Assim, e aqui

Reparo — não sei se pela idade, se pela vida — que sou cada vez mais capaz de me emocionar hoje em dia. Sou cada vez mais capaz, e sem vergonha de o admitir, de me desmanchar por completo quando estou perante uma verdade que me toca, puxando-me irremediavelmente para dentro de si e não me dando outra opção que não render-me à sua força e evidência. Quando falo de verdades falo de coisas sérias. Como, por exemplo, a canção Astronaut dos Beach House. Ou o belíssimo poema cinematográfico de Dziga Vertov. Ou um solo de Harpo Marx. Ou a cor vermelha da Ross Business School, em Hill St., Ann Arbor, quando são seis da tarde e cinco minutos de domingo, vista da janela da minha sala quando o sol está quase a ir-se embora. Ou o título Hanging a poem on a cherry tree de uma pintura de Ishikawa Toyonobu. Ou uma nova e bonita canção dos Yo La Tengo. Ou então — e principalmente — quando leio, sentado na minha cozinha em Hill St., Ann Arbor, o elogio que Ruy Belo escreveu para a sua mulher, Maria Teresa. Isto minutos depois de me ter emocionado ao ler o artigo em que Alexandra Lucas Coelho fala sobre a morte da mesma Maria Teresa. Sim, é verdade, sou cada vez mais capaz de me quebrar perante demonstrações de amor como estas, verdadeiramente complicadas e bonitas, que me tocam sem que eu possa perceber sequer porquê ao certo: porque é que soluço como uma criança, ou porque é que choro como se fosse uma montanha de fragilidade. Estou só sentado, numa cozinha em Hill St. (Ann Arbor) que já está a ficar escura devido à crescente falta de sol. E é ainda nesse sítio onde estou quando as lágrimas deixam de correr, e deixo a minha mão esquerda em cima da mesa e a direita em cima da perna respectiva. E olho — com um ar normal, mundano, rotineiro — em frente, para a orquídea que está em cima da mesa, para a pia com pratos por lavar, para a máquina que faz o café mais detestavelmente delicioso que provei. E depois olho para a janela e para os estores. Vejo uma almofada no alpendre e a estrada. Nada de carros. Estou aqui, estou assim. Um homem, e sentimental. E basta.