Confissões de um sem-vergonha

Cuidado, se um dia quiseres ficar comigo. Não sou uma pessoa fácil. Tenho muitas manias estranhas e jeitos tresloucados. E o pior é que ainda não os conheço a todos. Vou descobrindo novos à medida que o tempo passa. E já se passaram trinta anos e uns quantos dias, e eles não deixam de aparecer. Posso dar-te um exemplo; por acaso descobri um recentemente. Acabei de me aperceber que sou um jardineiro terrível. É verdade, juro. Comecei a reparar que sempre que me meto numa casa acabo por semear ideias, sentimentos, paixões, medos, curiosidades e coisas do género. Passado um pouco começam a aparecer livros pela casa. Livros num canto, livros noutro. Livros na cozinha, livros na sala. Já existiam uns quantos antes, tipo três, sobre temas várias. Mas de repente, quando dou por ela, tenho já pequenas bibliotecas espalhadas pelas várias divisões comuns e pela minha própria. Não sei como o faço, mas acontece. Livros de Direito, livros de ficção científica, livros de ficção pós-moderna, livros de ficção clássica, livros de poesia, livros de exercício e nutrição. Sim, ri-te: também me rendi a esses. E sabes que mais? Leio-os a todos. É verdade. Vou pegando num e noutro, e lendo e passando de ficção para Direito, de Direito para poesia, de poesia para tecnologia, de tecnologia para ficção, de contos para romances e outros contos e outros romances. E nunca pára. Que queres que faça? Não resisto entrar numa livraria e ficar horas e horas por lá, olhando para as capas, para as páginas, para as descrições. Deixo-me seduzir por todos eles, ofereço-lhes a minha atenção e tempo, em troca dos mundos e reflexões que me podem dar. Por vezes é amor à primeira vista, e outras vezes é inesperado, e outras vezes há planos, e concretizam-se. Mas confesso que, no geral, é tudo muito impulsivo, como uma necessidade. Como hoje. Entrei na Literati. Sabes o que é a Literati? Acho que nunca te falei da Literati, portanto não deves saber. É uma livraria muito boa aqui de Ann Arbor. Decidi, depois do almoço, passar por lá para buscar dois livros. Ando já a ler três, fora os da tese. Já nem sei quantas vezes fui lá. Acabei por sair com três. Porque senti a conquista e o apelo. E sei que não foram os últimos. Para piorar — e para veres e saberes que tipo de louco sou — escrevo cadernos. Sim, cadernos. Não sabes o que são? São uns livros, com folhas em branco — isto é, sem nada escrito. E como tenho uma cabeça que não consegue parar quieta aproveito para escrever lá. Escrevo muita coisa, muita muita coisa. Gosto especialmente de cadernos japoneses, sabes? As capas são sóbrias e o papel robusto. Há uma elegância zen que é impecável. Agora também me apaixonei por uma caneta. Nunca me tinha acontecido; estás a ver, continuo a descobrir. É uma caneta bonita e elegante, bicuda, de tinta preta. Agora escrevo tudo com a caneta, no meu caderno japonês comprado (onde? Sim, na Literati). Apontamentos, notas, postais, contas. Tudo. Portanto atenção, cuidado. Se um dia quiseres ficar comigo, prepara-te. Porque vou trazer os livros que tenho, que são a soma de várias bibliotecas construídas ao longo dos anos, em quartos pequenos espalhados por Lisboa, Trento, Edimburgo, Bruxelas, e Ann Arbor (duas vezes). Há muitos que não li, mas que vou ler. Há muitos que me ofereceram, e que eu adoro. E há muitos que hão de vir. Adoro-os a todos. Todos. Porque permitem-me acreditar no mundo. Não sei explicar isto bem; a Ursula K. Le Guin explica-o muito melhor. E tinha de te dizer. Cuidado, atenção, que aqui está um leitor ávido, que leva sonhos, sentimentos, paixões e curiosidades, intenções e pancas, e livros, muitos livros para onde quer que vá. E faço-o sem vergonha. Sem um pingo de vergonha. Só para que saibas.