A neve lá fora

A neve lá fora, trazida por tempestades nocturnas que enchem as ruas, as janelas e os tectos. A neve lá fora e a aumentar, caindo de forma pesada pela janela do meu quarto. A neve lá fora sobre os passeios largos, as placas verdes das ruas e avenidas cujos cruzamentos dariam bons títulos para contos, como State e Huron, Packard e Hoover, Oakland e Hill. A neve lá fora e as pessoas com casacos, gorros, luvas ou o que for com algum símbolo azul e / ou amarelo e aquele ‘M’ em toda a parte. A neve lá fora e a minha cara embrulhada no cachecol que a minha Mãe me fez, com as mãos para dentro do casaco como um hustler de filme em busca de sarilhos, aproveitando o frio na cara e os tesouros desta cidade catita. Não sei porquê lembro-me de uma fotografia icónica de James Dean enquanto ando, e à noite apercebo-me que é o aniversário do seu nascimento. A neve lá fora e um velho mas belo cinema com um organista a dar show antes da sessão começar. A neve lá fora e o meu corpo dentro de uma casa boa junto à rua, ou de uma sala de investigação incrível, dentro de uma faculdade de pedra com condições para lá de top, ou de um pequeno e quente quarto com uma cama alta. A neve lá fora e Ann Arbor com os seus cafés, restaurantes, cinemas e salas de concerto, as suas ruas e arcadas, as suas lojas e as suas pessoas, os seus bares e a sua cerveja, os seus ginásios e a sua universidade a receber-me abertamente, como se nunca daqui tivesse saído. A neve lá fora e o bom de tudo isto, da chegada a este pequeno paraíso académico numa América perdida e do conforto que imediatamente sinto. A neve lá fora e eu, cá dentro, a aquecer, sem entusiasmo nem passado, só com liberdade e presente. A neve lá fora e tudo o que precisei para “chegar” e assentar foi um gabinete, uma noite bem dormida, uma biblioteca cheia de livros, um passeio até ao supermercado cooperativo, uma ida ao cinema para ver a nova obra-prima de Agnès Varda (se têm um pingo de humanidade dentro de vocês por favor vão ver Visages Villages, um road movie incrível sobre arte, pessoas e vida), um quarto quente numa casa simpática e uma (lindíssima) canção de Stephen Malkmus. A neve lá fora e a mesma previsão para os dias que se seguem: trabalho, cinema, ginásio, e calor. Tenham um bom carnaval, que o meu será assim.