Postal de ano novo

Sais de casa. Olhas para a esquerda e segues pela esquerda. Desces a rua, escolhes a lista de canções que fizeste há cerca de dez minutos. Tudo clássicos. Olhas para a frente. O céu está coberto por nuvens. Desces e uma vez chegado ao largo começas. Um, dois, três na tua aplicação de telemóvel e lá vais tu. A música que começa é curiosamente a música que tinhas na cabeça enquanto descias a rua. Aquela viola acústica, com aquele padrão bem ritmado e a letra bonita. Passas a rua e a linha de comboio e entras na marginal. Estás a correr, já agora, para que se saiba. Estás a correr e fazes a corrida do costume, hoje um pouco mais longa. Porque é o primeiro dia do mês e no primeiro dia do mês tens de dar algum ritmo às coisas. A tua primeira resolução foi aguentar uma ressaca. A tua segunda foi renovar a amizade com o sofá da sala. A tua terceira foi começar a cumprir o que tinhas escrito na agenda. Foste partir a cabeça com estudos sobre encriptação em cadeia. Não sei se há melhor cura de ressaca, mas de certeza que há outras menos pesadas. Como, por exemplo, ler. Ou só estar no sofá. Ver um jogo da Premier League e pensares que pelo menos há uma equipa de vermelho que ainda te consegue alegrar este ano. Mas agora estás a correr. Final da tarde. Tudo normal. Passas por muitos turistas e alguns corredores. Os édefones novos são dinâmicos, mas algo estridentes. É o que dá pagares menos de quinze euros por uns édefones. Mas servem. Corres e chegada à meia-hora e, portanto’s, o meio-caminho, dás a volta. Estás agora com a ponte de frente. Estás agora com a lua cheia e imponente em frente, clarificando os espaços de céu nocturno que não estão cobertos por uma ou outra nuvem marota que por ali anda. E estás a passar em frente ao Padrão dos Descobrimentos. Nunca tinhas reparado que as estátuas eram tão grandes. E depois olhas para a esquerda e vês esta imagem. O Mosteiro dos Jerónimos, com o céu já descrito por cima. Está iluminado na fachada por algumas luzes alaranjadas. Atrás está o estádio daquela equipa azul com que tu gostas tanto de gozar, com as luzes ligadas. É um cenário bonito, e percebes que vais ter de escrever no blog por causa disso. Depois continuas a correr. Entra uma canção que te acelera o ritmo, que de si já é bom para esta altura. Não te lembras qual é. Por acaso, agora que falas nisso, eu acho que me lembro. Não interessa. O que interessa é que tu lembras-te de estar mais à frente, junto ao Museu da Eletricidade, e de entrar a outra música e de estares de novo vidrado na imagem da ponte, da lua, do céu, tudo aquilo que está no teu caminho. Sentes-te como o Boss canta, a “dançar no escuro”. “Não podes começar um fogo sem uma faísca”, e talvez tenha sido isso, aquela imagem do Mosteiro, apanhada num momento de esforço em que já tinhas libertado bastantes endorfinas para te sentires inspirado que te acordou o espírito. Ou então foi outra coisa. O entusiasmo do ano, das aventuras que tens planeadas. Das “experiências incríveis”, parafraseando uma mensagem que me enviaram. Dos desafios que vêm aí. O ano como um longo caminho de trajectórias inesperadas. Pensas que vais escrever sobre isso tudo, aqui. Pensas que tens um blog novo, que inauguraste de forma não-oficial antes do tempo (porque não consegues, simplesmente, estar calado). Mas que coisas novas terá esse blog? No que é que difere dos outros, para além do nome? Qual é a ideia, a motivação, etc? Já disseste uma vez porque escreves. O Boss ajuda-te (outra vez, mais uma vez) a responder ao resto. Então. Toca agora outra canção, no preciso momento em que topas um barco à vela ao teu lado e apetece-te competir. Homem contra embarcação, o duelo possível neste início de noite de dia um de janeiro do ano de dois mil e dezoito. A canção chama-se (tradução) “Nascido para correr”. Era um dos nomes que querias ter dado ao teu blog antigo, há um ano atrás. Agora estás a correr e depois de muito que se passou percebes que a frase é essa. És, como diz a canção, um “vagabundo”, um daqueles tipos que anda sempre metido em mil coisas e a caminho de outros tantos sítios. Por dever, por querer, não interessa. Estás sempre a caminhar, estás sempre a correr. Estás sempre nessa adrenalina muito especial que é a existência e a sua riqueza. E como tu gostas de a capturar, à existência, como se fosse uma imagem. Daí seres um gajo do cinema, da vida em movimento: tu adoras a vida em movimento. O que é que podes prometer com este blog? Que é assumidamente pessoal. Não é sobre coisas que gostasses que acontecessem ou sobre expectativas ou sonhos ou o camandro. É sobre o que se passa, o que acontece. O que se vive, o que se sente, o que se pensa. Com humor, com alguma dor talvez, mas com sentido. Porque só se escreve se fizer sentido. São regras senhores, são regras. E aqui estás tu, com o álcool que tinhas no corpo a sair com cada passo que dás, a correr para a lua, a passar por baixo da ponte, a cantar a canção que estás a ouvir agora. Trata-se das partes dois e três da outra canção que abriu esta corrida, e dizes que sim, que amas, e quando a bateria entra e acelera tu saltas no meio da corrida como se estivesses num qualquer mosh pit, e sabes que vais chegar a casa e escrever isto tal e qual. A saltar como um miúdo entusiasmado, mas que o adulto que és (a um mês e pouco dos trinta) sabe que tem de ser assim, de vez em quando. E corres, e corres, e ouves tantas outras músicas, desde o Abel até àquela óbvia bicicleta. Despedes-te da corrida despedindo-te do Tony Orlando, uma malha que achas que poderia soar bem no meio de um set de discoteca – nota: de um set muito arriscado mas fixe de discoteca. E vais para casa, dez quilómetros depois. E o ano já começou, “como uma porta que se abriu”. Dois mil e dezassete acabou em blues. Dois mil e dezoito começa com uma corrida. E o que vier, tentarás descrever neste espaço. Ahora sácalo, bébé (Quanto a vocês, fiquem para ler. Sigam por e-mail seguindo as instruções no botão de cima, adicionem no feedly, vão pelo instagramo ou twits, hipóteses não faltam. Prometo entreter, de forma honesta e mais ou menos profunda.) Bem-vindos, e bom ano.

IMG_7322