Sentir, falar, escrever

Às seis da tarde de ontem a minha rua cheirava a Outono. Alguém deve ter acendido uma lareira, ou queimado lenha. Não há cheiro mais aconchegante que o cheiro a Outono. Às onze e meia da manhã de hoje tocava o Nem Lhe Tocava do Samuel Úria (canção) numa loja de sapatos desportivos do Chiado. Não há canção que me faça sentir mais do Chiado do que esta. Às onze da noite de quinta-feira estava sentado no banco junto à junta de freguesia da Rua da Lapa, a apreciar o silêncio do bairro. Não há silêncio urbano como o silêncio da Lapa. Às onze da manhã de hoje fiquei a saber que morreu Robert Forster, o actor que fez um icónico papel no melhor Tarantino de todos, Jacky Brown. Mesmo quando os filmes de Tarantino são só exercícios de estilo mais ou menos vagos (como este último, Era uma Vez em Hollywood) podemos sempre contar com grandes interpretações de actores que nos surpreendem. Às cinco da tarde de ontem ouvi o novo disco dos Big Thief, que é cru, sentido e parece saído do osso, absolutamente magnífico e libertador. Às duas da tarde de quinta-feira entrei num restaurante e encontrei o Chris, e resolvemos almoçar juntos, ele a comer um hamburguer com pimento acompanhado de batatas fritas e eu a comer um prego de novilho acompanhado de salada. Disse ao Chris que não nasci para ser advogado, mas para ser um drifter (segundo o Merriam-Webster, alguém que drifts, que se move, por diferentes sítios e lugares). Depois mordi o prego, e sem querer levei dois terços comigo para fora do pão e tive de fazer um esforço para conseguir cortar, com os dentes, só uma porção, deixando cair o restante no prato, de volta para o pão. Foi uma situação desajeitada e humana, ligeiramente cómica, típica minha. There you are: drifting, disse o Chris. Às cinco da tarde de ontem lembrei-me de um sorriso que a Carol faz, entre os muitos que tem, quando está muito contente e divertida, em que de forma muito leve e suave, mas igualmente assertiva estica de repente os lábios para os lados e fecha um bocadinho-nico de nada os olhos. É uma ação muito precisa e repentina, e completamente desarmante. Coisa boa.

Olga! Olga!

“SPEAK! SPEAK!

Inside and out, to oneself and to others, narrating every situation, naming every state; search for words, try them on, that shoe that will magically transform Cinderella into a princess. Move words around like the chips you place on numbers in roulette. Perhaps this will be the time? Perhaps we’ll win this one?

Speak, grab people’s sleeves, have them sit down across from us and listen. Then turn yourself into the listener for their ‘speak, speak’. Hasn’t it been said that I speak, therefore I am? One speaks, therefore one is?

Use all possible means for this, metaphors, parables, wavers, unfinished sentences; don’t be put off by the sentence breaking off halfway through, as though past the verb where suddendly yawned an abyss.

Do not leave any unexplained, unnarrated situations, any closed doors: kick them down with a curse, even the ones that lead to embarassing and shameful hallways you would prefer to Forget. Don’t be ashamed of any fall, of any sin. The narrated sin will be forgiven. The narrated life, saved. Is it not this that Saints Sigismund, Charles and James have taught us? He who has not mastered the art of speaking shall remain forever caught in a trap.”

Olga Tokarczuk, Fligths (trans. Jennifer Croft ), Fitzcarraldo, 2017, pp. 183-184.

Coisas que interessam

Há cerca de quatro anos e meio, uma banda inglesa chamada Happyness lançou o seu primeiro disco, chamado Weird Little Birthday. É um dos melhores álbuns de indie-rock da era pós-Pavement – referências à pele, sem vergonha, com atitude e humor. Há quatro meses e meio, um dos antigos membros dos Happyness (agora com o nome Jelly Boy) lançou um EP chamado Everybody is a Universe. Não sendo tão bom como a banda original, é umas das melhores coisas de indie-rock que apareceu este ano. Vale a pena ouvir.

Seattle (eternal never)

despedi-me na esquina

e depois subi a rua

olhei para baixo

acusei o tempo

estava cansado, e

ligeiramente vazio

olhei para o lado

no mural das obras estava escrito

a caneta preta de feltro

E TERNAL

N EVER

tirei uma fotografia

continuei o caminho

prometi a mim mesmo

que um dia vou conquistar

Seattle

uma palavra

de cada vez

 

Uma viagem a Leiria

Boombox e Federrer decidem ir a Leiria. Está uma manhã cinzenta, é o primeiro dia de Outubro. Nenhum deles alguma vez lá esteve: não sabem se é real, se existe mesmo. Mas é preciso ir a Leiria, ou à ideia do que é Leiria, e eles têm tempo, e por isso vão. Tarantinas também gostava de ir, mas ficou-se por Lisboa, a escrever emails e a fazer chamadas. Tarantinas já foi a Leiria, uma vez. Tem boas lojas de livros em segunda mão, tem um castelo, um estádio, e até um museu da imagem em movimento. O hospital é amarelo, e o céu, pelo menos dessa vez, estava sempre cinzento. Tarantinas está sentado à secretária, a martelar no teclado e a ler pareceres jurídicos, e a pensar como estará a ser a viagem de Boombox e Federrer a Leiria. Que música é que ouvem, que comentários é que fazem. São ambos loucos, tal como Tarantinas e os restantes amigos do chamado Grupo Mágico. Tarantinas acha que Boombox, que vai a conduzir, tem uma carrinha, uma daquelas Peugeot cinzentas do início dos anos zero, mas não tem a certeza. É uma viagem que podia dar um filme, uma série, um livro existencialista – Tarantinas gostaria de fazer qualquer um deles, se pudesse. Mas não, hoje (ainda) não. Hoje Tarantinas tem de falar a notários e registos, tem de escrever notas, tem de acabar introduções. Um dia talvez Tarantinas diga o que se passou ou poderia ter passado em Leiria, naquele dia um de Outubro, de como Boombox e Federrer foram em busca de um membro da espécie dos Embaixadores, uma gente misteriosa, dotada de um qualquer poder estranho. Mas não hoje. Hoje, Tarantinas trabalha e vai comer arroz com primos africanos, reparando, no regresso – na saída do metro da Baixa Chiado – num homem de t-shirt branca e casaco de fato azul, especado com um ramo de flores junto a uma das entradas para a linha Azul, esperando (nervosamente) que a sua história, qualquer que esta seja, comece.

O sol a nascer, na janela, e o final da tarde a existir, também na janela. O sabor leve das bochechas da Carol, especialmente depois de uma manhã ao sol. A canção “Samurai” de Djavan. A invencível esperança de um épico Springsteeneano. A admirável técnica de um solo de guitarra elétrica de José Esfola. Uma sesta ao almoço. O aperto de umas calças de fato que indiciam uma ruptura iminente (e a consequente necessidade de uma dieta). A frase / título / expressão (risquem, risquem o que quiserem) “BETWEEN, ALWAYS”, de Rosmarie Waldrop. As figuras de Di Caprio e Brad Pitt na morna mas engraçada carta de Tarantino a Los Angeles. A palmeira que se balança, à frente do estendal, em frente à janela. Esta fase, de alegrias, de fins, de regressos. A vontade de escrever, ENTRE, SEMPRE, tudo.