Ausente”

4- Glockenwise, “Dia Feliz”

5- Drake feat. Lil Durk, “Laugh Now, Cry Later”

6- Grandaddy, “The Crystal Lake”

7- New Pagans, “Christian Boys”

8- Weezer, “All My Favorite Songs”

9- The Kinks, “All Day and All of the Night”

10- King Krule, “Dum Surfer”

Podem ouvir aqui. Bom fim-de-semana.

6. Carmo (largo do)

Faltavam ovos, fui comprar. No caminho encontrei uma senhora à janela a falar altíssimo, como se a rua fosse a sua sala de estar. No Largo do Carmo estava um senhor com um saco de roupa por lavar em cima da mini-roulote da Leitaria do Carmo. Reparei que não havia guardas na entrada do quartel. Não havia, de facto, muita gente na rua. Desci para o Rossio. O café da esquina que ainda estava aberto na segunda-feira, quando fui correr, fechou. Olhei para o lado, e numa transição de cenário narrativo à la Anna Kavan (o meu livro, já agora, é o Gelo, recomendação muito acertada do “braço” na Brotéria da livraria Snob) é de noite, um dia posterior e chove um pouco; já temos ovos, vou comprar peixe. Está um casal junto à a janela da estação do Rossio, duas sombras escuras contra a luz interior da paragem. Ele afasta-se, ela aproxima-se; depois trocam de movimento, mas nunca se encontram. Continuam nisto quando volto, com dois robalos no saco isotérmico. Fico a vê-los um pouco, até se juntarem e entrarem na estação. Oiço uma grande canção da Lande Hekt enquanto subo as escadas. Mais tarde emociono-me com o final do Gambito de Dama (boa série, sólida), quando (spoiler alert) os russos que jogam na rua reconhecem Liz Harmon. Não me perguntem porquê, achei bonito. Sou uma pessoa sensível. Não sei se alguma vez vos tinha dito isso.

5. Caos (calmo?)

Caos calmo é o nome de um livro de Sandro Veronesi que deu depois origem a um filme de Antonello Grimaldi. Nunca li o primeiro, nem vi o segundo, mas adoro o título: a mescla fonética e a contradição simbólica das palavras. Está a ser o título desta semana. Em casa, tudo calmo – tese, testes, Carol, Gambito de Dama (acabamos hoje). Comecei a ler o meu livro, devo acabá-lo até sexta-feira. Lá fora, bem, chuva, casos a subir, hospitais a rebentar, escolas quase a fechar, comunicações contraditórias (outro duo tramado de palavras) e incerteza social geral. Caos, portanto, ou qualquer coisa perto disso. Há boas notícias: as presidenciais estão quase aí, Trump está fora, há um novo som de Hand Habits a circular e, graças a uma prenda da madre, consegui fazer o impensável: arroz de cabidela em Lisboa. Não é a mesma coisa, mas no meio de tudo isto soube muito bem. Muito, muito bem.

3. Constituição

Não há dificuldade que venha sem que alguém levante a constituição. Sendo “o campo de batalha” jurídico entre o político e o social, é nos momentos de tensão destes últimos que o seu significado – e, consequentemente, o seu valor e força – procura vir ao de cima, invocado por quem busca uma resposta do poder político ou uma justificação para o exercício do mesmo, ou apenas uma forma de sobreviver (como o restaurante em Lisboa que invocou o direito de resistência para se manter aberto). Juntem uma crise a uma campanha eleitoral para a presidência da República (o órgão de soberania mais complexo do nosso sistema político) e não nos faltarão, dia sim dia sim, apelos “constitucionais” de sentido dissonantes na praça pública. Tanto vemos apelos em defesa da constituição, clamando por uma manutenção de um determinado status quo ou pela concretização de um estado de coisas que nunca foi implementado ou que ainda está por vir, como há apelos contra a constituição, pedindo a sua maior ou menor revisão. Esta batalha pela constituição é, no fundo, a batalha por um projeto de uma coexistência política que se quer permanente, livre, justa e próspera, e não começa nem acaba com o texto, mas vai para lá dele, guiando-se pelas premissas e promessas que se estabeleceram na altura da redação, relacionando-se com as mesmas e com as forças e dinâmicas, mais uma vez, políticas e sociais, que o futuro vai transformando em presente, sedimentando, através do passado, uma carga de significados, confusos e complexos, que em conjunto se agregam ao que chamamos de constituição e lhe vão acrescentando alma. Uma discussão sobre a constituição nunca é sobre o texto, mas sim sobre o país (regime e sociedade) que fomos, somos e que queremos ser – sobre o que foi e o que é, sobre o desejo e o sonho (e o medo) do que pode vir a ser. É importante, nesta época de dificuldades e afetação extrema de vidas, empregos, empreendimentos, presentes e futuros, com forças extremistas a crescer no campo político e tentativas de pôr em causa uma ordem de valores necessária a uma vivência liberal (aqui não no sentido de “facção” à la Iniciativa Liberal, mas com o significado de “base” existencial da sociedade democrática – nas palavras do Francisco Mendes da Silva, o próprio “recinto do jogo político”), pensarmos e agirmos sobre a sociedade que queremos e pela qual queremos lutar; em suma, sobre quais os nossos princípios, que é o mesmo que dizer sobre qual a nossa constituição. Que tenhamos isso em mente todos os dias, sobretudo no domingo que aí vem.