A minha casa é (remix de fim de semana)

A minha casa é… não. Não. Outra vez. A minha casa é… Hum. Bem. Se calhar é melhor começar assim. Estou. Isso, assim. Estou na sala de estar de casa a escrever. Não. Já sei. Estou no terminal dois do aeroporto de Lisboa à espera de embarcar para Dublin e reparo que a fila de embarque prioritário da Ryanair tem o dobro do tamanho que a fila não-prioritária e penso que isso subverte de forma algo irónica todo o conceito da ideia de embarque prioritário. Não. Não, desculpem. Não estou aí. Afinal estou sentado num pub em Belfast, Irlanda do Norte, a beber uma pint de cerveja (marca: Nicholson) a meio de uma tarde de quinta-feira, em frente a um hotel que foi bombardeado éne vezes durante a época dos Troubles, ou so it goes. Ironicamente ou não, o hotel chama-se Europa. Não. Não, não, estou num outro pub em Belfast, longe desse hotel e do meu hotel, perto da Catedral de Santa Ana, e estou de pé a beber uma pint (marca: Guiness) e tenho soutiens e cuecas de renda pendurados por cima da minha cabeça. Mas será isso? Ou será que afinal estou em Lisboa, sentado num banco no jardim da Estrela em frente à estátua do actor Taborda, pelas oito da noite, acabado de voltar do ginásio? Ou estou no jardim à mesma, e à mesma de noite, mas agora de pé e à porta, do lado da Basílica da Estrela, observando o senhor africano de casaco twee, camisa vermelha, calças escuras, barba branca e cachimbo fino, sentado num banco e iluminado cinematograficamente por um candeeiro? Ou porque é que não estou num banco de autocarro a viajar pela estrada de Dublin para Belfast e a fazer vídeos das árvores que passam na janela e a rir-me com episódios soltos de Master of None? Se calhar sim, estou numa estação de autocarros — que, ironicamente, se chama Europa — em Glengalle Street, Belfast, protegido do frio graças ao meu mega-casaco polar recentemente adquirido, a escrever um postal sobre Belfast cujo conteúdo vai ser descartado ainda no aeroporto e aproveitado no sábado de manhã, na sala de casa. Sim, porque estou no aeroporto de Dublin na zona de chegadas às três e vinte da manhã a pensar na distância e no silêncio e nas despedidas. Tenho estado a ler sobre o silêncio quando ando de metro, em Lisboa, de manhã ou de tarde, e a pensar nas despedidas e na distância quando estou a deitar-me, de noite, em Lisboa e em Belfast e no aeroporto de Dublin. Estou em Lisboa, isso sim, deitado no sofá da sala num domingo à tarde a ler sobre algoritmos e a espreitar o telemóvel para ver como anda o mercado das criptomoedas, embora de manhã estivesse a corrigir exames e a ler sobre o vigésimo slam de Federer. Mas sem saber ler nem escrever estou a falar sobre o Natal em Lisboa com Gilbert e George (estes) numa sessão de autógrafos no MAC e estou a voltar para casa do Cais do Sodré pela 24 de julho à uma da manhã de uma segunda-feira. Estou numa pista de aeroporto em Dublin às cinco da manhã a apanhar chuva, a caminho do avião, passando pelo meio de outros aviões e carros com malas e pessoas com fatos fluorescentes e estou a cantar em voz minimamente alta a Deus para que me dê a “voz do Frank Ocean” e a “ginga do James Brown” e a imaginar um musical no aeroporto com os fatos fluorescentes a bradarem as luzes e os passageiros a dançar por debaixo dos aviões esta malhona do Will Toledo e companhia. Que parvoíce. Estou mas é a curtir o sol que me bate na cara com um casal amigo, sentados num restaurante moçambicano na Mouraria, a comer camarão com quiabos e a beber cerveja local. E é bem bom, mas depois ou antes ou o que foi já estou a subir a Álvares Cabral com o Madeline na cabeça, o que significa que estou já a fazer versões do Madeline na minha cabeça, nas quais acentuo o som nasal no ‘ê’, do género “Madalena / não vale a pena / Madalena / qual é a cena”. Entretanto passo a rua com o semáforo vermelho. E estou no pub The Crown Jewel outra vez — em frente ao hotel das bombas, lembram-se? — mas desta vez a beber um copo de vinho branco ao balcão e a olhar-me ao espelho. Faço um brinde, e fico a pensar na morte da bezerra durante uma hora e tal. Depois de duas horas e tal de avião estou no metro de Lisboa outra vez, com um mega-casaco polar que é exagerado para o tempo presente e são dez da manhã de sábado. Estou com ar de quem dormiu três horas e meia, divididas irmamente entre um autocarro, um aeroporto (chegadas e partidas) e um avião. Não mudo de roupa há vinte e seis horas e pouco. Mas estou a comer uma bola de berlim na pastelaria Pão Doce com um amigo e a sair do metro no Rato com o Cute Thing dos Car Seat Headrest aos berros nos édefones e é como se nada fosse e paro de andar sempre que há um “tudududududu” e depois recomeço quando as guitarras entram. Que parvoeira, eu sei. Mas estou agora e ali e acolá e neste fim-de-semana a sentir o mesmo conforto que senti quando, na estação Europa, peguei na mochila e levei-a só com uma pega posta até ao autocarro. Um conforto “‘bora lá”, “siga”, “tranquilo”, se é que (não) me entendem. Uma sensação de invencibilidade e força, algo ridícula e sem uma justificação aparente ou pelo menos imediata, mas bem real — acreditem. Estou, basicamente, num sítio, e depois a caminhar. E sempre a aproveitar quer o sítio, quer o caminho. Parece fácil, ou pelo menos simples, mas é só bom. É bom como estar em casa. E é isso. Voltando ao princípio — ainda se lembram? — diria: a minha casa é um jardim lisboeta, ou um livro lido no metro, uma viagem de autocarro pela Irlanda ou uma viagem de avião continental, uma série de comédia ou um filme surrealista ou uma ou duas ou mil canções americanas, um livro de filosofia manhosa, um simples passeio numa rua da minha cidade ou uma viagem relâmpago ao Reino Unido, uma infinitude de caminhos e viagens ou, por fim, como escreve de forma certeira Ben Lerner (nota: senão leram ainda vão já a uma livraria pegar nesse assombro de livro que é 10:04) a minha casa é “an actual present alive with multiple futures”. E é isso. Só?