A neve cá dentro

A neve cai lá fora, silenciosa e rápida. Chovia de manhã quando acordei — de repente, sem que desse por isso, começou a nevar. Ficou tudo branco numa questão de instantes. As casas, as ruas, os passeios, os carros. Tudo branco. Estou deitado no sofá da sala de casa. Não estou a fazer nada, não penso em nada. Não me sinto de forma especial, nem feliz nem triste, reflectivo ou aborrecido. Nem sequer é confortável o nome. Estou. Estou só à espera. Do quê, perguntam? Não sei bem nomear. Do tempo. Da hora. Da vontade, do desejo. De uma ideia, de um contacto, de uma pessoa. De um sentimento, de uma alegria. De uma dor. De uma verdade. Do amor. Sim. “Ainda espero o amor”, como um investigador, caído no sofá, espera o definhar de mais um dia. Primeiro acorda-se, e pensa-se e sente-se tudo. Tudo. Não me perguntem como é: é mais do que aquilo que quero falar. Porque de noite, quando me deito, não se pensa. Sente-se só o suficiente para saber alguma coisa sobre nós, os outros, e o que pode vir. É do tempo. E o tempo, agora, apenas dá, com certezas, para um dia de cada vez. E às vezes sim, admito, é difícil. Outras vezes é muito, mas mesmo muito difícil. Não é complicado; não vamos complicar as coisas. E outras vezes, para ser sincero, nem chega a ser assim tão chato. Mas quando olho para trás, para os dias que passaram, sinto que foram todos, de uma forma ou doutra, sempre bons. E cheios. Outras vezes é só bom estar em casa, entregue ao que houver. Não discuto o que fiz, o que me fizeram, ou os eventos e os sonhos e os anos que existiram para trás e até agora, porque a verdade é o que aconteceu, o que acontece e o que vai acontecer. Tem outra importância receber e aceitar as coisas desta forma, sabem? Mas hoje posso-vos confessar que sinto que vivi, e muito, durante esta semana que está a findar. Vivi tanto, sem fazer nada de extraordinário, nesta terra de árvores nevadas, universidades de topo e casas de madeira. E se por vezes escrevo muito e sobre as mesmas coisas, ou se me calo repentinamente durante dias, ou se me abro de forma bastante despojada, sendo descarado e entregando-me, a mim — ideias, vidas e sentimentos — a este aglomerado mais ou menos cuidado de palavras que escrevo, arriscando ir para lá daquilo que seja razoável dizer sobre a vida e os dias e o que sinto ou deixo de sentir… bem, que querem que faça? Sabem, o amor é o que eu quero. O que é, é o que eu quero. Uma entrega, forte porque verdadeiramente desejada. Frágil, porque humana. Mas dedicada, porque querida, e exigente porque só pode ser assim. Sim. “O amor é um cordeiro / que grita abraçado à minha canção”, acaba assim o poema. E eu continuo deitado no sofá, minutos depois disto tudo. Continuo assim, certo, e à espera. À espera de quê? Acho que do momento seguinte em que não vou estar assim como estou agora. À espera do segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano. Quando o momento chegar, chegou. Posso só garantir-vos que vou estar pronto para o receber. É o que sinto como sendo certo, aqui deitado. Isso e que esta foi uma óptima semana. Isso, e que a neve continua a cair lá fora — branca, fria e fresca. Isso, e que “Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar / caminha para o mar pelo verão”. E agora com licença, que vou de fim-de-semana. Até já.