Um passeio por Oakland Av.

Resolvi ir a outro supermercado em vez do do costume. E assim saí de casa e virei para começar a descer Oakland Av.. As casas em Oakland Av. são do género da minha. Casas de madeira, com telhados bicudos (a maioria), janelas duplas e alpendres e varandas muito elegantes. Há muitas árvores e muitos pequenos jardins em redor das casas. Esses jardins e os passeios em redor estão pejados de folhas. As árvores estão nuas de inverno. Ainda se vê alguma neve, muito suja, nalgum ponto ou outro. Mas já derreteu quase tudo. O inverno está já no seu último mês, já em despedida. E eu avanço, olhando para os pequenos tesouros mundanos com que me cruzo. Vejo uma casa pintada em tons brancos, roxos e cores-de-rosa, como se fosse uma gigantesca casa de bonecas. Vejo, graças às portadas abertas, alguns interiores de casas, como cozinhas ou quartos, com bandeiras da universidade ou dos EUA na parede. Vejo uma impressão de papel do Justin Bieber circa a era do Baby com uma camisola da universidade. Vejo um tipo que circula pela estrada numa daquelas bicicletas ou triciclos (perdoem-me a falta de conhecimento técnico) em que se anda deitado. Dou uma saudação ao carteiro. E vejo — como não posso deixar de ver? — os nomes das ruas e avenidas e becos, sempre a falarem-me como se fossem personagens ou mundos imaginários, como Arch St., Tappan Av., Church St., East University Av., e etc. Vou ouvindo música da minha lista “AA best”. Trata-se de um pequeno compêndio de canções que vou juntando porque têm batido bem com estes dias cinzentos, estas casas de madeira, e esta América universitária e distante onde me encontro. Father John Misty está a deixar LA e está tudo certo em Oakland Av.. Da mesma forma que, quando esta acaba e viro necessariamente para South Forest Rd. só faz sentido ouvir Amy Annelle a cantar sobre pretty songs and pretty places. Não sei se “o Inverno no Leblon é quase glacial”, mas a verdade é que o Inverno de Adriana Calcanhotto combina bem com Roosevelt Avenue, assim como é “óbvio” que Jamie xx combina bem com Minerva Rd.. Quando chego a Burns Park, onde famílias jogam basebol ao fim-de-semana, toca Sportstar de (Sandy) Alex G e podia ser forçado, mas não, nada. E eu não paro, mas também nunca acelero. Vou vendo as casas e as arquitecturas e as portas e vou apreciando o vento que me bate contra a cara e todo este espaço, entre a fronteira da zona dos estudantes e a zona das famílias de Ann Arbor (facto para se saber a diferença: menos mesas para beer pong, mais cestos de basquete no quintal). O céu não abre, mas tudo bem. Ainda faltam uns bons minutos para chegar ao supermercado, mas ainda melhor. Continuo a andar, e as músicas a tocar, e vou vendo, somente. E escrevo na minha cabeça estes postais. Sabe bem.

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