Angola street blues

Estás a andar de manhã a pé pela Pascoal de Melo, fotografando de forma descarada frases desenhadas ou coladas nas paredes, portas ou caixotes da rua, porque desde há uma semana que a tua atenção tem capturado pequenos escritos e pensas se isto é uma cidade de poetas ou se é a cidade em si que é um poema imenso, e enquanto desces a Almirante Reis olhas para muitas coisas porque é de manhã e é sábado e estás com poucas horas de sono mas sempre atento, e olhas para multibancos que estão colados a lojas de indianos e pensas numa história em que há um tipo que anda de manhã na rua e olha para uma caixa de multibanco colada a uma loja de indianos e que tem um amigo que cria uma teoria da conspiração absurda e racista sobre como estas máquinas sugam-te o dinheiro e os dados que os dados hoje em dia são como o dinheiro, e pensas que um dia devias apontar estas ideias para escrever, no meio de tudo o que já escreves, um livro de contos ou micro-contos absurdos sobre todas estas personagens que queres inventar, como aquela personagem que era uma telefonista nos serviços centrais do Estado e que escolhia a música que soava quando um telefonema estava em espera nas conservatórias, ou no fisco, ou na segurança social, enfim, uma daquelas ideias que tinhas quando ficavas no escritório horas a fio a ligar para o fisco, para a segurança social, para as conservatórias e ouvias tanta música ao telefone, coisas lentas e rápidas e pensavas quem é que escolhia estes sons, será que alguém escolhe estes sons, será que dá para alguém escolher estes sons, e depois viras para a Rua de Angola e vês um cartaz colado com fita-cola numa caixa de electricidade e que anuncia uma festa rock no Cais do Sodré e pensas sobre quando é que foi a ultima vez que foste a uma discoteca a uma festa assumidamente rock e pensas se foi em Edimburgo, no Liquid Room, que era um espaço horrível mas com sextas-feiras incríveis, em que numa noite fechaste a pista e o dê-jota pôs a tocar o The boy with the Arab strap dos Belle and Sebastian e tu estavas conquistado e bêbado e havia uma miúda a dançar com o namorado e puxava a saia de um lado para o outro na pista, e agora passas por algumas miúdas altamente arranjadas, com roupas novas e sapatos bonitos e maquilhagem segura, e são nove e tal da manhã e elas estão já assim enquanto tu estás de calças de fato treino e camisola vermelha e óculos escuros pintas e com um cabelo que denuncia que acabaste de sair da cama e estás no cruzamento da rua de Angola com a rua do Zaire e pensas que gotta love these streets of Anjos e os seus nomes, e gotta love these streets of Anjos e Intendente onde parece que descobres sempre coisas novas como uma festa escondida num bar soturno ou salas de café estabelecidas em casas abandonadas e pensas como é que vais jogar squash hoje, squash que é um desporto posh — “squash é posh” era uma boa frase para escrever na parede — e destrutivo e que já não jogas há eras, mas vais, disseste que ias e chegaste à rua de Angola para apanhar boleia e vais, e jogas, e apanhas uma coça e ganhas três jogos em tipo mil (ou vinte, já não me lembro da conta) e na boleia de volta ouves Prince — na ida ouviste Springsteen porque quem sabe sabe — e está um grande dia de sol mas tu queres casa e vais para casa, vais para o metro e lês no metro, e reparas que o balão dourado do canal Panda que está há uma semana no tecto do metro do Rato ainda não saiu, e que até não combina mal com o mural da Vieira da Silva, mas são gostos e são os teus e sobes para o jardim da Estrela e apanhas mais umas frases na Álvares Cabral e pensas no postal que vais fazer com as mesmas, e que escreveste enquanto esperavas entre derrotas de squash, e pensas na poesia de algumas frases e não é que ao chegares a casa apanhas uma poeta com óculos à Dylan e dizes-lhe um “oi” e bom fim-de-semana e depois cais em casa e tens a tarde para ti e vês dois episódios de uma série indie-lamechas que malta que tu achas que sabe sabe adora e tu pensas “como é que é possível que esta malta que sabe sabe adore esta lamecheira” e vais dar a oportunidade até ao fim só porque dás a oportunidade aos teus amigos e, por fim, ficas sentado no sofá a ler e a deixar que tudo venha à cabeça sem grande controlo, porque olha, hoje podes tê-lo todo, o descanso, a pausa, as dúvidas, tudo tudo, podes tê-lo tudo. A vida segue.