Cara companheira de silêncio

Era um dia de semana. O homem constatou, quando estava por casa a almoçar, que qualquer coisa tinha mudado, e de forma importante. Nada de novo lhe tinha acontecido, nada de antigo se tinha perdido. Mas ainda assim havia uma mudança. Estar ali, sentado, não era a mesma coisa que tinha sido ontem, ou há uma semana, ou há meses. Não era só um sentimento, parecia também uma certeza.

O homem não sabia a origem deste evento. Pensou se seria da oração, se seria do trabalho, se seria do dia. Pensou se seria da comida, e voltou a pensar na sua teoria de que a loiça nesta sua casa nunca estava totalmente bem limpa, pois tinha a impressão que a máquina de lavar não funcionava muito bem, e desde há uma semana que era preciso comprar esponjas novas para lavar a loiça na pia. Depois pensou se seria do tempo. Estava um bom dia de sol lá fora. Pensou também se seria do tempo per se. O tempo passa, a vida acontece, e de repente, pronto. Não sabia. Também não conseguia perceber a verdadeira extensão e força da mudança. Não sabia se era um facto invencível que tinha vindo para ficar. Mas também não sentia que se devesse preocupar. Sentia-o e aceitava-o. Achou, assim, que o que tinha de fazer era estar como estava. E acabar de comer. E comprar esponjas novas, quando saísse.

Quando acabou de comer arrumou a loiça e entrou no quarto e deitou-se na cama. Estava ligeiramente cansado. Tinha acordado muito cedo com o sol na cara. Ainda lá estavam no quarto os mesmos raios de luz madrugadores, caindo por cima dos lençóis cinzentos, criando uma série de riscas claras. As riscas caíam agora sobre o seu tronco e não sobre a cara. Respirou fundo e fechou os olhos. Não ouvia qualquer ruído ou barulho. Não adormeceu. Ficou apenas estendido, de pernas e braços abertos, por uma quantidade de tempo que não soube precisar. Depois abriu os olhos e levantou-se da cama e saiu do quarto.

Pegou na coleção de histórias de Lydia Davis que comprou na semana passada e sentou-se num dos sofás da sala a ler o micro-conto “Break it down”. Continuou sem ouvir ruídos ou barulhos de qualquer espécie durante os muitos minutos em que esteve a ler. Quando acabou o micro-conto, que achou arrebatador, fechou o livro e pousou-o em cima da mesa de vidro. Manteve-se sentado, as mãos caídas no meio das pernas. À sua frente estava a televisão e o frigorífico preto da sua primeira colega de casa. Ouviu quatro carros a passar pela estrada e lembrou-se que devia regar a orquídea, ou hoje ou amanhã.

De seguida levantou-se e vestiu o casaco e amarrou o cachecol à volta do pescoço. Bebeu um gole de água da sua garrafa metálica, cuja marca se chama “Contigo”. Pegou na mochila e saiu de casa para ir trabalhar. Pôs os óculos escuros na cara e as mãos nos bolsos. O sol continuava a brilhar. Estava um dia bonito, na rua.

Dias depois era domingo e o homem ainda estava assim, mudado. Mas teve um momento, ao final da tarde, que julgou ser uma recaída. Foi uma ligeira sensação do passado, enquanto escrevia uma apresentação académica que ficou de fazer nessa semana. Mas o impacto não foi o mesmo de outras vezes, e o homem percebeu que a mudança ainda estava lá. Atribuiu este regresso a uma possível falta de descanso. Tinha estado a deitar-se muito tarde nos últimos dias devido ao trabalho e a acordar muito cedo devido ao sol que lhe acertava em cheio na tromba. Decidiu que devia parar de trabalhar. Arrumou as coisas e foi para casa.

Deitou-se na cama e adormeceu. Quando acordou já era de noite. Tinha alguma baba na almofada e no canto esquerdo da boca, por cima da barba. Os riscos de luz continuavam a cair na cama, agora sobre o seu peito, embora já não fossem do sol, mas da noite.

Nesse momento, por nenhum motivo em especial, lembrou-se da história que o seu segundo colega de casa lhe contou durante o almoço. O colega, um francês, disse que depois de dois meses na América já não sabe falar francês, isto é, já não sabe dizer certas coisas em francês porque não se lembra das palavras, e como não é fluente em inglês não sabe dizer certas coisas em inglês, e por isso disse que agora está numa espécie de purgatório linguístico porque não consegue falar de forma completa em nenhuma das duas línguas, e disse que de certa maneira acha que isso é uma sensação estranha, como se por se esquecer de certas palavras se sentisse preso numa realidade específica que não conseguisse nomear, num limbo existencial tramado, embora entusiasmante ao mesmo tempo.

O homem não sabe porque é que se lembrou da história naquele momento. Olhou para o tecto e para a grande ventoinha escura que lá estava e pensou se tinha alguma coisa a ver com isso. Mas não, nada. Levantou-se, limpou a baba na cara na toalha de banho e foi jantar.

Depois do jantar fez um chá e sentou-se no outro sofá da sala e voltou a pegar no livro de Lydia Davis. Leu três micro-contos enquanto bebia o chá. O primeiro micro-conto, “The Mouse”, não lhe agradou. O segundo, “The Letter”, era muito bonito. Conta a história de uma mulher continuamente obcecada pelo final de um grande amor. Passam-se meses, um ano, e outros meses e ela não consegue ultrapassar a dor de não estar com o homem que ama. Até que um dia recebe inesperadamente uma carta desse homem que não consegue esquecer. A carta é um poema escrito em francês — a mulher é tradutora. A protagonista lê o poema e não consegue perceber qual o seu sentido, se é uma despedida definitiva, um pedido de regresso, um engano, ou apenas uma recordação querida sem qualquer consequência. Para tornar a confusão mais real e forte, a escritora Davis não nos dá o poema por inteiro, mas apenas a descrição da protagonista a ler o poema e a tentar traduzi-lo, explorando as dúvidas e os significados sobre certas palavras. O poema acaba com a expressão compagnon de silence. O homem gostou dessa expressão imediatamente e repetiu-a para si mesmo: “compagnon de silence” e depois traduziu-a para a sua língua. “Companheira de silêncio.”

Depois leu o terceiro micro-conto, intitulado “Extracts from a life”. Era menos convencional, e não lhe chamou muito a atenção. Expecto, contudo, pela seguinte frase, proferida pelo personagem principal, que neste caso era um violinista japonês, no fim da história. “Filled with the joy of love, I gave up sadness”. O homem gostou muito da expressão, e neste caso pegou na caneta e escreveu-a no seu caderno, que curiosamente também é japonês. Escreveu cada palavra de forma muito lenta, dentro da linha quadriculada da folha.

Quando acabou de escrever fechou o livro e ficou sentado. Olhou para a mesa da cozinha, com a orquídea em cima, e para a pia com a loiça lavada. Ouviu alguns carros, o ruído do frigorífico, a voz da terceira colega de casa a falar polaco ao telefone, os barulhos de uma música vinda do quarto do quinto colega de casa, e o som irritante do francês a roer as unhas no sofá ao lado. Mas estava tudo relativamente baixo e contido. O homem sentia-se, na prática, na “companhia do silêncio”. E era bom.

O tempo passava devagar. O homem cruzou a perna e deixou-se afundar no sofá. Pensou em dizer ao francês para parar de roer as unhas, mas depois não lhe apeteceu. Entretanto acabou o chá. Depois levantou-se e vestiu o casaco e amarrou o cachecol e bebeu um gole da Contigo® e pegou na mochila e saiu de casa. Pôs as mãos nos bolsos e baixou os olhos e começou a andar. Estava muito frio, mas tinha de ir trabalhar. Estava uma noite bonita, na rua.

Nessa noite o homem trabalhou bem, mesmo muito, muito bem. Começou a perceber que gostava muito de vir trabalhar à noite para esta sala, e que o tempo era muito produtivo. Começou a pensar se estaria a ficar noctívago. Entretanto ouvia música e escrevia o guião da apresentação de quinta-feira.

Uma estudante que estava sentada atrás de si levantou-se. O homem sentiu o cheiro do perfume e parou de escrever. Era um cheiro familiar e bonito. O homem esboçou um sorriso, não pela recordação da pessoa a quem o cheiro pertencia mas pelo reconhecimento per se do cheiro. Encostou-se para trás na sua cadeira e olhou para a sala de pedra, com os seus castiçais.

Nesse momento o homem ouviu Lucy Dacus cantar, de forma muito elegante, o refrão da canção “Night Shift”. “You got a nine to five, so I’ll take the night shift / And I’ll never see you again if I can help it / In five years I hope the songs feel like covers / Dedicated to new lovers”.

Depois desligou a música e voltou a abrir a apresentação e continuou a escrever, em silêncio. E ficou assim, até acabar o turno da noite. Arrumou as coisas e foi para casa. Estava cheio de fome.