Romance académico, número dois

O investigador estrangeiro está sentado na sua secretária. É domingo e ele é uma das duas pessoas que se encontra na sala dos investigadores — a outra é um colega asiático, bastante calado e introvertido, que entra e sai do seu gabinete de doutorando de 20 minutos em 20 minutos. Os domingos à tarde, pensa o investigador, são bons para se estar na secretária, de pernas esticadas, a ler sobre temas interessantíssimos, como por exemplo, o carácter socio-político da união económica e monetária, ou as concepções macro-económicas por detrás do Tratado de Roma, e etc. Nisto entra uma terceira pessoa na sala. Trata-se da senhora da biblioteca. A senhora da biblioteca é uma senhora que, como o nome indica, trabalha na biblioteca da faculdade. Tem metade da altura do investigador, e um ar de avó “fixe”, com cabelo branco curto, ténis brancos de desporto, roupa de ginásio mas camisola de malha, óculos redondos e grandes e um ar de quem tem uma genica maior que muitos tipos com metade da sua idade. Parece, pensa o investigador, saída de um desenho animado subversivo, tipo Ricky e Morty ou Phineas e Ferb. A senhora da biblioteca vem entregar um livro requisitado pelo investigador. Talvez por ser domingo, ou por a senhora da biblioteca ser uma senhora da biblioteca — i.e. uma pessoa que tem um gosto (ou, para sermos honestos, uma necessidade) de falar para lá do normal — os dois metem conversa. Dentro da conversa vão parar ao assunto da fama. A senhora da biblioteca diz que gosta muito de ler sobre pessoas famosas, de saber as suas vidas. Fala disto como se fosse uma adolescente a confessar a sua primeira paixão, com um ar semi-envergonhado mas ao mesmo tempo muito entusiasmado. Diz que uma vez teve um aluno da faculdade a requisitar um livro, e ao ver o apelido reparou que era conhecido. Perguntou-lhe: “What is your connection to Kurt Vonnegut”? E o aluno respondeu que era neto. E sempre que o aluno vinha pedir um livro a senhora perguntava-lhe como estava o avô, se ele ainda escrevia, como era ser neto dele, e se podia pedir ao neto para pedir ao avô um autógrafo para ela. O investigador diverte-se a imaginar um neto de Kurt Vonnegut, na biblioteca da faculdade de direito da universidade do Michigan, a ter de lidar com uma bibliotecária da idade da sua Mãe e altamente chata, que lhe pergunta sempre sobre o avô. Será o neto de algum modo parecido com Billy Pilgrim, o grande anti-herói Vonnegutiano? O investigador ri-se ao pensar nisso, e a senhora da biblioteca ri-se de volta, ou por imitação ou por achar que o investigador se está a rir da sua história. No final, riem os dois, a senhora da biblioteca e o investigador. Depois dá-se aquele momento de silêncio embaraçoso, em que ambos têm de — e, no caso do investigador, querem — voltar ao trabalho. O investigador vira-se de novo para a secretária e abre o computador, enquanto a senhora da biblioteca vira-se para o corredor dos gabinetes dos doutorandos para ir entregar outro livro. E parece que sim, que a interação se fica por aqui, que foi isto, e so it goes. Mas a senhora da biblioteca vira-se de volta. O investigador percebe que ela vai voltar a falar e que o vai interromper. A senhora da biblioteca aproxima-se e o investigador pensa se deve ou não virar-se ou ficar simplesmente a olhar para o computador, dando a ideia de que precisa de trabalhar. A senhora da biblioteca pergunta: “You said you are from Portugal?”. Ao que o investigador se vira e responde: “Yes”. “From where in Portugal?” e o investigador responde: “I’m from Lisbon”. Ao que a senhora da biblioteca sorri. Sorri como quando falava da fama há pouco, e parecia uma miúda de quinze anos a contar um segredo, como que escondia cartas de amor na gaveta da secretária, ou revistas que os pais não lhe deixavam ler debaixo da cama. E antes que o investigador possa imaginar sequer o que é que aí vem — como, por exemplo, uma história de uma viagem a Lisboa, há anos atrás, quiçá durante o Estado Novo, um romance com um lisboeta da Madragoa num momento de intercâmbio universitário, imagens de praias, fado e boémia lusitana num Verão de esperanças quebradas e que agora existem como uma bonita nostalgia (claramente que o investigador quer estar a estudar a união económica e monetária, não acham?) — a senhora da biblioteca pergunta. “So”. O sorriso mais aberto, ainda mais adolescente. “How’s Madonna?”