O terceiro domingo

É difícil resistir a um bom domingo. O corpo pesa contra a cama, e o calor do quarto diz-nos o que o nosso sentido de dever não quer ouvir, que é: estás bem onde estás. E estou, de facto. Os olhos demoram a abrir, as remelas são algumas. Os músculos estão moles e qualquer movimento é feito com o intuito inconsciente de encaixar naquilo a que os antigos chamam de “ronha”. Infelizmente para o meu desejo, a ronha é algo que naturalmente me dura pouco. Mas quando me ponho de pé está tudo com o ritmo de domingo, isto é, para lá de calmo. Ajuda não ter ninguém em casa, embora se estivesse alguém em casa das duas uma: ou estariam no quarto, ou não estariam em casa. E chego à cozinha e vem sol pelas janelas. Depois escurece — reparo que ainda há nuvens no céu. Oiço carros, o frigorífico, e pássaros que cantam. Sim, estão dois pássaros pequenos no front porch (podia escrever alpendre, é um facto, mas gosto tanto do nome em inglês, porque é uma realidade tão deliciosamente americana). Tomo o pequeno-almoço e saboreio com gosto este café da treta com um duas gotas de leite. Leio ainda a crónica semanal do João Gama e vejo qual o estado actual dos jogos de futebol que decorrem nas três da tarde do velho continente. E já sei que o dia se vai desenrolar ao ritmo desta serenidade ociosa. Gostava de fazer outras coisas mais sérias e devidas, como por exemplo ler, ou como se diz na minha profissão, “trabalhar”. Mas ontem cometi um erro crasso e hoje estou a sentir os efeitos. É que ontem trabalhei, e bem, e era sábado. E depois cheguei a casa e fiz algum exercício na sala (faltava-me um quarter para o cacifo do ginásio, e quem não tem cão caça com gato). E depois tomei banho e vesti-me como um estudante americano, com calções e t-shirt. E depois cozinhei algo rápido de preparar mas nutritivo para alimentar (desculpem pela rima). E depois sentei-me no sofá de casa. Erro um. Abri o computador e li umas coisas, escrevi outras, etc e tal. Planeei a semana como um rei. E depois — erro dois — fui fazer papas de aveia. Foi preciso vir para os EUA para começar a apreciar a comodidade de umas papas de aveia bem quentes, com bocados de compota ou fruta por cima. O terceiro erro foi fazer um chá — gengibre, topam? E tudo descambou no erro quarto e final. Qual foi, perguntam? Pois bem: ver um filme. Mas não um filme qualquer. Um grande filme. Mas um grande filme não porque me põe em questão, enquanto ser humano, perante os mistérios do mundo. Um grande filme porque é uma história rica e muito, mas muito bem contada, com complexidades humanas bem apresentadas, precisão narrativa “impec”, uma produção ímpar, uma realização ex-tra-or-di-ná-ria e, bem, e com Orson Welles a dar estilo. Falo do Terceiro Homem, de Carol Reed, um clássico noir de 1949 que me escapava há anos. Acabei rendido, e acabei na cama, confortável como tudo (as papas, o chá, o filme — vocês percebem, não percebem?). Não se pode fazer isto antes de um domingo, porque isso é pedir de forma irreversível que o domingo seja o que um domingo tem de ser: plácido, confortável, e vivido ao seu ritmo. E foi o que foi. Uma ida ao museu, concertos jazz no museu, escritas, muito sofá, mais chá, livros, mais filmes, futebol, oração, e é isso. Um domingo é o dia, no calendário existencial, de calma antes da tempestade, de descanso antes da competição, de reflexão perante a tribulação. O mundo nunca acaba aos domingos; é um dos poucos prazeres que temos garantido. Por isso, mais vale deixá-lo aproveitar-nos, e irmos na onda. Com o mesmo sorriso maroto wellesiano.

The Third Man courtesy of Studiocanal 08