Romance académico

Contaram-me uma história. A história é a seguinte. Um rapaz está numa faculdade de direito a fazer um exame escrito. Vamos chamar-lhe “o aluno”. O aluno é estrangeiro, mas percebe, fala e consegue escrever em português. O aluno está nervoso porque é um aluno aplicado que costuma ficar nervoso quando faz exames. O exame versa sobre teoria do crime. No enunciado está descrito um caso prático. É dito que o crime em questão, no caso prático, foi cometido “por amor”. O aluno olha para o caso prático. Lê muito bem o caso e os problemas que ele implica. Depois rabisca algo na folha de rascunho. Abre o código penal, leva a mão ao queixo, pensa. Depois pousa a caneta e a folha e o código e fica só a olhar para o enunciado. Pensa, pensa e sua. Está nervoso porque é aplicado e porque há algo no caso que o põe nervoso. De repente levanta o braço. Um dos assistentes que vigia a prova vê o braço levantado e desloca-se até ao aluno. Pergunta-lhe, em voz baixa, “Sim?” E o aluno, falando de forma suave e com um sotaque subtil diz: “Tenho uma dúvida”. “Diga”, responde o assistente. O aluno olha para o enunciado e depois olha para o assistente. Olha para o rabisco, para a caneta, para o chão, e depois para o assistente. Está nervoso e a ganhar coragem. O aluno está mesmo muito nervoso, porque é muito aplicado e tímido e sem grande jeito para assumir fraquezas ou dúvidas. O assistente olha para ele. O assistente não é desta área científica. Só sabe o básico de crimes e pouco mais. No entanto, já tem alguma experiência a vigiar exames. Consegue perceber que o aluno está algo nervoso. Já viu isto várias vezes, antes. Consegue perceber que vem aí uma grande dúvida. Já viu isto várias vezes, antes. Já sabe o que vai responder porque já respondeu várias vezes. “Não sou da área. Não sei. Leia outra vez. Pense. Respire fundo. O regente já vem aí. Responda à próxima e deixe essa para o fim. Tem x tempo ainda. Não posso responder a isso”. Etc e etc. Entretanto o aluno respira fundo. Olha para o enunciado, para o chão e para o assistente e repete a sequência mais duas vezes. Até que, finalmente, diz: “Estou muito confuso com um elemento do caso prático. É o seguinte”. O assistente chega-se mais perto para ouvir. O aluno respira fundo. E depois diz.

“Eu sei o que é a paixão. Mas o que é o amor?”

O assistente olha para o aluno. O aluno olha para o assistente. O aluno está mesmo muito nervoso e confuso e se lhe gritassem “BU!” nesse momento ele iria cair ao chão com uma paragem cardíaca. O assistente olha para ele da forma com que os assistentes olham quando os alunos lhes colocam dúvidas — com um olhar muito fixo e seguro para esconder o que quer que se esteja a passar na sua cabeça nesse momento. Depois o assistente olha para a mesa e depois para a janela. Está um dia de sol lá fora. Depois vira-se para o aluno. “Vou chamar o regente”. E foi. Fim.