Regressar do cinema

O carro continua a andar e a canção volta a subir de volume. O ecrã fica escuro e entram os créditos finais. A canção ainda toca. É muito bonita, muito pretty. “Pretty songs and pretty places / Places that I’ve never seen / Pretty songs and pretty faces / Tell me what their laughter means”. Está calor de repente, ou se calhar sou só eu. Se calhar é do filme e do que ele provoca. É um filme sobre a redenção, e sobre saber dizer adeus ao que foi. Ou é outro? Agora a sala está algo fria, mas não tem que ver comigo. No ecrã está a cara do actor face à lareira, com outra canção a tocar. É uma canção de despedida, também bonita, mas menos. O filme também é, em parte, sobre isso: saber dizer adeus. Quer num quer noutro final saio da sala ainda às escuras para a luz do lobby, das escadas, da entrada do centro comercial. É tarde e devia apanhar o metro, mas não me apetece. Apetece-me andar, e apetece-me a gravidade silenciosa que só um passeio traz. Já fiz este caminho tantas vezes. Há anos que o faço. Fi-lo depois de vários momentos, mais alegres e mais difíceis. E agora estou a fazê-lo, por duas vezes. Passo por uma Zara, duas vezes. Passo por uma loja de lingerie, duas vezes. Passo por um café-barra-restaurante onde costumava ver jogos de futebol quando tinha quinze anos e por um prédio em obras cujos cálculos das estruturas foram feitos em parte por um amigo meu. Duas vezes. Ainda apanho frases escritas nas paredes na primeira — na segunda nem olho. Penso nos filmes, nos seus finais, mastigando o impacto. Deixo a canção sussurrar-me na cabeça o refrão. “Pretty songs and pretty faces / Tell me what their laughter means”. E deixo-me ficar assim a andar, pelo meio da noite.