Narrativa del camino – o dia anterior e início

São dez e quarenta da noite. Estou deitado na cama de baixo de um beliche na camarata do albergue de peregrinos São Teotónio, em Valença do Minho. Vim a guiar com a minha Mãe para cima e ela ofereceu-me de jantar antes de me deixar no albergue. Fomos a um restaurante chamado A Merendela. Comemos costeletas e bebemos vinho tinto. Soube bem. Estava já vestido com as calças de caminhada que comprei na Decathlon. Pretas, justas, razoavelmente estilosas, ao ponto de ter ido almoçar com um amigo ainda em Lisboa e ele não se ter apercebido de que eram calças de caminhada. Estava com o relógio no pulso, também ele saído da Decathlon. Azul, plástico, digital, maneiro. Agora estou deitado dentro de um saco-cama e a minha Mãe está a viajar para Ponte de Lima. Acabo de escrever no meu bloco de notas e de ler um bocado do livro. Trouxe as Confissões de Santo Agostinho para ler. Achei que podia ser um bom livro para se ler durante uma caminhada para Santiago de Compostela. Quando pouso o livro olho para o lado. No fundo da camarata está um homem deitado numa cama de baixo. Careca, gordo, de óculos, com um telemóvel ligado. Na cama de baixo do beliche ao lado está uma rapariga, com um iPhone. Sei que é um iPhone devido ao som das mensagens que vão surgindo regularmente. Devem conhecer-se, o homem e a rapariga. Tipo pai e filha, tio e sobrinha, amante e amante. Viro a cara e olho para a cama de cima. Fico assim, no relativo silêncio que é estar numa camarata quase vazia. Está muito frio lá fora e algum cá dentro do albergue. O saco-cama é quente e o vinho ainda circula no meu corpo. Penso no dia de amanhã. Não tenho bem noção do que vou fazer amanhã, para além de andar e seguir direcções. Não tenho mapas. Vou andando. Penso numa música. Não tenho édefones, nem música na cabeça para este momento. Os telemóveis dos meus colegas peregrinos apagam-se. A camarata está escura. Penso no ano de 2017, episódio a episódio. Nem parece que está no fim, depois de tanta coisa que aconteceu. Fecho os olhos e procuro adormecer. Não toca nenhuma canção. Nenhuma. Nenhuma?