Estes belos cinemas

Podemos criticar a América por muita coisa, mas este é o país do cinema, e em que o cinema é, para além de uma mera arte ou tradição, uma instituição cultural, venerada e venerável. Como canta o Guillul: “este velho cinema / é um lugar sagrado”. Não falo do star system e da fama (“how’s Madonna?”), mas da arte e do cuidado de ver e ir ao cinema. E isso topa-se pela qualidade de muitos pequenos cinemas de bairro, como o State e o Michigan Theater. São ambos geridos em conjunto e financiados pela comunidade local. O Michigan Theater é mais antigo, e parece um saloon do século passado, com muita elegância. O State é mais moderno, mas igualmente acolhedor. As cadeiras no State têm os nomes das pessoas de Ann Arbor que pagaram a renovação recente do cinema (por exemplo, quando fui ver o Ladybird reparei numa placa que me informava do seguinte: “you are in Don Evans’ seat”). No State há vendedores de bilhetes que comentam o filme com os espectadores antes de estes entrarem — “Ladybird? It’s awesome, and you’re gonna love it. / Shape of Water? It’s cool, I mean, I enjoyed it, but preferred Phantom Thread”. No Theater há uma bilheteira exterior dentro de uma cabine de vidro, à antiga, e um bar de pipocas com um balcão dourado. Em ambos há placas grandes e luminosas, com os nomes dos filmes em letra maiúscula. São uma grande atração urbana e central da cidade. Faz-me sentir tão bem, um cinéfilo inveterado ir a um sítio que cuida tanto de uma arte que lhe diz imenso. Seja pelas cadeiras mais que confortáveis (esqueçam as memórias do cinema Londres: this is the real deal), seja pelos improvisos de standards jazz que um organista toca para entreter aqueles que chegam mais cedo à sala, ou seja, simplesmente, pela programação: um misto impecável de filmes americanos de qualidade, estrangeiros com muito nível, ciclos de cinema antigo (decorre às segundas-feiras uma retrospectiva de filmes japoneses de samurais — que na realidade é uma retrospectiva de Akira Kurosawa disfarçada de retrospectiva de filmes japoneses de samurais) e experimental / alternativo (sem falar das matinés infantis ao fim-de-semana). Ou seja, há para todos os gostos e feitios. E é difícil, quando se está num sítio assim, que nos proporciona a melhor experiência de cinema — que é das melhores experiências que há neste mundo, ver um filme projectado numa sala escura juntamente com outras pessoas (“oh, what did the movies do to us?“) — não sentir o feitiço de forma mais acutilante. A verdade é essa: enfeitiço-me na sala e saio, ainda enfeitiçado, para a rua. E tudo à volta me parece balançado pelo ritmo do filme que acabei de ver. Num caso é a música de Johny Greenwood, pausada mas precisa, pautando a queda da neve e os movimentos em redor. Noutra é a música de Jon Brion que me marca o passo a caminho de casa. E noutra é ainda a bonita oldie de Alexander Desplat, cantada por Renée Fleming. Até o sino de Burton Tower que começa a tocar às nove horas da noite está em equilíbrio com as composições urbanas e existenciais em que me encontro. Por baixo das luzes dos cinemas sinto a calma de tudo. Poucas pessoas, poucos carros, muita ou nenhuma neve, muita lentidão e muito silêncio. Não sei se é do tempo, se é do filme, se é do sítio ou se é de mim. Mas é. E estou a descer a rua para casa e penso como esta cidade não mudou nada em seis anos, excepto pela loja de roupa feminina por onde passo (com cartazes de venda de biquinis para o spring break que se aproxima) que veio substituir o Five Guys aqui do sítio. Hambúrgueres por fatos de banho: é o que é. E o que é é que esta cidade continua confortável como tudo. Quando estive por cá há quase seis anos atrás achei que a América era igual aos filmes. É a terra dos filmes, e eles fazem parte dela. Não há como fugir, nem se quer. Belos cinemas, estes. E boa cidade, esta.

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