18. Tradução

Vinte vinte e um, como chegámos até aqui?

Gostava de saber o que fazer por ti

(oi, oi)

Estou só assim

(oi, oi)

Vinte vinte e um olha só para mim

Vou fazer-te viver tudo até ao fim

(oi, oi)

Até ao fim

(solo de guitarra imaginário)

(tradução mini-ridícula de 2021 dos Vampire Weekend)

16. Talharezes

Quem precisa de letras? Acho que precisamos mais de sonhos, se querem que vos diga. Tenho vários; hoje, ao pequeno-almoço, enquanto explorávamos um guia do Canadá, tive imensos. Um dos sonhos que tenho – não relacionado com o Canadá – é fazer um disco de versões dos Mountain Goats chamado Talharezes. Talharezes é uma terra que fica junto à eco-via do Rio Lima, antes de Gemieira. O título do disco-sonho é uma piada-homenagem minhota a um dos quatro opus da banda, o álbum Tallahassee (os outros três são: The Sunset Tree, All Hail West Texas, e Transcendental Youth). Ontem, enquanto aquecia o jantar, lembrei-me do sonho, e de uma viagem noturna para Sintra, a conduzir o carro da minha mãe, no final do verão, iniciando um período interior que vim a pré-caracterizar como “de baixa fidelidade”, com o disco a tocar. Não sei se já o ouviram. Fui ouvi-lo outra vez. Tem pouquíssima percussão, o ritmo vem todo das guitarras e do baixo. É muito bom; especialmente de noite, quando está “tudo tão calmo: o amor, as pessoas, e os livros”.

15. Fevereiro

Passaram-me pelos olhos várias letras, mesmo muitas (nem queiram imaginar quantas). O meu dia é cheio de letras, tal como o teu, imagino. Mas não me ficou nenhuma em especial na cabeça. Estou agora a começar a parar, a perceber que é o primeiro dia do mês. Ponho a canção e caio no sofá. Deixo o espaço vir, vir, vir (mas esperando que a seta, mais logo, seja vermelha, claro).

13. Passos (de corrida)

Corri apenas cinco quilómetros esta semana, na quarta-feira, a cinco minutos e cinquenta e oito segundos por quilómetro. Levei só uma camisola, da próxima vou sem (da próxima é que é). Segunda de manhã descansei da noite de eleições, sexta de manhã preguicei. Talvez compense amanhã (vou compensar amanhã). Imagem da corrida: uma senhora com a pele muito enrugada pelo sol, com um casaco azul claro a tirar uma fotografia ao barco que se preparava para atracar no Cais do Sodré. Olhar fixo, de olhos azuis. Fiz uma nova lista de canções, com Green Day, Maternidade, Foo Fighters, Maria Reis, Guided By Voices, Lande Hekt, Camp Trash, Pavement, Snail Mail e Neutral Milk Hotel. Podem ouvir a lista aqui. De resto, um bom sábado per tutti – mantenham-se a salvo.

12. Preguiça e perspetiva

Falava com um outro Martinho, que se encontra no Brasil, sobre como é difícil aguentar o tempo confinado. Bate a todos, e todos temos maneiras de lidar com as limitações de espaço e de tempo. Montamos rotinas, cumprimos com os trabalhos, entretemo-nos com leituras, redes sociais, séries e filmes, vamos correr ou cozinhar… Mas, inevitavelmente, a perspetiva de um período longo nestas condições acaba por levar à preguiça – e sabemos que chegámos à preguiça quando fazemos uma espécie de “zapping” na secção “Para ver casualmente” do Netflix (se já lá foram parar, saibam que estão perto do fundo). A preguiça e a procrastinação são duas das coisas simultaneamente mais deliciosas e tramadas que a existência produziu, sobretudo quando o tempo é só tempo, sem movimentos adicionais. Ficamos, assim, com o dia que está e com o que temos connosco (nevoeiro, obras no telhado, rissóis de leitão no congelador), o que, admitamos, não é coisa pouca. Estava a ler um excerto de Joan Didion em que a autora falava de como se distraía com o próximo e o imediato, face às ideias. Partir do pequeno para o grande, observar os detalhes, questionar o que está em redor. Por exemplo, a chaminé cinzenta e alta que está mesmo ao lado da palmeira, a bloquear a vista para o mar. Mas quem é que teve a ideia de fazer aquilo?

11. Publicista

Estava a vir da corrida quando vi a placa nas escadas. Nunca tinha ouvido falar de Raul Esteves dos Santos – foi diretor do jornal A Voz do Operário e preso político durante o Estado Novo – mas fixei o título: publicista. Um publicista é um jurista da área do direito público (o direito da política, e do poder de governo); mas o priberam (nota: arranjar um dicionário bom) diz-me que outro significado é o de “escritor público”. A noção de espaço público e sua contestação / transformação foi bem descrita por Arendt (vide A Condição Humana) como o espaço que as pessoas partilham, apresentam-se e relacionam-se umas com as outras. Um publicista é, assim, alguém que se destaca no espaço público, pela manutenção desse próprio espaço e dos que nele vivem. Parece-me uma boa caracterização, que faz falta voltar a ter significado, sobretudo nos tempos que correm.

10. Palmeira

Quanto mais me aproximo, mais ela diminui. Vista da sala, parece uma daquelas imagens de noticiário, captadas num país tropical assolado por tempestades, com os ramos e o tronco a baloiçarem no meio de céu cinzento muito baço. Mas quando chego perto da janela, a palmeira é apenas um objeto perdido no vento, no meio dos telhados e tectos e janelas e terraços. Nada de supremo ou espacial, apenas uma querida ilusão confinada à minha manhã.

9. Políticas

O governo está em modo gestão da pandemia, gestão de danos e gestão de desgaste, sem qualquer plano que não de curto-médio prazo (e mesmo esses são muito atabalhoados). Os partidos tradicionais do centro direita estão sem liderança (é incrível a nulidade que é a direção do CDS), sem ideias, e no caso do maior partido dessa ala política, a abrir a porta a um jogo de poder cuja táctica é para lá de perigosa. A Iniciativa Liberal continuará a crescer na justa proporção que o PSD e o CDS continuarem a descer, mas precisa de mais do que uma comunicação divertida e gente bem intencionada. O Bloco de Esquerda é e será apenas oposição, enquanto que o PCP se manterá no seu reduto enquanto prepara afincadamente o combate das autárquicas (onde se joga cada vez mais, e mais do que no Parlamento, o futuro do seu peso e relevância políticos). Quanto ao Chega, vai continuar a subir em detrimento da direita centrista, e a única coisa que pode impedir a catástrofe que seria Ventura tornar-se essencial para a formação de governo ou de oposição é uma mudança de paradigma no PSD e no CDS, que só pode vir com a substituição dos atuais líderes por pessoas que representem e lutem por verdadeiras alternativas democráticas, cívicas, constitucionais, visionárias e transformadoras no espectro político corrente. Sem essa alternativa, estamos em terreno minado. Marcelo foi reeleito, declarou-se atento à situação, e pareceu declarar que ia ser mais interventivo neste segundo mandato. Trabalho não lhe vai faltar (nem a nós, já agora; nem a nós).

8. Colagens: a letra cê

Constituição. Caos. Carlos. Colagens. Corrida. Carmo – ok, largo do, estiquei-me com essa, admito. Mas, nos títulos, tem estado sempre a letra cê. Não fiz de propósito, fui deixando aparecer. Disseram-me: cê devido ao big cê da verdade, Carol. Sempre, Carol para sempre. Cê de Covid? Vamos falar de outra coisa. Cê de cabidela. Estava tão boa… Cê de cinema – o método, forma, quadro com que encaro a realidade? O que é vida ou deixa de ser? A palavra política também tem a letra cê, mas no fim, antes da letra à. Hoje é dia de reflexão, por isso não vou desenvolver nenhuma ideia ou pensamento, deixo isso para segunda-feira. Está um bom dia para reflectir: chuva forte, café demasiado passado, papas de aveia sem mel suficiente. Dia vinte e três de janeiro e tanta coisa que parece que já aconteceu: o tempo foi pela janela desde que a pandemia chegou. Só o clima é que nos vai dando uma noção mais concreta e definida de espaço. Ontem comecei a fazer uma canção, e a aprender a misturar canções com um guia que descobri na internet. Há uma palavra ótima no meio de tanta terminologia técnica: chama-se equalização. Mexer com frequências, atribuir “claridade” e “profundidade” ao som. É uma aventura, moldar a irrealidade. Passei para uma fase descritiva da tese, antes de voltar ao analítico. Estou a gostar muito do livro Gelo da Anna Kavan, que me lança em caminhos diferentes a cada parágrafo, onde “a realidade é qualquer coisa cuja quantidade é desconhecida”. Passou-se uma semana, que pareceu imenso. Não faço a mínima ideia de qual será a letra da próxima, ou se haverá sequer uma letra. A (ir)realidade está dura, e vai continuar assim; que tenhamos força para a receber, viver e enfrentar. Agora, vou voltar a ler, a aprender, e a misturar.

7. Corrida semanal

Esta semana corri quinze quilómetros. Percurso habitual. Primeiro dia com duas camisolas devido ao frio, segundo dia arrependido de ter mantido as duas camisolas, terceiro dia só com uma camisola e arrependido de não estar só de t-shirt. Calçada húmida, algum vento junto à margem, e a conseguir evitar poças de água aqui e ali. Passo médio foi de seis minutos por quilómetro, acusando o peso e a falta de forma (e alguma impressão nos gémeos). Resultados imediatos: sede, apetite, e quebra pós-almoço mais acentuada. Imagem que fica: no Rossio, um homem muito elegante com uma barba parecida à do Charlton Heston no filme Os Doze Mandamentos; vestia um fato azul com uma gravata rosa, e andava pela rua com um ar espantado, surpreendido. A lista musical incluiu (em shuffle):

1- Wilco, “I’m Always in Love”

2- Thin Lizzy, “The Boys are Back in Town”

3- Veenho, “Meio Ausente”

4- Glockenwise, “Dia Feliz”

5- Drake feat. Lil Durk, “Laugh Now, Cry Later”

6- Grandaddy, “The Crystal Lake”

7- New Pagans, “Christian Boys”

8- Weezer, “All My Favorite Songs”

9- The Kinks, “All Day and All of the Night”

10- King Krule, “Dum Surfer”

Podem ouvir aqui. Bom fim-de-semana.

6. Carmo (largo do)

Faltavam ovos, fui comprar. No caminho encontrei uma senhora à janela a falar altíssimo, como se a rua fosse a sua sala de estar. No Largo do Carmo estava um senhor com um saco de roupa por lavar em cima da mini-roulote da Leitaria do Carmo. Reparei que não havia guardas na entrada do quartel. Não havia, de facto, muita gente na rua. Desci para o Rossio. O café da esquina que ainda estava aberto na segunda-feira, quando fui correr, fechou. Olhei para o lado, e numa transição de cenário narrativo à la Anna Kavan (o meu livro, já agora, é o Gelo, recomendação muito acertada do “braço” na Brotéria da livraria Snob) é de noite, um dia posterior e chove um pouco; já temos ovos, vou comprar peixe. Está um casal junto à a janela da estação do Rossio, duas sombras escuras contra a luz interior da paragem. Ele afasta-se, ela aproxima-se; depois trocam de movimento, mas nunca se encontram. Continuam nisto quando volto, com dois robalos no saco isotérmico. Fico a vê-los um pouco, até se juntarem e entrarem na estação. Oiço uma grande canção da Lande Hekt enquanto subo as escadas. Mais tarde emociono-me com o final do Gambito de Dama (boa série, sólida), quando (spoiler alert) os russos que jogam na rua reconhecem Liz Harmon. Não me perguntem porquê, achei bonito. Sou uma pessoa sensível. Não sei se alguma vez vos tinha dito isso.

5. Caos (calmo?)

Caos calmo é o nome de um livro de Sandro Veronesi que deu depois origem a um filme de Antonello Grimaldi. Nunca li o primeiro, nem vi o segundo, mas adoro o título: a mescla fonética e a contradição simbólica das palavras. Está a ser o título desta semana. Em casa, tudo calmo – tese, testes, Carol, Gambito de Dama (acabamos hoje). Comecei a ler o meu livro, devo acabá-lo até sexta-feira. Lá fora, bem, chuva, casos a subir, hospitais a rebentar, escolas quase a fechar, comunicações contraditórias (outro duo tramado de palavras) e incerteza social geral. Caos, portanto, ou qualquer coisa perto disso. Há boas notícias: as presidenciais estão quase aí, Trump está fora, há um novo som de Hand Habits a circular e, graças a uma prenda da madre, consegui fazer o impensável: arroz de cabidela em Lisboa. Não é a mesma coisa, mas no meio de tudo isto soube muito bem. Muito, muito bem.

3. Constituição

Não há dificuldade que venha sem que alguém levante a constituição. Sendo “o campo de batalha” jurídico entre o político e o social, é nos momentos de tensão destes últimos que o seu significado – e, consequentemente, o seu valor e força – procura vir ao de cima, invocado por quem busca uma resposta do poder político ou uma justificação para o exercício do mesmo, ou apenas uma forma de sobreviver (como o restaurante em Lisboa que invocou o direito de resistência para se manter aberto). Juntem uma crise a uma campanha eleitoral para a presidência da República (o órgão de soberania mais complexo do nosso sistema político) e não nos faltarão, dia sim dia sim, apelos “constitucionais” de sentido dissonantes na praça pública. Tanto vemos apelos em defesa da constituição, clamando por uma manutenção de um determinado status quo ou pela concretização de um estado de coisas que nunca foi implementado ou que ainda está por vir, como há apelos contra a constituição, pedindo a sua maior ou menor revisão. Esta batalha pela constituição é, no fundo, a batalha por um projeto de uma coexistência política que se quer permanente, livre, justa e próspera, e não começa nem acaba com o texto, mas vai para lá dele, guiando-se pelas premissas e promessas que se estabeleceram na altura da redação, relacionando-se com as mesmas e com as forças e dinâmicas, mais uma vez, políticas e sociais, que o futuro vai transformando em presente, sedimentando, através do passado, uma carga de significados, confusos e complexos, que em conjunto se agregam ao que chamamos de constituição e lhe vão acrescentando alma. Uma discussão sobre a constituição nunca é sobre o texto, mas sim sobre o país (regime e sociedade) que fomos, somos e que queremos ser – sobre o que foi e o que é, sobre o desejo e o sonho (e o medo) do que pode vir a ser. É importante, nesta época de dificuldades e afetação extrema de vidas, empregos, empreendimentos, presentes e futuros, com forças extremistas a crescer no campo político e tentativas de pôr em causa uma ordem de valores necessária a uma vivência liberal (aqui não no sentido de “facção” à la Iniciativa Liberal, mas com o significado de “base” existencial da sociedade democrática – nas palavras do Francisco Mendes da Silva, o próprio “recinto do jogo político”), pensarmos e agirmos sobre a sociedade que queremos e pela qual queremos lutar; em suma, sobre quais os nossos princípios, que é o mesmo que dizer sobre qual a nossa constituição. Que tenhamos isso em mente todos os dias, sobretudo no domingo que aí vem.

2. Colagens (tentativa)

Em La Jetée de Chris Marker há uma voz e várias imagens. As imagens, fixas e paradas, coladas em sequência, com a justaposição da voz do narrador, que nos conta uma história. A soma acaba por criar todo um movimento que parece mais vivo que muitos filmes. A ideia a tornar-se vida, o intelecto a tornar-se corpo, o sentimento… e a inocência (a realidade?) de tudo isso. O cinema – como La Jetée, e muitos outros – é um exercício de colagens. Imagens, cores, sons, palavras, movimentos. Ando a escrever uma tese, que é uma colagem de ideias, factos, argumentos, propostas. Tal como uma canção é uma colagem de acordes, letras, sentimentos, políticas e um livro… Não me vou esticar. Mas resolvi, esta semana, jogar um jogo, colecionando fotogramas para depois fazer um pequeno filme. Segui enquadramentos, procurei cores, pensei em momentos e histórias, em personagens, caminhos, dúvidas. Depois fiz uma música, leve, ambiental; organizei tudo, na manhã de sábado depois de ler uma entrevista ao Presidente da República e um artigo de opinião do Francisco Mendes da Silva sobre o liberalismo como condição base do nosso sistema político. Saiu isto. Um esboço, um ensaio, uma tentativa – mas de quê? Não me perguntem muito mais, talvez só consiga responder daqui a algum tempo. Agora está um dia lindo de sol, terrível ironia para o primeiro fim de semana de recolhimento domiciliário obrigatório deste ano. Ainda não comecei a ler o meu livro.

1. Colagens

Estava a pensar na forma como a arte consegue dialogar com o poder, ao ouvir o Miguel Januário falar sobre as suas aventuras na Brotéria. Depois comi um burrito e ouvi um reggaeton no bar do Résus (é Jesus, mas em castelhano) enquanto assistia às últimas notícias da campanha eleitoral num ecrã que tem o meu tamanho. Alguém já deve ter dito isto, mas o Tiago Mayan é parecido com o Adam Driver, não é? Entrei a fundo nas eleições na semana passada, ando a pensar nisso nestes tempos. Há um som que toca e que me fica na cabeça – o Montenegras diz que estes sons são todos iguais, e tem razão, mas este é bom, ou pelo menos parece bom, aqui no bar do Résus, poucas horas antes de entrar em vigor o novo dever de recolhimento domiciliário. Por falar em música em castelhano: encontrei um irmão do Sarmento, que está aqui comigo e que é o grande culpado de estarmos no Résus, quando fiz o caminho de Santiago. Estávamos num albergue para peregrinos em Caldas de Reis, hospedados por José “el Peregrino” (googlem o homem, vale a pena) e o Nuno mostrou-me um vídeo da Rosalía a cantar São João da Cruz (belíssimo poema – “mesmo que seja de noite”). Voltei a ouvir a canção hoje de manhã, depois de falar com Miguel e Bogdan sobre o isolamento da fachada, e de ler a entrevista de Don De Lillo ao Público (e algumas páginas de um texto muito semelhante nos temas, de Georges Didi-Huberman, num livro que tinha na estante). Comecei a ler o Americana no outro dia, durei algumas páginas. Hoje vou começar a ler um livro, talvez consiga ler mais durante este recolhimento. Apetece-me, como sempre, fazer alguma coisa neste tempo – escrever, tocar, filmar. Apetece-me, por exemplo, fazer colagens. Colagens?

Regresso à pista

Isto não é um documentário, diz Mekas a dado momento, mas é de certeza um documento, e o que é um documento? Uma declaração, um marco, um registo, um artefacto? Será um mito, ou um monumento? No filme de Marker o documento é a história, pequenos fotogramas de pessoas que partilham uma história, que é o mesmo dizer que partilham uma vida, um sonho, e uma morte. A dado momento, Mekas está com Lennon, Jackie, Ono, Warhol, Ginsberg, todos mortos e todos vivos, todos num sonho que é o documento – ou o documento é que nos leva ao sonho? Gosto muito quando a cara dele aparece em Scenes From the Life of Andy Warhol, o autor que fez (fazer de produzir, não de montar e juntar: de criar) um documento de memórias e sentimentos, de lugares e luzes, de tempos e contratempos. Ao contrário de Mekas, Marker nunca aparece, mas está presente em tudo, em todas as caras e palavras de La Jetée, cada grão do corpo de Davos Hanich ou da cara de Hélène Chatelain. A imagem como romance, como poema, como regresso, e como marca e invólucro linguístico de uma comunidade transcendente. E assim, inesperadamente (como em qualquer momento de revelação) volto à pista do cinema, neste início de ano frio e solarengo.

Entrada capital

Primeira semana do ano e sinto que o mundo, com os seus factos e artimanhas, já acelerou para uma velocidade absurda. São tantas as ideias, os casos, as imagens – e o frio, o vento. Estou em casa, temos uma nova fotografia na sala e alguns aquecimentos; uma série que já nos pegou (gosto muito dos actores do Gambito, da forma como representam com o olhar) e algumas canções boas para ouvir em shuffle, num passeio de recolha. Tipo esta:

Notas torcidas

Tenho reparado muito no céu, de manhã e à noite. De manhã, o céu está branco de um lado, cortado por nuvens no meio, e ainda laranja no outro. De noite, as nuvens que estão em cima do céu escuro parecem estar a ser puxadas por uma corda invisível. Dou a volta ao tronco para a esquerda enquanto lavo a loiça e sinto-me a torcer por baixo do braço; nunca tinha sentido esta parte de gordura na vida, nem sabia que ela existia, o que me deixa curioso e inquieto ao mesmo tempo. Fui correr à tarde, estava sol – continua a estar frio. Odeio estes janeiros lisboetas, e odeio estes tempos de início de ano sem discos novos para ouvir. Um dos tipos que está a trabalhar no telhado cá de casa tem (reparei hoje, a meio de uma nota de rodapé sobre Jelinek) uma voz igual ao Arnaldo Antunes, profundamente anasalada, como se o nariz estivesse na garganta. Depois do almoço eles tiveram de descer ao terraço e tiraram fotografias, fizeram poses. Fazem umas pinturas muito engraçadas nas paredes, para isolar o prédio das chuvas, enquanto estão pendurados por cordas, como se fossem alpinistas. Tenho medo das alturas. No episódio dois do Gambito de Dama começa-se a perceber o medo da protagonista, de estar a jogar perante alguém mais confiante e não saber como reagir no tabuleiro. Estou a gostar da série; sem ser espetacular é bastante sólida. No Domingo vimos uma parte das Praias de Agnès, de cuja primeira metade eu não me lembrava nada, e fiquei com vontade de ver filmes. Continuo sem grande vontade de ler, mas depois lembro-me que isto é apenas o início. Agora vou correr outra vez.

Palavras, silêncios

Sabes, acredito que não seja fácil. Neste momento, pelo menos. Talvez daqui a uns meses, ou anos, seja melhor: talvez aí possamos sentarmo-nos nalguma cadeira ou sofá, dentro de uma casa e ter consciência de tudo o que foi este ano. Ontem estávamos em casa, no meio de uma temperatura para lá de siberiana, a ver fotografias que tirámos desde janeiro até hoje. Em retrospetiva tudo parece muito (demasiado) e muito cheio. As imagens falam de forma silenciosa mas forte, conseguindo com as suas cores, formas e retratos catapultarmo-nos imediatamente para um lugar, um sentimento, uma pessoa, ou uma família. Tenho a certeza de que se tivesse pegado nos livros de Rachel Cusk, Nathanael West, Richard Brautigan, Hannah Arendt e Rui Manuel Amaral teria acontecido o mesmo, ou praticamente o mesmo. Cansei-me muito durante este ano, e internamente ressenti-me. Não é fácil não saber falar para dentro, tendo muitas vezes de escrever para fora para me começar a aperceber do que se vai passando “no banco de trás do carro” enquanto caminho, cozinho ou adormeço. Contei-te, no início do ano passado, sobre palavras e explosões, sobre como tinha de me cingir aos factos para me agarrar a qualquer coisa segura, e de como muitas vezes os factos se tornam algo mais, verdadeiros movimentos perpétuos de ideias e mundos, e eu tinha de ficar onde estava, na linha entre a realidade, a razão e a emoção, para perceber a verdade. A magia das coisas é inigualável. Sonhei imenso este ano, com explosões e passeios e mortes e o mar e o amor; depois acordava e ia dar aulas ou sentava-me a ler ou a escrever o meu primeiro calhamaço académico. A Bitcoin passou os vinte mil euros e eu passei os oitenta quilos porque correr, que sempre me fez bem, já não era possível, o ritmo existencial tornava-se cada vez mais absorvente e total, como as máscaras que agora servem de nosso hábito necessário, mesmo dentro de casa. Não é, de todo, fácil parar para pensar ou falar sobre o que foi. Mas há uma coisa que tenho de te dizer, sob pena de parecer que não estive aqui – estive sempre, mesmo que apagado ou escondido – que é a seguinte. No dia doze de março a faculdade fechou e a Carol veio cá para casa. Passaram-se nove meses; a casa já não é a mesma, e nós também não. Não nos casámos, deixámos isso para o verão deste ano que vem, seguindo a numerologia corrente e tornando este ano no zero de vida partilhada e no próximo o primeiro de casados (e o último – bate três vezes na madeira – de tese). Crescer é complicado, sobretudo a dois, quando as rotinas e os hábitos e os desejos e as séries entram em jogo conjunto e recíproco. Mas um dia estava na praia, na Aberta Nova, e fui andando a pé, a Carol ao fundo, muitos passos à frente; depois parou, esperando por este amontoado beto lisboeta composto por intelectualismos políticos, realismo jurídico e cultura pop que se arrastava, e eu vi aquela cara e pela vez número oitenta e sete mil duzentos e quarenta e nove desmanchei-me, tal e qual como num carro parado no parque de estacionamento de um Intermaché em Ponte de Lima, sabendo que a vida é difícil, que “tudo passa, tudo passa, só não passa a Graça”, e a Graça, ao contrário do que dizem, é um lugar comum, onde uma pessoa pode ser noutra, e pode ser mais por ser por outra, tornando-se qualquer coisa maior e única com esta, em conjunto. Tinha de te dizer isto (já te tinha dito isto), porque quando olharmos para o ano de dois mil e vinte vamos lembrar-nos por certo de muitas coisas, do Cucavida e do título do Liverpool, do Brexit e do Biden, de guardar peixe dentro do frigorífico de uma autocaravana e de ir nadar no mar às oito da manhã, de este ter sido o penúltimo ano do blog chamado Álbum (hein?! o quê?!) e de ter descoberto as cascatas do Gerês. Mas gostava que não te esquecesses nunca, de que dois mil e vinte foi o ano em que este tonto bem intencionado e completamente desajeitado cresceu, e de uma forma estúpida e inacreditável, no amor. E o amor não é um instante nem um momento, mas um fortíssimo abraço incessante, que abre e potencia o melhor que todos nós temos. As minhas felicidades para vinte vinte e um, ano em que conto estarmos novamente próximos, perseverantes e exigentes, no humor que este mundo caótico nos pede para ter, dia a dia, cara a cara, força a força. Bom ano.