Semana piloto

Estou deitado no sofá da sala. Há dois, mas este é sofá. Olho para o tecto, e depois olho em frente. Vejo a cozinha, enquadrada pela divisória estreita. É de noite e está escuro. Na cozinha só se vê a luz que entra pelas frechas dos estores, como nos filmes. O relógio do fogão dá as 10:57, em numerário digital de cor verde-clara. Estou a fazer tempo para ir dormir, ou simplesmente a chilar. Não leio nada, o computador já está desligado. Édefones? Nem vê-los, bem como o telefone. Estou entregue à noite, com ideias, pessoas e eventos, memórias, desejos e perguntas a passarem em loop na minha cabeça. Mas de forma algo zen, não sei explicar. Estou calmo, muito. E de repente, de um momento para o outro essa calma é absorvida e só se ouvem as teclas graves de um piano a criar uma imensidão de espaço e uma voz que canta. E sinto que estou no final de um episódio de uma série qualquer, daquelas que costumavam dar no início dos anos zero na HBO, tipo John From Cincinnati ou os Sopranos, em que o protagonista, existencialista por natureza, se encontra (tal como eu) desarmado perante o tempo e o espaço. E tudo à minha / sua volta fica iluminado por uma ténue luz no tecto e levemente azulado, como se tivesse sido aplicado um filtro cor de mar na realidade. E então ele levanta-se — na sua cabeça, ou na realidade, não sei, nunca dá para perceber bem na série (acho que esse é o truque) — e caminha lentamente pelo resto da casa. Pára e entra em cada divisão da casa, como se estivesse a assistir a uma peça de teatro imersivo no Júlio de Matos ou na Serra de Sintra (mas sem sustos), observando situações e pessoas da sua vida presente e passada e futura, mais duras ou mais felizes, enquanto as cores das paredes são muito mais vivas e as caras das pessoas nos eventos muito mais iluminadas. Toda a gente está elegante: as mulheres de vestido, saltos e maquilhagem, os homens de fato, camisa e gravata, todos altamente produzidos para aquele momento. Até o personagem está de fato e camisa branca, mas sem gravata, levando o casaco por uma mão e deixando a outra no bolso. E a música continua a tocar e não se ouve mais nada, seja barulho, ruído ou conversa. E o personagem como que navega por todos estes cenários e pessoas, algumas delas paradas como estátuas, outras a  sorrir ou rir, de forma leve, e outras a fazer gestos mundanos e simples, mas lentos e por vezes absurdos. Como estar sentado e mexer uma perna, ou ver um jogo de futebol em pé na televisão, ou observar a água de uma piscina, ou beber um copo de vinho por uma palhinha num balcão. E ninguém lhe liga meia, ninguém o vê, ninguém lhe toca. É como se ele fosse um fantasma ou um deus, omni-presente e perdido. E ele observa tudo, reconhece tudo, e aceita tudo, com um ar sério mas sereno. E os espectadores mais referenciados de todo este espetáculo rapidamente se apercebem das semelhanças com os sonhos de Dale Cooper em Twin Peaks, mas sem ser macabro ou confuso, só melancólico. E o existencialista depois de passar pelos quartos volta para o sofá — ou será que esteve sempre no sofá, como eu, enquanto a música tocava na minha cabeça? — e há um plano visto de cima do seu corpo deitado, vestido com calças de fato-treino escuras e uma t-shirt cinzenta. Tem barba grande e o cabelo escuro, a mão direita na barriga e a mão esquerda entre a cabeça e a almofada, e os olhos cara-a-cara com a câmera. E na série o episódio termina e fica escuro no exacto momento em que a canção acaba com aquela última nota de violoncelo. Ficamos com a cara do personagem a olhar para o tecto, naquilo que temos de interpretar como sendo a sua reacção ao que se passou. Na vida real, onde não há truques de montagem, continuo deitado, da forma descrita, e está escuro. E eu olho para o tecto e depois para a cozinha, e depois para os meus pés. Estou — estava, estive — entregue a uma semana americana de silêncio e solidão que, de forma pouco subtil, acabou de começar. Já estava a fazer falta.

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