Saber dizer adeus

O autor sai de casa às quatro da tarde e está um tempo porreiro. Está também uma luz porreira, de final de dia. Parece, na óptica subjectiva do autor, uma luz de Verão. Mas é Inverno, e estes são os últimos dias de Inverno lisboeta que o autor vai viver este ano. Saboreando essa luminosidade, o autor segue o seu caminho urbano, igualmente porreiro. Ao passar na Rua da Bela Vista à Lapa repara na imagem em frente, da rua composta por uma estrada ladeada de prédios, avançando até ao fundo, quando depois do cruzamento se torna na Rua de S. Bernardo. Talvez seja da luz, mas o autor que passa pelo menos duas vezes por dia por esta rua todos acha-a mais engraçada hoje. É uma rua sem graça nenhuma, no resto dos dias, mas hoje a banalidade dá-lhe algum charme. Se calhar é do tempo, ou da luz. O autor já não pensa nisso quando entra no jardim, porque no jardim já está a ouvir as misturas do disco. O autor está a gostar, e muito, das misturas do disco. Tem pena que os seus édefones tenham um dinamismo algo chato que torna as guitarras um pouco estridentes. Mas fora isso o autor segue caminho com as canções nos ouvidos, à caça de um erro ou pormenor ao lado nas faixas. Até agora, até à canção três, tudo parece bem e maneiro. O autor entretanto caminha a passo médio, aproveitando a luz da tarde. Chegado ao outro jardim acaba por se sentar num banco perto do lago. Olha à volta e vê a seguinte imagem. Um casal, e três pessoas singulares, todos espalhados e sentados (excepto uma, que está deitada) perto da margem do lago, virados para o vidro do grande auditório. Atrás, no início da descida para a margem está uma árvore. Em frente está o céu, dourado pelo sol claro que se começa a preparar para desaparecer. Nenhum ouro fica, já dizia Robert Frost, mas enquanto dura é bonito.  O autor imagina um teledisco para a canção que toca agora, composta apenas de uma guitarra e voz, onde o autor repete no refrão a frase — e a verdade — “eu / não sei dizer adeus”. O teledisco é composto do seguinte cenário: um céu dourado com um lado por baixo, e uma série de pessoas sentadas ou deitadas na relva junto à margem. Algumas lêem, outras namoram, outras dormem, outras conversam. Outras estão, apenas, ali. A “câmera” vai se aproximando de cada pessoa, de cada gesto ou cara, por vezes de frente e por vezes por trás. E às vezes a imagem fica focada na placidez da água do lago. A canção continua a tocar até ao último acorde. O autor está a olhar para a água e por um segundo fica assim: parado a olhar para a água, sem mais nada na cabeça. Está, simplesmente. É uma sensação tão pacífica. Como no silêncio que se fez junto às pedras quando alguns patos começaram a descer para a água, alguns momentos depois. É bom ter essa liberdade, de fazer silêncio e deixarmo-nos estar nele. É mesmo bom. O autor aproveita e deita-se, enquanto nos édefones a sua própria voz lhe diz para olhar o céu. Em vez de obedecer a si mesmo repara nos patos que estão a ser alimentados por um casal de idosos. Os patos são bonitos, têm cores e bicos bonitos, e penas cuidadas. Até os patos neste jardim são bonitos, pensa o autor. Alguém deve tratar deles, alguém deve cuidar da sua estética e imagem. Deve ser importante ter patos bonitos neste jardim, para não descurar com o resto. O autor pensa depois o quanto gosta de jardins. É uma constatação recente, esse gosto. Pode ser da idade, pensa o autor. Se calhar está a amolecer. Ou se calhar não. Se calhar está só a saber, mas melhor. Mais tarde, já sem sol e com mais vento, o autor vai sair do jardim e voltar para o metropolitano e seguir. Vai ouvir as misturas mais uma vez, considerar mais uma vez que a faixa número cinco é a melhor música que alguma vez criou, vai comprar uma prenda de anos e depois vai voltar para casa. O autor hoje decidiu sair porque estava um dia de sol. O trabalho podia esperar e era bom despedir-se da cidade nestes dias de sol. É bom (pelo menos, tentar) saber dizer adeus, mesmo quando sabemos que voltamos. Porque nunca voltamos da mesma maneira que saímos, mesmo que no essencial estejamos intactos. É isso que pensa o autor, quando volta a abrir a porta, neste último dia de Janeiro.