Relato teatral

Fui ver a peça Nous Deux Maintenaint de Jonathan Capdevielle à Culturgest. Comprei o bilhete há cerca de duas semanas. Tinha ficado com a ideia, quando o comprei online, que a sala estaria composta. Era quinta-feira e quando cheguei vi pouca gente. Sentei-me e estava, de facto, pouca gente a assistir. Se tivesse de quantificar, diria cerca de vinte e cinco pessoas. A peça estava no grande auditório. Durava três horas. Era baseada no livro “O Crime” de Georges Bernanos, um policial dos anos trinta. Confesso que achei o texto algo confuso e pesado. Era difícil seguir a narrativa e o drama ao mesmo tempo, se é que me entendem. Como se a ideia contaminasse de tal forma a história que destruísse o seu ritmo, até se tornar numa meditação sobre a identidade, a verdade e o amor. Era giro, mas algo ambicioso demais. A encenação era provocadora, bastante moderna, e achei o cenário engraçado. A primeira frase da peça é: “Nasci a vinte de Fevereiro de mil oitocentos e oitenta e oito”. Exatamente um século antes do meu nascimento. Achei que isto poderia querer dizer qualquer coisa e tentei ficar mais atento. Mas o início da peça era particularmente difícil, porque era feito quase todo às escuras, só com duas vozes e as legendas projectadas no fundo. A peça depois vai crescendo e a dado momento já percebemos que estamos perante um espetáculo interessante, mas não mais do que isso. E foi aí, quando já estava confortável em termos de cansaço e resignado perante o que estava a ver que olhei para trás. Estava na coxia da quarta fila a contar do palco, na secção do centro. Só havia uma pessoa na fila da frente. Olhei para as pessoas que estavam atrás de mim. Nunca tinha olhado para as caras das pessoas quando vêm teatro. No cinema sim, no teatro não. Observei. Algumas dormiam. Outras estavam muito atentas. Outras mexiam-se muito na cadeira. Tenho noção de que eu também me mexi muito na cadeira. Tinha alguma fome e a sala estava bastante fria, diga-se de passagem. Foi a primeira vez em bastante, mas mesmo bastante tempo em que vi teatro numa sala quase vazia. É estranho ver tanto espaço fora do palco. É uma sensação quase desconfortável. A dado momento a personagem principal pergunta a outra personagem se esta sonha. E antes de obter resposta diz que os sonhos — à séria — não são um conjunto de imagens desconexas e descoordenadas que se tem durante a noite, mas sim uma visão coerente com um elevado grau de verosimilhança com o mundo. Algo que nos faz acreditar na sua própria realidade. Vou ouvindo e penso: como será ser a única pessoa a ver teatro numa sala? E numa sala destas? Imaginei-me no lugar da pessoa da primeira fila. Sentada, só, perante os actores e os seus adereços e as suas palavras. Sem ninguém atrás para a apoiar. Uma peça em que os actores estão em maioria face ao público. Em que o público, que já está à mercê dos actores em geral, agora está na sua mão. Em que o equilíbrio normal do teatro — a conquista da audiência pelo espetáculo — parece mais fácil. Imaginava-me. Estaria desconfortável? Nervoso? Ou entusiasmado? Assertivo no meu olhar e apreciação? Com gosto, a saborear o momento? Ou levantar-me-ia, quebraria os protocolos e entraria no palco enquanto os actores se mantinham na interpretação de forma profissional, observando a história de perto, puxando ao limite o respeito que o espectador deve perante os artistas? E os actores? O que fariam? Olhariam para o horizonte da sala vazia, ou para mim? Seriam profissionais, ou iriam borrifar e enveredar pela displicência? Ou excitar-se-iam por terem uma vítima à mão? Quebrariam o contacto e as linhas ensaiadas e começariam a descer do palco, a ir para a sala, a aproximarem-se do meu lugar e a colocar-me cada vez mais no centro da sua encenação e obra, em contraste directo e violento, esticando ao limite o respeito que o artista tem perante o seu interlocutor? Fiquei nesse sonho, enquanto o fumo do cachimbo de uma personagem me chegava. Gosto do cheiro. Gostei de alguns momentos da peça. Gostei do cenário, composto por uma cabine que parecia um confessionário e por uma gigantesca raiz de árvore, branca, que enchia o palco. A dado momento, no fim, montava-se uma rave. Música de dança, puntz puntz da pesada. Se estivesse sozinho, ter-me-ia levantado e começado a dançar? Ou será que eles teriam vindo dançar para o meu lado? Os personagens (ou se calhar era só um, não dava para ouvir bem) berravam “Os falhados não vos irão falhar!” enquanto dançavam de forma livre e espontânea. Na minha cabeça, ao ver a legenda projectada, mudei as palavras para “Os fracos não irão fraquejar!”. Não sei porquê. Estive algo ansioso na semana passada, particularmente enquanto andava de metro. Não sei porquê. Foram três longas horas de peça e estava com alguma fome. Uma coisa de que me apercebo recentemente é de como a fome me fragiliza. Depois da rave houve um monólogo e a peça acabou e as luzes acenderam-se. Levantámo-nos todos os espectadores e saímos para a noite fria do Campo Pequeno. E a vida seguiu.

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