Elogio de uma cidade amada

Sabem o que é uma casa vazia? É um quarto, carregado de sonhos e medos e oportunidades, mas maior. E sabem o que é uma cidade vazia? Pois bem, digo-vos que é como se fosse uma casa, mas um bocadinho maior ainda. Os ritmos e os espaços são todos eles nossos, e todos eles cheios. Oh Ann Arbor, que quem cá estuda te abandona, em busca do sol e do calor distantes. Mas eu não, eu fico. Eu fico e vivo como um dos teus, sem símbolos universitários à mostra, levando o éme da tua universidade só no nome, e apanhando de forma decidida com o vento que mandas para as nossas caras. Paro nas lojas de East Liberty e visito as tuas instituições com reverência, como o Crazy Jim’s Blimpy Burguer, os cinemas, os museus, os bares, o Blind Pig, o Ashley’s, e as ruas, todas as tuas ruas. E sei que um bom café não é no Comfort mas sim no Roos’ — damn fine good coffee — e que se queres pizza vais ao Bob’s e não à Domino’s. E sim, have a good one, eu tenho sempre uma good one por cá, sem excitação, só verdade. Sim, sim Ann Arbor, podem chamar-te “A2”, os estudantes e os passageiros, e acharem-se próximos, mas à merda com eles: quantos é que já te percorreram de manhã até à noite a pé, por todos os caminhos e trajectos, de Eisenhower até North Campus? Quantos é que deixaram quilómetros de sentimentos e pensamentos pelos teus passeios de pedra, admirando a tua subtileza e estética, e a calma elegância das tuas casas e lugares? E quantos é que voltaram para receber mais do mesmo? És um monumento de salvação existencial, és o melhor date que a América me podia dar. Porque voltei anos depois e recebeste-me como a um filho querido, porque estou cá e tratas-me como um dos teus, como um destes locals abertos e tolerantes, malucos mas dos bons, cheios de mundo e de histórias, que tal como eu ou os seus pais ou mulheres ou maridos vieram cá parar sabe-se lá como, e descobriram este tesouro. És pequena e és querida, mas tens em ti o tamanho das vidas, das dores e das alegrias que cada um carrega. E isso é imenso, acredita. És o local ideal para uma Quaresma segura, para um Inverno aquecido, para um aniversário longínquo, para um regresso cinematográfico, para um estudo de sonho e para um reabastecimento de power. Oh, Ann Arbor, tens nome de mulher, um nome bonito e simples, e mereces toda a dignidade e entrega que te possam oferecer. Dás-me qualidade e quantidade, de forma simples e humilde. Carregas-me de amor pelos dias, pela rotina, pela rua e pela casa. És uma rainha que embala para o desprendimento. A melhor banda sonora para caminhar é aqui, a música soa de outra forma porque é sempre certeira com o espaço, com o ritmo e com o sentimento, com estas casas de madeira e alpendres muy americanos, com estes campus de conhecimento inimagináveis, com esta comunidade tão boa e receptiva. Oh, Ann e Arbor, um porto sem “agá” e sem mar, mas com segurança suficiente para me sentir arriscado, exposto, descarado e forte, tentado pelas verdades simples e corajosas que são um filme bom, um livro bom, uma bela canção, uma loja boa, uma boa comida, um sofá bom, um dia bom. Oh, América, sê o que quiseres, que no teu melhor só poderás ser isto, um sonho de mundo chamado Ann Arbor, Michigan. E graças por isso, e pelos três meses que faltam. Que sejam o que quiseres dar. Porque eu sei o refrão de cor: com a medida com que medires, esta cidade medir-te-à.