Fim de ano blues

Abres a porta do prédio e olhas para a esquerda. Tomas consciência, no instante em que fazes o movimento, que isto é algo que costuma acontecer de forma regular. Isto é. Quando abres a porta do prédio costumas olhar sempre para a esquerda. Olhas para a rua a descer. Olhas para o número de carros que está estacionado na rua. Olhas para o rio lá ao fundo, para os barcos que lá estão, e para o céu. Às vezes consegues ver a serra ao longe. Outras vezes não. Outras vezes nem tentas. Vês os barcos, o rio, e é tudo. Mas fazes isto, esse é que é o facto. Como hoje. Hoje ouvem-se pássaros e não há pessoas na rua. Só há carros estacionados. Sais, e vais dar a volta que tens de dar. Passo lento, mãos atrás das costas. Passar pela Rua da Lapa e etc. Passar pelo jardim da Estrela e etc. Metro, sair, visitar, voltar, e etc. Ler no metro e etc. Missa, casa, e tal. E é domingo, é o último dia do ano. É uma boa junção, que o último dia do ano seja o último dia da semana. Significa que há coisas que podes fechar e outras que podes começar a abrir no curto e no longo prazo. Micro e macro-gestão, juntas num só momento. É o sonho de todos os geeks de organização existencial. Como tu. Mas não consideras nada durante o dia. Já fizeste isso antes. Hoje só vives, como se fosse domingo. Exercitas-te, visitas a tua afilhada que faz anos, cozinhas, arrumas a casa, escreves, procrastinas, e descansas. Depois vais passar o ano. Estás com amigos. Pensas em pessoas que não estão ali. Pensas em muitas coisas, como de costume. Também sentes muitas coisas, como de costume, mas ao contrário do que era costume agora assumes tudo o que sentes. Bom, mau, péssimo, incrível. E estás. Estás com uma camisa nova, azul-escura, que compraste nos saldos. Com uma camisola verde e com umas calças bege e uns sapatos de trabalho. Sério, ma non troppo. Jovem, ma non troppo. Tu, totale. Tens desejos. Escreveste-os. Estão no bolso, para te lembrares à meia-noite. És ambicioso, e assumes isso. És fraco, e assumes isso também. E amas. Amas tanto. Amas tanto estes gajos que estão à tua volta cheios de copos e vinho e cerveja e alegria. Amas tanto as pessoas que te mandam mensagens de bom ano. Amas tanto as pessoas a quem mandas mensagens de bom ano. Estás animado. Há algumas razões para isso. Estás com amigos. Tens uma agenda nova, toda estilosa. Conseguiste correr depois de recuperar de uma lesão de caminhada. Estás a beber. Mas estás também convicto de que 2018 vai ser um grande ano. É uma convicção assente no teu interior. Não podes fazer nada contra ela. Não é que te entusiasme ou excite ou te faça querer bradar aos altos berros e saltar para uma pista de dança e soltar a franga. É simplesmente o que sentes. Por isso apenas sorris. Apenas estás. E é isso. Mandas piadas. Contas histórias, e ouves histórias. Ris-te e emprestas livros. Andas na rua e tiras fotografias que achas que são giras para publicar numa rede social de imagens partilhadas. Estás com uma música tua na cabeça. Chama-se “Fim de ano / Ano novo blues”. Estás com o ritmo, sobretudo. Balançado, lento. O refrão fica-te na cabeça. “Tanto que foi e veio / como num carro pela A1 / um passeio na cidade / com o céu já meio-escuro / Tanto que foi e veio / como deve ser o futuro? / Não fico parado, acelero e prego a fundo”. A última frase é um slogan ou intenção para o ano que vem? Não sabes. Também não sei, confesso. A passagem de ano é uma coisa engraçada. É um evento que, na prática, dura um segundo. Num momento, 2017; no seguinte, 2018. E pronto. O resto somos nós que fazemos. A festa, a alegria, a merda, e a vida. O ano que vem será o que tiver de ser. Nós seguimos. E é isso. Bom ano para todos.

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