Narrativa del camino – dia dois

Estou a levantar-me da cama no albergue de Redondela. Voltei a acordar durante a noite, mas só por duas vezes. A primeira foi pela uma e quarenta e dois. A segunda foi pelas quatro e tal. Ouvi o Senhor A a sair da camarata. O outro peregrino estava a arrumar as coisas quando me levantei. Vesti-me, enrolei o saco-cama e pus a mochila às costas. Fui à cozinha e comi o pão que me sobrou do jantar e uma das bananas que tinha. Depois olhei para o relógio. Eram sete e meia da manhã. Saí e virei à direita. Estava outra vez no caminho.

Fazia bastante frio e estava escuro. Em Espanha amanhece uma hora mais tarde. Ia andando rápido para ver se aquecia. Passei por ruas estreitas e por pessoas com ar de estarem a voltar de um bar ou discoteca. Noites loucas de Redondela. Segui por algumas descidas até ir parar a um caminho de terra. Entretanto passou por mim o outro peregrino português que estava no albergue e que falava com o Senhor A. Não me olhou, mas desejou-me “bom caminho”. Respondi-lhe o mesmo, e vi-o ultrapassar-me a um ritmo invejável. É a idade, pensei eu. Idade é experiência, pensei eu. E o que é a experiência? Continuei a andar e a vê-lo perder-se de vista. Os dois no caminho, cada um no seu caminho.

Passei por campos e um bosque escuro. Ouvi cães a ladrar e galos a cantar. Liguei a lanterna do telefone e fui vendo as setas e marcos no meio da escuridão das árvores. Passei a estrada nacional e numa subida virei para um monte. Eram oito da manhã e achei que o frio me tinha despertado de uma maneira incrível. Continuei a subir até estar numa encosta e conseguir ver, ao longe, aquilo que me pareceu ser um monte com um rio por baixo. Entretanto o céu ia-se abrindo e estava agora tudo a ficar claro. A luz rosada da manhã começava a bater sobre as árvores verdes escuras e avermelhadas. Parei e admirei a imagem. Nunca tinha imaginado que a Galiza interior fosse tão bonita. O calor da subida já me tinha afastado o frio que me gelava a cara. Sinto a barba algo húmida e penso se apanhei um pouco da geada matinal. Depois desço e entro na terra de Arcade.

Tomo o pequeno-almoço num pequeno café no centro que fica na linha do caminho. Peço um croissant e um café com leite. Servem-me o croissant com garfo e faca. Relembro-me imediatamente do episódio do Seinfeld em que George Constanza começa a comer barras de chocolate com talheres. Servem-me alguns bolos para o café. Já vos disse que adoro cafés galegos? Vejo na capa do jornal Marca que o Real Madrid ganhou ao Grémio com um golo de Ronaldo. Gracias, Cristiano. Tiro dois apontamentos no caderno e ponho-me a andar.

Passo por uma ponte ao sair de Arcade. A água está escura e há uma ligeira bruma por cima do rio. O sol começa a bater sobre a estrada. Meto-me pelo caminho e vou por dentro de ruas e ruelas de uma aldeia. As comparações minhotas continuam a abundar. Oiço senhoras a discutir e o tom é igual ao de discussões no Minho. Passo por imensas árvores de azevinho, carregadas e bonitas. Depois volto a entrar num monte e nas árvores vermelhas e nos campos com geada. A geada por derreter à sombra parece púrpura. Parece que todas as plantas são lavanda. No monte há imensas folhas vermelhas caídas e húmidas. Passam cães e cavalos pelo caminho. Oiço os pássaros nas árvores. A manhã vive enquanto eu caminho.

Penso nesta altura em como muitas vezes estou mais preocupado com o que pode acontecer do que com o que acontece. Mais a pensar no “e se” do que no “é”. Expectativa versus realidade. Penso que isso não faz bem. Penso que não é uma boa forma de se estar. Penso e páro e gravo o pensamento numa mensagem de telefone. Depois continuo a andar.

Volto para uma estrada depois do monte. Doem-me os ombros e a cintura. Tiro o cinto com a garrafa de água e prendo-o nas pegas da mochila. Sinto um alívio e sigo o caminho. Vou comer a Pontevedra e depois seguir para Caldas de Rey, fazendo mais ou menos a mesma distância do dia anterior. E, assim, chegar a Santiago já amanhã, um dia antes do previsto. Parece-me um bom plano. Entretanto vejo imensa gente a passar de carro e bicicleta pela estrada. É Domingo mas continuo sem ver um peregrino que seja.

Chego a Pontevedra e passo por uma rapariga que parece ser peregrina. Acenamos com a cabeça um ao outro e ultrapasso-a. Cada um no seu caminho, os dois no caminho. Vou entrando na cidade e procuro um sítio para comer. Tenho de ir à missa. As lojas estão fechadas mas há gente na rua. O centro de Pontevedra é bonito. O caminho leva-me à igreja da Virgem Peregrina. Entro e dizem-me que a missa começa dentro de quinze minutos. Compro uma sandes numa loja ao lado, como-a e depois assisto ao serviço. O padre é muito assertivo e aponta muito o dedo enquanto fala do evangelho e da importância do advento. Na assistência, cheia, sou uma de três pessoas com menos de quarenta e muitos anos. Rezo pela minha família, amigos e pelo que resta do caminho. Depois, quando a celebração acaba, saio da Igreja, pronto para continuar.

O problema começa quando me ponho a andar. Sinto uma dor na minha perna esquerda, mais concretamente na canela. Não percebo o que pode ser, mas obriga-me a coxear um pouco. Penso se devia ou não ficar em Pontevedra e tratar disto. Mas são duas da tarde e pelos meus cálculos (altamente falíveis) penso que consigo fazer o mesmo número de quilómetros que fiz de manhã e chegar a Caldas de Rey. E assim passo mais uma ponte e saio da cidade e vou de volta para campos e aldeias e ando. Mais lento, e mais arrastado, mas ando.

Passo por linhas de comboio carregadas de balastro. Passo por pequenas estradas. Passo por riachos. Pego em paus e uso-os como cajados por alguns metros. Rezo as dezenas que tenho de rezar e penso em episódios do que ano que passou. Como bolachas e acabo com as bolachas. Sinto-me cansado e creio que se deve à falta de café. Depois vejo um prado enorme e espaçoso e animo-me. Olho para um marco e vejo que faltam dez quilómetros para Caldas de Rey. Sinto a perna esquerda a doer mais. Pergunto-me: devia parar? Mas continuo. Vejo que a claridade já não é tanta. Passo por cafés e albergues fechados. Passo por éne casas com éne cães que me ladram de éne formas. Vou parando às vezes para esticar as pernas, e depois volto a andar. Chego à estrada nacional e faltam-me sete quilómetros para Caldas. Imagino que será de noite antes de lá chegar.

E nesse momento aparece N. Vinha mais atrás e apanhou-me naquele momento. N era o peregrino que chegou tarde ao albergue no dia anterior. Apanhou-me na estrada nacional e deu-me companhia, conversa e ritmo.

O sotaque era nortenho. Ia determinado, era a quarta vez que fazia o caminho. Precisava de estar em casa, no Porto, no dia seguinte, porque tem duas filhas pequenas e a mulher está sozinha com elas. Falámos sobre fé, sobre existência, sobre santos, sobre formas de lidar com a vontade, a liberdade, a autonomia, o desejo, o querer. Conversas leves. E depois apercebemo-nos que tínhamos amigos em comum e pontos de contacto. A probabilidade de apanhares um português no estrangeiro que é amigo de um amigo e tal é impressionante. Apanhámos laranjas à beira da estrada e continuámos a andar. Não me lembro do caminho nesta altura. Só da conversa. Os dois no mesmo caminho. E, sem darmos por isso, estávamos de repente em Caldas de Rey.

N já cá tinha ficado e guiou-nos para o albergue. Tinha ainda de ir à missa, que começava às sete da tarde. Entrámos no albergue e deixámos as coisas. Falámos um pouco com o recepcionista, ele próprio peregrino. N perguntou-lhe de onde vinha, ele disse que de Zagreb. N perguntou-lhe se não era ele “o” peregrino. Ele disse que sim. Depois N explicou-me. Aquele homem era José, o peregrino. Era um pescador que há uns anos atrás estava na Noruega. O barco onde estava naufragou; José foi o único sobrevivente. Fez uma promessa que se vivesse iria passar o resto da vida a peregrinar. E desde aí foi o que fez. Já foi a praticamente todo o lado e estava agora ali em repouso, à espera de dinheiro para poder continuar. Desejou-nos bom jantar e saímos.

Enquanto N ia à missa fui para um bar. Sentei-me ao balcão e pedi um café com leite. Desta vez só me trouxeram uma bolacha, mas agradeci à mesma. A empregada era uma miúda dos seus vinte anos, cabelo escuro e óculos de aviador à anos setenta. Tinha um brinco na narina esquerda e uns ténis Stan Smith e um sorriso simpático. Escrevi no caderno sobre a viagem do dia e senti a canela esquerda a doer. Quando saí para ir ter com N tinha de arrastar a perna. N também estava “todo empenado” (dito com um forte sotaque tripeiro). E assim, a andar como dois aleijados, fomos jantar a um sítio que N conhecia.

Pedimos uma harmburguesa especial e uma caña. Acabámos por beber três cada um, todas elas superbock. Falámos muito, sobre arte, criação, estilos, família, escrita. Depois voltámos para o albergue. Dois empenados portugueses, na fria noite das Caldas. Quando chegámos José estava na recepção. Recebeu-nos com um vídeo de um noticiário sobre a sua promessa. Disse-nos que a melhor peregrinação que fez foi ao Tibete, e que já tinha ido e vindo da América pelo Estreito de Bering. Depois disse que ia dormir. Fomos para a camarata. Éramos os únicos ocupantes do albergue.

Fiz alguns alongamentos antes de me deitar. A perna esquerda continuava a doer. N emprestou-me Voltaren gel. Sim, porque sou um tipo super-inteligente e preparado que vai fazer uma caminhada de cento e vinte e quatro quilómetros em quatro dias e leva uma mochila hipster, camisolas e umas calças estilosas, um poncho super-impec para o que der e vier, meias quentes e boas para andar, um chapéu tipo Indiana Jones só naquela, uma luzinha (sim, uma lu-zinha) para ler na cama, e até um mini-kit primeiros socorros com benuron (uau!) e pensos e  gaz e álcool para as feridas, sem falar (mas deixem-me falar) da “experiência” de ióga (inserir caption “lots of laughs”) em alongamentos in-críveis (favor levantar os olhos para cima ligeiramente no “in”) para tratar de qualquer problema que possa surgir durante o percurso. Agora, coisas que interessam, que realmente interessam para tratar de maleitas que podem suceder em caminhadas, com as pernas ou os pés, tipo anti-inflamatórios, gel para dores musculares, e meias-elásticas, está quieto.

Mas enfim, vivendo e aprendendo. N emprestou-me o gel e passei-o na perna e no pé. N mostrou-me um vídeo de flamenco com um poema de S. João da Cruz. Era interessante. Depois despedimos-nos e deitámo-nos. N tinha de sair pelas cinco da manhã para ver se conseguia chegar a Santiago a tempo de apanhar o comboio de volta para baixo. Quanto a mim, só queria lá chegar, fosse às horas que fosse.

Deitei-me e olhei para a cama de cima. Tinha um desenho feito a caneta azul numa das barras de madeira. O desenho era de de dois círculos grandes, cada um com um círculo mais pequeno e carregado no seu interior. Ao lado tinha uma frase. “Sonha e dorme bem, peregrino” e em baixo, entre parêntesis, “mamas”. Ri-me. Não me apetecia ler o livro. Depois pus-me a pensar nas coisas que pensei durante o dia. Pessoas, eventos, sonhos, frustrações, alegrias, certezas, inseguranças, etc, e etc, sweet old etc. E depois pensei na minha perna e se ela ia estar melhor ou não depois desta noite. Rezei pelos efeitos milagrosos do Voltaren e comecei a imaginar cenários possíveis caso não recuperasse. Teria de ir pelo menos até Padrón, porque os albergues até lá não estariam abertos. A pergunta era se iria depois até Santiago, ou esperaria mais um dia. Fui dormir. Amanhã veria o que fazer.