Ir de viagem

Defini há muito tempo a partida como um ponto fixo no meu calendário existencial. Há um antes e haverá um depois. É difícil que assim não seja quando temos uma viagem ou um período longo fora de casa com regresso marcado. Há sempre um antes e um depois. Nunca sei bem o que será o segundo. Antes das viagens não sinto um entusiasmo ou ansiedade muito declarado, embora saiba que por dentro já tenho o foco no lugar. Quero lá chegar, abrir a porta da nova casa e instalar-me no novo quarto, com as malas no chão e o corpo na cama. Quando fechar os olhos concluo o trajecto de horas e quilómetros que fiz antes e quando acordar já começa tudo ao ritmo imprevisível da novidade do espaço e do tempo. E aí sei que os dias serão o que tiverem de ser. Há ideias, e há projectos — e há planos, alguns mais abertos e outros mais delineados. Veremos como sucedem. Não pensei muito neles nesta última semana, confesso. Aproveitei para dizer os até-jás, para comer o que não vou poder comer durante quatro meses, para estar com quem quero. Para passear onde não vou passear e para festejar o que não vou, pelo menos em pessoa, viver nestes tempos. Quatro meses é pouco dentro do grande esquema das coisas, mas se virmos bem estamos a falar de um terço do ano. Quando voltar será o fim da Primavera e já deverá haver sol e praia, e é a única coisa certa que sei. O resto nem suspeito. Vou de peito aberto e acho que é tudo o que basta. Apetece-me muito sair e estar longe, confesso. É uma óptima maneira para me (des)concentrar. As viagens são as melhores formas de nos tratarmos e mexermos por dentro, com a desculpa de ver coisas novas que nos tocam de alguma forma sublime mas profunda, provocando-nos interiormente  na nossa individualidade. Acho que o mundo é o melhor catalisador existencial que há. De que forma serei provocado, tentado, provado, tocado e sentido? Não sei. Nem faço a mínima ideia. Como no poema quase apostólico de Ruy Belo (adaptado à figura deste que vos escreve) “Está sereno” o viajante, que procura “pôr o rosto do senhor por trás das suas palavras / Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar.” E é isso, e apenas quero ir. O depois, logo se vê. Até já, pessoal. Vemo-nos no Verão.

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