Rua da Lapa blues

Subo a Borges Carneiro pelo lado esquerdo. A passada é rápida, como de costume. Está frio e vão circulando músicas pela cabeça. Passa o Linger dos Cranberries, derivado da notícia do falecimento da vocalista. Passa o início do Everyday dos Yo La Tengo, derivado concerteza da notícia da sua vinda ao Nos Alive! em Julho. Passa esta e de repente apetece-me ouvir o And Then Nothing Turned Itself Inside Out outra vez, como quando punha o disco a tocar sobre tudo o que estava a fazer. Não sei se é da noite, do frio, dos candeeiros amarelados da rua. Estou a entrar na rua da Lapa e não se vê vivalma. É relativamente tarde, mas nada de mais. É segunda-feira, mas nada de mais. Quando começo a descer a rua desacelero e começo a andar mais devagar. É um esforço progressivo e natural. Sinto-me confortável e aquecido com a lentidão adoptada. Olho para as casas à esquerda, para a textura da pintura de uma casa à esquerda. É um verde-água engraçado. Não passam carros, não há pessoas. Depois paro em frente à minha rua e antes de começar a descer olho para o fundo de tudo. Aquela vista do rio e etc, do céu e etc, da outra margem e das luzes e das luzes dos barcos e reflexos na água e etc é o que é. Falei duas vezes hoje, em conversas distintas, sobre clichês que são verdades evidentes e imperturbáveis. Esta vista — ou melhor, o valor desta vista — é claramente um desses clichês. Desarma-me cada vez que a vejo. Mas hoje está diferente. O céu está claro, salvo alguns traços de nuvens ao longe. Parece um céu de Verão, ou pelo menos dá-me essa sensação. Aquela sensação de final de dia de Verão, quando estamos abraçados por uma felicidade cheia e despreocupada. Como se aquele céu e Verão e sensação fossem eternos, um espaço de calor e amor e verdade e vida e alegria e entusiasmo que nunca, nunca vai acabar. Não sei se a sensação me vem pelo céu ou pela lentidão ou pelo silêncio. Jon Fosse fala da majestade do silêncio, semelhante à de um oceano. É tarde mas não me sinto cansado. Devia, porque tenho de acordar cedo, mas não. Nada mesmo. Começo a descer a rua e paro outra vez. Fico parado e gravo uma nota no telemóvel sobre o que estou a sentir. Sinto uma calma e uma paz. Se pudesse ficava aqui toda a noite, assim. Nem sequer me apetece falar — a voz sai-me (e confirmo de manhã, enquanto escrevo) esparsa e sussurrada. É uma coisa bonita, sussurro para a nota do telemóvel. É possível que daqui a uns meses, anos, sei lá, quando voltar a passar aqui de noite depois de me mudar volte a pensar nisto e nesta imagem e do quanto ela me preenche. Vou ter algumas saudades, sussurro para a nota do telemóvel, é uma rua bonita. De repente ouve-se o som de uma bicicleta a travar. Continuo a descer para casa, e lembro-me do que me disseram hoje, sobre como é um luxo poder ter espaço para receber estes momentos. Ainda não estou cansado. Fecho a porta e a rua fica, majestosa, lá fora. O disco volta a tocar.