Sobre resoluções espontâneas

As resoluções fazem parte de um novo ciclo. Sempre. A seguir, no ciclo, vêm as desilusões. Sempre. São como irmãs. Ora dança uma, ora dança a outra. Ainda assim acreditamos nas resoluções, e damos sempre nova oportunidade às mesmas. Ou porque queremos ou porque ok, não conseguimos dar a volta (talvez porque aprendemos, com os anos, a dançar melhor com as desilusões, mas isso é outra história). E então resolvemos fazer as resoluções, em particular no ano novo. Porque há uma vida nova, supostamente, à espreita. É uma oportunidade e aproveitamos. Escrevemo-las, rezamo-las, tudo isso. E às vezes, quando menos esperamos, já o ano começou e elas aparecem-nos como uma ideia, assim do nada. E assim do nada resolvemos fazê-las, às que surgem inesperadamente e de forma espontânea. Foi o que me aconteceu recentemente, mais concretamente ontem. Estava no meio de uma série de doze elevações no ginásio e estava a ouvir um episódio da New Yorker Radio Hour em que David Remnick entrevista Leonard Cohen. Já tinha lido o artigo numa das edições do ano passado — vale muito a pena — mas ouvir Cohen a falar é outra coisa. Dá para sentir a gravitas particular do canadiano. Aquele estilo, aquela sacanagem, aquele humor, aquela fraqueza. Tudo à mostra, com uma elegância ímpar. A dado momento Cohen, falando do seu ritmo de trabalho avassalador nos últimos tempos, mesmo sabendo que está já mais para lá do que para cá neste mundo, justifica-se dizendo “At a certain point, if you still have your marbles and are not faced with serious financial challenges, you have a chance to put your house in order. It’s a cliché, but it’s underestimated as an analgesic on all levels. Putting your house in order, if you can do it, is one of the most comforting activities, and the benefits of it are incalculable“. Tive de me controlar no levantamento de um peso. É uma lição bonita e acertada. Já no Natal o J tinha cantado uma versão incrível do I’m Your Man (o J tem um hábito de fazer versões incríveis e despojadas de grandes canções à guitarra — bastante fiéis e nada aparvalhadas como as minhas — e que acabam por soar melhores do que os originais. Há uma música do Damien Jurado, por exemplo, que ele canta e é a-rra-sa-do-ra). E isso tinha-me posto a pensar. Conheço os clássicos do Cohen. Desmancho-me com muitos clássicos do Cohen. Mas conhecer o Cohen? A obra, mesmo? Sempre fui mais Bob Dylan. Se calhar era da juventude. Mas agora, neste ano, em que se aproxima a passos vistos o evento do fim do meu cartão jovem, por razões externas ligadas ao efeito normativo da passagem do tempo, fiz uma resolução. Estava suado, com os ombros a doer, mas fiz. Este ano vou entrar na obra de Leonard Cohen. A fundo. A ver se aprendo alguma coisa, se tiro alguma elegância e estilo. Ou, pelo menos, cultura. Só pela capa deste disco, parece-me a escolha acertada. Não?