Narrativa del camino – dia três

Há atitudes e há atitudes. E há momentos em que pensamos que podemos fazer as coisas de outra maneira. E depois há momentos em que fazemos as coisas da maneira que for. E quando começamos a fazer as coisas, podemos parar. Podemos sempre parar. Podemos desistir, dizer não — “just say não” — ou ‘chau, au revoir, adieu, bye bye, non te quiero más. E há consequências e tal, mas pronto, poder parar podemos. Mas podemos também continuar. Querer seguir. Acabar o que se começou e, olha, ver no que dá, salvar a cara, não morrer na praia. Por vezes, porque se quer mesmo. Por vezes, por mero orgulho. Por vezes, por mera estupidez. Por vezes, porque é o que tem de ser. Por vezes, por todas as razões juntas e alguma crença de que se vai conseguir.

Digo isto pelo seguinte. São sete e cinquenta da manhã. Está escuro como breu e estou no meio de um caminho de bosque com a lanterna do meu telemóvel na mão. Está um frio de merda e vou a coxear da merda da minha perna esquerda. Tenho a merda da barba húmida e a merda das minhas luvas não protegem a merda das minhas mãos do frio. E há uma merda de uma seta que aponta para a esquerda mas que na realidade devia apontar em frente e então em vez de ir em frente vou por um caminho à esquerda e acabo a subir a merda de um monte enquanto vou magoando a merda da perna e depois desço a merda do monte no meio da merda das árvores e vou parar à merda de um riacho e não vejo nem uma merda de uma seta nem uma merda de um marco e então volto para trás e passo por uma merda de uma casa que parece estar abandonada e ouço a merda de barulhos que parecem ser de pássaros ou outros animais que não consigo ver porque acho que já disse que está uma merda de escuro e estou só com a merda da lanterna do telemóvel e sigo de volta para o caminho e vejo a merda da seta a apontar para a merda da esquerda e vou em frente como devia ter ido e — sabem o que aconteceu? — passados vinte metros está outra seta que continua a mandar em frente. E é a vida. E segue-se a seta.

Antes: despedi-me de José e deixei-lhe duas frutas que tinha comigo e algum dinheiro para o pequeno-almoço. Depois fui tomar o pequeno-almoço — torrada e café con leche, tendo guardado o queque de brinde (não falha) para a viagem — e pus-me a andar. Na televisão do café davam notícias sobre as eleições catalãs. Continuava a coxear tanto ou mais que ontem. Às sete e trinta e sete vejo o primeiro marco, que aponta quarenta e dois quilómetros até Santiago. Respirei fundo. E segui.

Passei a maior parte da manhã a pensar se devia seguir ou não. Se devia parar nalgum sítio e só continuar amanhã. Ver o que é que se passa com a perna. Mas depois pensei que se já fiz quarenta quilómetros em cada um dos dois últimos dias, porque não continuar? E então continuava. E rezava as dezenas (duas, de manhã) e pensava em coisas. E não encontrava outros peregrinos, e dizia bom dia às pessoas que passavam. E ia pelas aldeias, e pelas estradas, e pelos montes. E os cães ladravam. E alguns carros passavam. E as subidas faziam-se bem, e as descidas eram o pesadelo, e pensava se a esta velocidade conseguiria chegar a Santiago a horas decentes. E pensava se N iria conseguir chegar a Santiago e apanhar o comboio. E pensava no que iria fazer quando chegasse a Santiago. Pensava numa caña, em chocolate e churros, em entrar na catedral, em ir pedir a compostela. E depois pensava na estrada. E olhava para o caminho. Para as conchas e setas. Para as árvores. Para o céu, hoje meio nublado. E pensava no ano que passou, mês a mês, evento a evento. Pensava nos desejos para o próximo ano. Escrevi-os no caderno, os doze, como as passas que se comem à meia-noite. E pensava em coisas boas e más e assim-assim. E sentia-me, apesar de coxear, e de custar, e do cansaço, e da vontade de chegar, bem. Sozinho — salvo a divina providência — mas bem.

O sol não aparecia e o frio era muito. E era chato. Andei de luvas toda a manhã. Passei por uma zona chamada Pontecesures que era muito feia e que tinha muitas subidas e muitas (suspiro) descidas. E depois cheguei a Padrón, que também é muito feia. Sentei-me para almoçar num restaurante e pedi uma hamburguesa (a terceira em três dias) e um café e saí em vinte minutos. A perna doía e eu parava e esticava e depois andava. E então decidi ir devagar. Lembrei-me do Caminho dos Coxos e ri-me. Faltavam vinte quilómetros.

Quando desaceleramos as coisas demoram a passar, de facto. Mas aproveitamos mais. Ia-me sentando nalguns bancos, rezando uma avé-maria aqui e ali. Olhava para os campos grandes e para as casas de pedra. Via as couves e os animais a pastar. Encostava-me para deixar passar os carros. Comi o queque que tinha guardado do pequeno-almoço. E, aos poucos, ia sorrindo. Cantava uma ou outra canção que o meu shuffle mental me mandava. Desde pimba até pós-punk britânico — va savoir as associações cerebrais. Sempre que via um marco olhava para a distância que faltava. Pensava: só andei duzentos e sessenta e sete metros; boa, andei quinhentos e trinta e dois!; o quê, só cento e vinte e dois?! — entre outras coisas. E às vezes parava e encostava-me ao marco e olhava para as paisagens à volta. Salvo o som da estrada nacional ao fundo, era tudo silencioso e calmo. Ria-me, bebia água, e continuava a andar.

Aos quinze quilómetros, não sei porquê, fiquei animado. É o efeito dos números redondos e certos, talvez. Fiquei animado ao ponto de parar numa estação de serviço e comprar uma maçã e um kit-kat. Comi-os de imediato e segui caminho. Estava convicto de que ia chegar pelas oito da noite a Santiago. Eram quatro e muito da tarde e o céu estava nublado. Já não havia tanta luz. Entrei pela aldeia de Faramello e fui levado para uma zona de jardins e montes com muitas árvores e espaços abertos. Faltavam treze quilómetros para Santiago, o céu nublado em cima, cinco e tal da tarde. E então parei, e suspirei.

Sabem o que é o Outono? O Outono é a primeira metade do mês de Dezembro na Galiza. É um bosque, um monte ou um jardim galego, cheio de árvores altas com grandes ramos num dos dois luscos-fuscos do dia. É o número de folhas vermelhas e laranjas e amarelas nos ramos e no chão. As copas e os mantos, sobre a nossa cabeça e sob os nossos pés. É a serenidade da imagem, do momento, do cheiro a fresco que há nessa altura, do dia que começa e do dia que acaba. O Outono é uma pausa, um interregno na caminhada dos dias. É uma viagem no meio do movimento que é a vida. Uma fuga. Um prazer. Uma aventura. Um descanso. Uma dor. Uma preguiça. Um amor. Uma piada. O Outono é das coisas mais bonitas que existem neste mundo. E é isso que sinto enquanto passo por isto que vos conto. O Outono é isto. É esta sensação serena e segura. É esta paz. Não sei explicar melhor. Mas é bom.

Depois continuei. Quando vejo a placa que marca onze quilómetros olho para o céu e logo de seguida olho para o relógio e percebo que tenho de tomar uma decisão. Ou continuo, e faço os últimos onze quilómetros de noite, ou fico aqui e tento encontrar um sítio para dormir. Depois penso que se paro não vou querer andar mais. Portanto, mais vale fazer tudo agora. E sigo.

A noite cai e cai forte. O céu fica escuro e as setas e marcos vão me levando por estradas de terra e caminhos de bosque. Faço cerca de dois quilómetros e meio num bosque escuro, sem candeeiros ou casas, até chegar ao lado da estrada nacional. Por um momento penso no que estou a fazer. Estou sozinho, no meio da Galiza, de noite, a atravessar um bosque escuro, através de um monte. Tenho uma lanterna de um telefone, e estou coxo. Tenho frio, e daqui a pouco vou ter fome. Penso nisso enquanto ando, mas continuo a andar. Lento, arrastado, mas em frente. Quando chego a uma estrada com luz e apercebo-me que já não há mais bosque começo a chorar. Acho que foi do cansaço e do esforço. Deixo as lágrimas vir por um pouco e depois lavo a cara. E sigo. Sempre a seguir.

Os marcos vão ficando menores. De onze passei para dez. Depois nove. Depois oito — claro, com algumas centenas de metros pelo meio e não poucos impropérios. Por fim estou em Miladoiro, última paragem pré-Santiago. Luzes, condomínios, superfícies comerciais. Tudo o que você quer de um subúrbio estava ali. E dos oito passa-se a sete, e dos sete a seis quilómetros ponto qualquer coisa. E lá vou eu, bebendo água, todo contente, já feliz por faltar tão pouco, por passar por pessoas normais e suburbanas que vão fazendo a sua vida normal e suburbana e já me imagino a chegar à catedral em uma hora e tal e estar tudo bem. Tudo bem.

Mas de repente vejo um marco que diz que faltam sete quilómetros ponto qualquer coisa. E isso não está bem porque mais atrás faltavam seis quilómetros ponto qualquer coisa. Admito que não devo estar com todas as minhas aptidões físico-mentais no máximo. Mas não estou (assim tão) maluco. Olho para o lado e vejo um sinal que explica que houve uma alteração do caminho nesta parte final. E olho em frente e há mais bosque. E mais escuro.  Há uma parte de mim que fala sozinho e diz qualquer coisa como “F******” (em bold, sublinhado e caps lock) e respira fundo. Suspiro, mas pronto. É o que é. E o que é é seguir. E sigo.

Desço este bosque que percebo que vai ser curto porque vêem-se luzes ao longe. Mas antes de chegar às luzes oiço um barulho e olho para o lado e está um cavalo castanho a olhar para mim. É grande, e é bonito, e tem um ar sério. Fico parado a olhar para ele. E depois vou, e ele fica. Chego às luzes e vou andando. Às vezes olhava para a estrada e parecia que via setas amarelas em todo o lado. Só queria setas e marcos e direcções. Só queria, no fundo, chegar. Quatro destes seis quilómetros finais foram passados por aldeias pequenas, estradas de alcatrão que ora subiam, ora desciam, ora passavam a linha do comboio, ora acompanhavam algum viaduto, ora apenas existiam. Não cantava e não pensava em nada a não ser nos metros que faltavam de marco para marco. A perna coxeava e doía mas aguentava-se. A água bebia-se. A paisagem era dispensável. E era isto.

Cheguei a Santiago e meti-me por uma rua em direcção à zona antiga. Era a subir e via os cafés fechados. O meu chocolate com churros e a minha caña teriam de esperar pelo dia seguinte. Passei por jovens universitários e por imensa gente típica de uma grande cidade. As espanholas vestem-se tal e qual como as portuguesas, com saias ou vestidos e meias escuras e botas e os espanhóis têm aquele hábito estilístico estranho de subir a bainha das calças acima do tornozelo no inverno. Foi uma das poucas notas mentais que fiz. Depois entrei na zona antiga. Vi imensos bares abertos, com cadeiras na rua e galegos sentados a beber cañas. Estava um frio incrível mas eles estavam cá fora. É fixe ver isso. Passei por um restaurante que vendia massa para levar. Comprei uns raviolis com carne e molho de bolonhesa e uma lata de Mahon. Depois saí e fui para a catedral.

A catedral de Santiago estava fechada. Teria de entrar lá amanhã. Fui até à porta e toquei-lhe. Pensei: fim. Cheguei. E fiquei contente. E ri-me. E liguei o telemóvel e tirei o modo vôo e procurei um albergue na internet. Fui parar a um hostel cem metros acima (cem metros, lol) chamado El Último Sello (mega-lol). Tinham uma cama livre. Não precisei de tirar o saco-cama porque tinham lençóis lavados. Que luxo. Arrastei a perna até à cozinha e comecei a comer. Liguei à minha Mãe a dizer que estava vivo e em Santiago. Mandei umas mensagens e meti conversa com um peregrino escocês que veio de França. Depois fui para a cama. Lavei os dentes e pus os lençóis. Deitei-me.

Rezei mas não escrevi nem li. Não olhei para a cama de cima do beliche na camarata. Não me lembro, sinceramente, do que pensei. Acho que pensei que tinha de acordar cedo para ir à catedral e depois ir buscar a compostela e depois ir apanhar o autocarro para baixo ao meio-dia. Só me lembro de me sentir cansado, estafado, empenado, mas bem. Tinha feito cento e vinte e quatro quilómetros, sozinho, desde Valença do Minho até Santiago de Compostela em três dias. Foi uma estupidez gigante — o modo, não o caminho — mas estava bem. Valeu a pena. Pelo menos senti que sim. Que valeu mesmo a pena. E então adormeci.