Narrativa del camino – dia um

Acordei por volta das seis e cinquenta. Foi a quarta vez que acordei desde que adormeci. A primeira vez foi à uma e trinta e sete. A segunda pelas três e quarenta e dois. A terceira não me lembro, mas acho que eram cinco e pouco da manhã no meu relógio azul de plástico. O senhor que dormia na cama no fundo da camarata ressonava, e muito. A rapariga que estava com ele ligou o telefone durante a noite e ouvi o som de mensagens de forma regular. Tive um pesadelo. Não sei se foram essas as causas de acordar. Ou se foi a excitação que sentia de forma inconsciente. Aquela excitação da insegurança do desconhecido, como quando se tem uma viagem no dia seguinte. O facto é que não estava cansado quando me levantei. Arrumei as coisas, vesti-me, comi uma banana, pus a mochila às costas e saí. Eram sete e trinta e um da manhã.

Está frio. O nevoeiro cobre tudo a pelo menos dez palmos de distância. Vejo em frente o primeiro marco do caminho e sigo-o. O telemóvel está em modo vôo. É uma promessa, ter o telemóvel em modo vôo até chegar a Santiago. Fui seguindo as setas até entrar na fortaleza de Valença. Rezei a primeira dezena. É uma promessa, rezar um terço por dia. Sinto-me entusiasmado. Tal como numa viagem. Sabem, aquela adrenalina de chegar a um sítio que não conhecem, onde nunca estiveram, e não saber como vai ser? É assim que me sinto. Passo pelas ruas da fortaleza de Valença, pelas lojas fechadas e pelos carros parados. Ruas vazias, seguindo setas e conchas amarelas. Chapéu de aventureiro na cabeça. Luvas escuras. Mochila estilosa — demasiado hiptser para isto, confesso. Cá vou eu. E, chegado a um café que estava a acabar de abrir, entrei para tomar o pequeno-almoço.

É um café pequeno e simples, dentro da fortaleza. Peço uma torrada em pão de forma e uma meia-de-leite. Escrevo no caderno e ouço os donos (há um casal atrás do balcão — assumo, por não usarem farda, que são os donos) e o empregado a falarem. Falam um português com sotaque minhoto perfeito. Não há traços de Espanha aqui. A fronteira funciona, penso eu. Mesmo que por uns metros, funciona. Esta meia-de-leite também funciona e sabe-me pela vida. Penso: agora posso enfrentar o frio. Um dos donos do café diz: “O frio vem todo de Espanha. Na Galiza deve estar o caralho”. Escrevo a frase. Depois pago e saio. Volto ao nevoeiro, ao entusiasmo, e ao caminho. Eu quero o caminho.

E então ando. Controlo-me para não fotografar tudo o que vejo. Porque tudo o que vejo merece uma fotografia. Quando se está entusiasmado o coração parece que explode. O olhar fica mais atento e a criatividade mais solta. Estava tudo húmido, algumas plantas com orvalho ainda por cima. Fui andando pela fortaleza até chegar à ponte. Não se vê nada para lá da metade portuguesa. Nem uma imagem. Dois países separados por uma bruma. Não é giro, ou romântico, ou místico, digno de uma qualquer cena de filme? Apreciei o momento por uns segundos. E depois voltei a andar e passei a ponte.

Chego ao outro lado e o nevoeiro continua forte. Agora não via Portugal, olhando para trás. Recordo-me do poema de António Machado: “Al andar se hace el camino, / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar”. Continuei a andar.

De estradas passei para passeios. Passo por um Irish Pub chamado “The White Clover” (até em Tuí há Irish pubs) e por um bar chamado “Café Lisboa”. De passeios passei para caminhos de terra, e depois de novo para estradas e mal dou por mim estou na Catedral de Tuí. Grupos de senhoras montam barracas do que parece vir a ser um mercado, na praça em frente à catedral. Entro para rezar. Quando saio toca o Hard Days’s Night dos Beatles no sistema de som municipal que se ouve por todo o centro histórico. Los Gallegos saben mucho. Como não manter o entusiasmo, enquanto volto ao andar?

A estrada vai-me levando. Vou pensando nisso, no facto de estar a ser guiado por indicações colocadas de propósito e cuidadas de propósito para que uma infinitude de pessoas de várias idades e tempos possam passar por ali. Sou mais um num caminho de séculos. O caminho é uma instituição que me ultrapassa. Adoro instituições. Sinto-me pequeno e forte com esse facto. Penso nisto enquanto passo por ginásios e salas de cross-fit com publicidades chungas. Fotografias de malta  feia e foleira a levantar pesos com dragões tirados de uma edição qualquer perdida do Mortal Kombat, estão a ver? Mau-gosto espanhol, kitsch máximo, estão a ver? Mesmo cómico. E depois virei para o bosque.

O bosque está vermelho. As árvores carregadas de folhas velhas. Como diria o meu sobrinho Estêvão, está tudo “cheio de Outono”. Tudo muito húmido. Há riachos e pontes de pedra. Vejo anúncios de albergues privados que prometem milhares de pequenos-almoços e requintes, em vilas e cidades que ficam quilómetros acima. O nevoeiro vai-se dissipando aos poucos, enquanto o dia avança. A cada passo, mais luz no céu. Mais subidas, mais monte, mais campo. E casas. Senti que ainda estava no Minho, tal é a semelhança dos cenários. Mas menos verde. Menos, sei lá, quente. Continuo a andar e ainda rezo outra dezena pelo meio.

De repente chego à zona fabril de Porriño. Sinto-me como no Gosto do Sakê de Ozu, tal o cenário industrial que está à minha volta. Fábricas e mais fábricas e uma fábrica em especial de onde sai fumo. E uma estrada recta, que faço enquanto tiro a primeira camisola — estou com mais duas camadas. Está sol, agora. E algum calor. Sinto fome. Olho para o relógio e já são horas para se poder comer.

Passado um pouco chego a Porriño e entro  num café e peço “uma hamburguesa” e trazem-me um hambúrguer vegetariano. Foi sem querer. Não me apercebi que tinha vindo parar a um sítio vegetariano. Acontece. Como o que me dão e bebo água da garrafa. Olho para o mapa na minha credencial e penso no plano a seguir. Num mundo normal ficaria hoje aqui, em Porriño. Mas as pernas pedem mais e podem mais. “A culpa”, já dizia António Variações, “é da vontade”. Por isso agradeço e pago o hambúrguer e peço um café. Ponho a mochila às costas e o chapéu na mona. Vou de volta para às ruas da vila, andando entre lojas e passeantes de sábado à tarde, atrás de setas e conchas amarelas. Sinto-me bem. Mesmo bem.

Rezo a terceira dezena do dia depois de passar um riacho e um armazém gigante. Um jovem chinês está encostado a um muro a falar por vídeo através do telemóvel. Tem um fato de treino cinzento com pinta. Passo por eiras que me lembram mais o Minho. Há subidas e descidas. Começo a pensar porque é que estou a fazer o caminho. Será pelo desafio em si, por querer provar alguma coisa, por querer rezar ou reflectir algum assunto em concreto? A resposta não me é óbvia. Faço-o por várias razões, acho eu. E sem expectativas de resultado. Acho que é assim que as viagens devem ser feitas. Gosto disso, de ir pouco preparado. E assim posso ser surpreendido quando, por exemplo, numa zona chamada Caminho das Lagoas, passa um carro Renault com vinte anos, daqueles muito achatados, de um dourado metalizado, conduzido por um homem com outro homem ao lado, e cheio de balões brancos e azuis-cueca pendurados no tejadilho. Parece uma cena de um filme do Kusturica: uma estrada de aldeia minhota, vazia e silenciosa e um carro com balões pendurados a passar e a desaparecer. Sigo a estrada e atravesso um caminho chamado Caminho do Coxo.

Depois passo por um cemitério de espantalhos. Uma série de campos, cada um com pelo menos dois espantalhos caídos no chão. Tipos com colete, fatos-de-macaco, cabeças de balde, cabelos de esfregona. Terá sido chuva, terão sido os pássaros? Vou gravando notas no telemóvel sobre estes encontros para me lembrar mais tarde. Passo por um poste com um autocolante que diz “J’existe”. Fotografo e sigo.

Passo pela terra de Mos. Os cafés estão fechados e os albergues também. Subo montes, desço montes, passo por estradas, vou por passeios. Vejo pessoas que me olham e dizem “hola”. Um miúdo gordo com uma camisola do Real Madrid que está sozinho num campo de jogos a chutar uma bola contra uma baliza diz-me “Buen camino”. Respondo-lhe “Gracias, Cristiano”. Ele ri-se. E eu continuo.

Penso se vou até Arcade ou se me fico por Redondela. Uma vez chegado à segunda, e visto que o dia se está a pôr, penso em parar. É o primeiro dia, foram quarenta e dois quilómetros. Acho que mereço um pequeno descanso. Dirijo-me ao albergue municipal e registo-me. Sou o terceiro peregrino, e o terceiro português, diz-me a senhora. “E eram três”, como na música dos Comboio Fantasma. Instalo-me na cama de baixo de um beliche e vou tomar um banho. Faço algumas flexões antes e sinto os músculos das costas e dos ombros a tremer. A água morna cai-me pelo corpo abaixo e sinto-me renascido. As minhas costas estão péssimas devido ao acne mas é o que é. Saio e visto-me e sento-me na cama. Penso e declaro para mim mesmo: foi um bom dia de caminhada.

Saio do albergue e vou a Redondela comprar comida. Entro no supermercado local para ver o que se arranja. Saio com um pão, uma embalagem de fiambre e uma cerveja Mahon de lata, mais umas bolachas. Depois passo por um café e decido entrar. Sento-me e peço um chocolate quente. Oferecem-me um bolo para acompanhar. Adoro cafés espanhóis porque nunca te deixam só com uma bebida. Mergulho o bolo, uma espécie de folhado, no chocolate, enquanto vejo televisão. O Real Madrid joga contra o Grémio na televisão. Dá-lhes, Cristiano. Depois olho para o mapa da credencial para pensar no que fazer amanhã. Depois acabo o chocolate e saio. Já está escuro na rua e faz algum frio.

Sento-me na sala de estar do albergue e abro o caderno e tiro notas do dia. Depois abro as Confissões de Santo Agostinho e tento ler um pouco. Está um senhor na sala de estar a ler jornais e um miúdo a estudar o que parece ser geometria descritiva. Não são peregrinos. Sinto o cansaço e a fome. Fecho o livro e vou para a cozinha preparar umas sandes.

Chego à cozinha e meto conversa com um peregrino que por lá se encontra. Chama-se Senhor A. O Senhor A é português e ciclista. Está a fazer este caminho a pé pela segunda vez (fez mais uma vez de bicicleta, bem como o caminho francês). O Senhor A é um daqueles tipos que quer falar muito. Sabem, uma daquelas pessoas que mete conversa e que quando faz uma pausa olha para nós e independentemente do que dissermos (como, por exemplo: a sério?; isso é engraçado; aconteceu-me uma coisa parecida um dia; olhe, vou morrer amanhã) ou não dissermos elas continuam a falar do que estavam ou querem falar. E assim vou ouvindo o Senhor A e as suas histórias enquanto bebo a minha Mahon.

O Senhor A tem sessenta e um anos e uma vida de aventuras. Algumas pessoais, outras de bicicleta. Por exemplo, fez a estrada da morte na Bolívia, de bicicleta. Fez uma série de viagens pela Europa, de bicicleta. Tem dois filhos e uma ex-mulher. Fala de coisas familiares e pessoais com um grau de pormenor que é algo aberto demais. Ou como dizem os ingleses, “too much”. Entretanto aparece o Senhor O. O Senhor O é um peregrino alemão. Foi o único peregrino que vi durante poucos minutos no caminho antes de desaparecer por uma curva (diz-me agora que foi a um café). Falou pouco, mas interrompeu o suficiente a conversa com o Senhor A para eu conseguir sair da cozinha e voltar para a sala de estar e voltar a abrir o meu livro. Li duas páginas e fui para a camarata.

Estou no beliche a preparar-me para dormir. Tenho tudo pronto para sair amanhã. A mala, a roupa, as bolachas. Enquanto escrevo as últimas notas no caderno vou ouvindo o Senhor A e o outro peregrino português conversar sobre histórias pessoais e de bicicletas e de albergues. A dado momento o Senhor A diz que vai falar com os filhos e abre o computador. Depois chama-me e pergunta se eu quero ver as suas páginas de Facebook. Levanto-me e vou ter com ele. O Senhor A mostra-me então três páginas onde escreve sob pseudónimo, como se fosse um personagem. A partir do personagem vai criando histórias fictícias. Cada página, um personagem; cada personagem, uma história. Algumas, diz-me, são bastante sugestivas — e acrescenta que é dessas que as mulheres mais gostam. Olho para as páginas e vejo fotografias de pessoas feias em roupas foleiras.  Nas páginas mais sugestivas estão fotografias de pessoas feias com poucas roupas (mas as roupas que têm são foleiras) e em poses, de facto, sugestivas. Não creio que as histórias devam ser grande coisa, mas se calhar estou a ser mauzinho. O Senhor A diz que é um “grande maluco”. Entretanto os filhos dele falam-lhe pelo serviço de mensagens do Facebook. O Senhor A diz-me que o mais velho tem dezasseis anos e quer ser body-builder. Digo-lhe que é uma carreira. Ele diz que ele é um mandrião. Respondo-lhe que é a vida. Ele diz-me “pois”. E então levanto-me e volto para a minha cama. Entretanto entra outro peregrino na camarata, mas vai para uma cama que fica noutra divisão.

Deito-me e fico a olhar para a cama de cima. As luzes estão ligadas e o Senhor A e o outro peregrino português recomeçam a falar. Não me lembro se acabei de rezar a última dezena ou se adormeci antes. Lembro-me que me doíam ligeiramente as costas. Fiz alguns alongamentos de ióga ao tronco, costas e pernas antes de dormir. Lembro-me também que pensei nas muitas coisas que pensei ao longo do dia. Andei durante cerca de onze horas sozinho. Pensei em muitas pessoas, situações, passados, imaginações. Cantei algumas coisas. E de resto andei, e olhei, e rezei um pouco. Estive muito atento e animado. Gostei deste meu primeiro dia. Continuava a querer mais caminho. Dentro de umas horas era o que me esperava. E adormeci.