Do bairro

I take a sip of my meia-de-leite / in this franchised-looking padaria / and I immediatly think of being together / with summer-you / with your heart-smile always on / in Bali or Myanmar / or some northern Thai forest / or vietnamese enclave / talking, walking / the amazing light of nothingness / the place is not important / time is of greater significance / time and the glow in your face-heart / your skin-love / your daily-promise / I take a sip of my meia-de-leite / in this neighbourhood I now call mine / and I smile-kid / as I watch the Italian tourists ask / for two espresso macchiato / that the waiter translates as / “saem dois garotos / ‘faz favor.

Morreu Stanley Donan, e Spike Lee ganhou um óscar. É engraçado. Estava sentado à mesa de um restaurante na Avenida da Liberdade a almoçar, com uma réplica de um esqueleto de dinossauro nas costas, e um empregado com um conhecimento enciclopédico da casta Alvarinho a servir-nos. A minha colega disse à mesa que eu tinha estudado cinema. E é verdade, houve um tempo em que estudei cinema. Via filmes, lia livros, mas só muito mais tarde é que vi o Singing in the rain e aprendi com o Gene Kelly e a Debbie Reynolds o que era, verdadeiramente, a graça maior de um musical. Hoje em dia visto um fato e uso uma gravata, carrego uma mala vermelha de estilo anos-50 para reuniões. Mas ainda consigo, entre caminhos, parar e ficar sentado, com esta figura forense, no banco que há na entrada da cinemateca, e respirar por dez minutos. Não danço: guardo isso para outros momentos, mais graciosos. Mas é engraçado. Estava à espera de começar a jogar à bola quando o Tomás me perguntou se eu ainda tinha um blog. O Tomás costumava ler o meu blog para conhecer novas bandas. E é verdade, tinha e tenho um blog, mas já não falo tanto sobre bandas. O Tomás perguntou-me o que ando a ouvir, e eu não me lembro o que disse – acho que disse Girlpool, podia ter dito John Coltrane – mas se tivesse sido ontem ter-lhe-ia respondido Ariana Grande. Talvez Debbie Reynolds percebesse, e dançasse hoje em dia ao som de Ariana Grande. Quanto a Gene Kelly, não sei, talvez preferisse Coltrane. O que sei é que depois estava a dar uma formação sobre transferências de dados quando vi que o João estava na sala. O João era um colega de faculdade que ouvia boa música. Adorava os Orange Juice, fez um mestrado em Glasgow, e agora é advogado na Madeira. Imagino-o com a sua barba, sentado numa varanda com vista para o mar, a ouvir os Arab Strap enquanto bebe um copo de poncha – da última vez que fui à Madeira, devido ao casamento de um amigo, escrevi um postal no blog inspirado na música The Boy With the Arab Strap dos Belle and Sebastian: chamava-se O Rapaz Com o Fraque às Costas, visto que fui para lá, literalmente, com um fraque às costas. E é engraçado, o João foi uma vez a um concerto da minha banda; no final do evento disse-me que nos achou parecidos com o Jonathan Richman e os Modern Lovers. Só o ano passado, ao ouvir o Jonathan Richman com atenção, é que percebi o tamanho do elogio. E, de facto, tenho andado nos últimos tempos com um “summer feeling” danado, apesar de ter comprado recentemente um fato de lã (saldos). Deve ser das fotografias antigas que me mostram, de tempos de cabelo curto, com o verão na cara. Ou dos passeios ao sol no fim-de-semana, sem óculos escuros, mas com as mãos dadas. Ou das pesquisas por imagens e dicas de viagem para locais asiáticos, terras de sol nascente, sonhos de férias de nada. Dizem que as coisas boas, quando existem, parecem sonhos. Mas não, são a realidade. Pratico a realidade, e tenho a graça de a receber. Querem melhor musical? Stanley Donan fez um belíssimo, talvez o melhor deles todos, tal como as joints de Spike Lee são, regra geral, imperdíveis. E oiço bandas e vejo filmes, planeio viagens e marco teatros. Mas nada bate o fechar de um dia ultra. Não é engraçado, é simples. Tão simples e indescritível que é bom, mais do que bom, para lá do que

O que faço eu aqui (por provocação de um poema com o mesmo título de Juan Vicente Piqueras)

E então resolvi sair do escritório e aproveitar o que resta da hora de almoço ao sol, na rua, e acabei por descer até à FNAC, onde não há sol mas há livros, e folheei alguns, sobretudo de poesia, e anotei o nome dos que gostei, os que tinham bons versos, e ainda fui à secção de livros em inglês passar a mão pelas capas, ver as novidades, antes de me sentar a ouvir uma espécie de bossa nova de décima-segunda categoria na sala de leitura, sem livros mas com alguns versos, escritos rapidamente no telefone, e pensei ali em ser poeta, em assumir-me como tal, apresentar-me como tal, olá, sou o Martinho, advogado académico blogger e poeta, e a partir daí escrever e publicar versos mil com sentido e vida, mas levantei-me e voltei para o sol, para a rua, e subi-a e voltei para o escritório, olhando para as montras no caminho e controlando-me para não beber um terceiro café na copa, ao chegar, porque apetecia-me o sabor de um café quando me sentei para trabalhar, tal como me apetecia saber escrever poesia, saber pôr em versos a imagem da lua, cheinha como tudo, a cair sobre o rio e a ponte, ai a lua a ponte e o rio, aquela imagem típica de postal turístico, clichê lisboeta, meu Deus eu sei, até vi um tipo hoje com uma câmara num tripé a fotografar a imagem, junto ao MAAT, mas eu gostava de vos poder fazer ver isso mesmo, o efeito dessa imagem, em dizer-vos como o rio escuro brilhava, não como prata, mas como qualquer coisa demasiado real e bonita para ficar apenas condenada a existir durante um simples momento, aquele momento em que eu regresso do Padrão dos Descobrimentos, a cinco quilómetros e vinte e cinco por minuto, a ouvir o Time After Time da Cindy Lauper, a sentir o tornozelo esquerdo a doer, e com a cabeça completamente noutra, no céu, no rio, em frente, completamente em frente, completamente bem, completa e mente tudo, e depois deixei-me ir, com poesia e sem versos, apenas passos e respirações, até acabar a maldita hora de corrida que prometi dar à casa por mais um bom dia de fevereiro. Soube bem.