Romance académico, número três

A vida de um investigador é feita de desejos, sonhos, frustrações, desilusões, e muita, muita luta. Nisso, é relativamente semelhante àquilo que é considerado, em jargão comum, como “uma vida normal” (apesar de qualquer ser humano que se preze, investigador ou não, saber que tal conceito é altamente controverso). No entanto, existe uma dimensão na vida de investigador que tem um peso um pouco maior do que na (alegada) vida normal. Não é a disciplina, não é de todo a rotina, nem é a concentração. É o ritual. Um investigador precisa de rituais: de coisas incontestáveis e seguras, livres das garras das considerações científicas que tudo questionam, e pelas quais, por defeito de profissão, ele tem de seguir.

O nosso investigador tem alguns rituais — podem chamar-lhe “manias”, é outro termo aceite na doutrina — e um dos que mais preza é o seguinte. De manhã, seja lá a que horas é que isso seja, ir tomar o pequeno-almoço, seja lá no que isso consistir, e ler, por esta ordem: notícias agregadas por uma aplicação agregadora de notícias, um jornal generalista português, um jornal desportivo português, um jornal desportivo espanhol, um jornal generalista inglês (e em particular a secção de desporto deste jornal generalista inglês) e um jornal generalista norte-americano. Chegado a este último elemento — por esta altura está somente com a sua meia-de-leite ao lado — trata de passar a fazer a derradeira tarefa que lhe resta antes de ir à vida: as palavras cruzadas diárias do dito jornal generalista norte-americano. E a partir daí o mundo ganha sentido. Sem café, o mundo acaba; sem palavras cruzadas, o mundo é um caos. É mais ou menos este o peso das prioridades deste indivíduo que vos descrevo. Mas as pessoas são estranhas.

O que se segue, após esta breve exposição, é uma descrição de um pequeno-almoço recente do investigador.

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O investigador está sentado na mesa preta da cozinha, à cabeceira. Está a comer granola com iogurte de uma taça, e tem uma chávena de água escura a fumegar com cinco gotas de leite lá dentro ao lado (segundo a doutrina norte-americana, isto chama-se “café”; segundo a doutrina europeia, isto chama-se “uma piada”; por fim, segundo a doutrina portuguesa, isto chama-se “uma violação dos direitos fundamentais mais básicos de qualquer ser humano” ou, simplesmente, “uma valente merda”). Está a ler as notícias no agregador de notícias. Parece ser um dia normal, como os outros.

Nisto, entra o colega de casa número dois (“o francês”).

F: Olá.

I: Olá.

F: Ouviste a sirene, ontem?

I: Aquele barulho às duas da manhã?

F: Sim.

I: Era uma sirene?

F: Parecia uma sirene que se ouve num porto, dos barcos.

I: Pois era. Mas não há barcos por cá.

F: Pois não. Não há barcos por cá.

I: Pois.

O francês dirige-se à banca e começa a tirar os instrumentos para fazer a sua panqueca de frutos vermelhos e banana, uma mistela qualquer ultra-nutritiva e que o investigador confessa que tem bastante bom aspecto. Enquanto lê uma notícia musical no agregador de notícias, o investigador pensa no som de ontem. Parecia, de facto, uma sirene de barco. Depois pára de ler e pensa: a cidade chama-se “Ann Arbor”; se tivesse um agá, Arbor (ou Harbor) significaria “porto”, em inglês. Acha a ideia engraçada, uma sirene de barcos numa terra com o nome de porto. E depois volta a ler as notícias.

Nisto, a colega de casa número um (“a remadora”) passa pela sala, diz um “Hi” com aquele tom altamente american-girl cá da terra, um tom que é altamente estridente e que requer pelo menos um minuto de recuperação após escuta, e segue para a saída de casa e diz, antes de sair, “Bye”, com o mesmo tom, e deixando outro minuto de recuperação a ser necessário.

Onde é que ele ia, o investigador? Quase a acabar as notícias da aplicação. Novidades da jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia, em que não parece haver nada de novo. O ruído do adeus da remadora ainda ecoa um pouco, mas nada que não passe. O francês entretanto está a cozinhar a panqueca e a mandar mensagens de voz em francês à amiga de uma italiana que mora no andar de cima, e que ele está de-ses-pe-ra-da-men-te a tentar conquistar. Sem sucesso, mas as mensagens são cómicas e expressam a falta de jeito para a sedução do rapaz (quem nunca…) e, com isso, distraem o investigador na realização do seu ritual. Ele apercebe-se da distração e respira fundo, come mais uma colher de granola, e volta a ler as notícias.

Nisto, entra o colega de casa número três (“o recruta”) na cozinha e senta-se ao pé do investigador. Está com ar de quem está ainda de ressaca da festa da sua “fraternity” do fim-de-semana passado. Ou é isso ou é só sono. Trocam os bons dias, mas o investigador não tira os olhos da aplicação. Tem de chegar às palavras-cruzadas. O recruta, que está sempre a piscar os olhos, como se lhe tivessem apontado uma lanterna à cara quando ele era miúdo e tenha ficado com o reflexo nas pálpebras para sempre, tira o telemóvel do bolso.

R: Acho que a minha ex-namorada me odeia.

I: (Olhando para o recruta) Achas que ela te odeia?

R: Iá. Não sei bem, mas acho que sim. Estou quase certo disso. Tipo, muito certo disso. Não totalmente, mas quase.

I: Odiar é uma cena tramada (o investigador é um coração sensível). Porque é que achas isso?

R: Uma amiga em comum mandou-me ontem uma mensagem que a minha ex enviou para um grupo de amigas quando uma delas lhe perguntou sobre mim.

I: Ok (o investigador não quer saber qual foi a mensagem. O investigador não quer mesmo saber qual foi a mensagem).

R: (o recruta passa o telefone) Lê a mensagem. O que é que achas?

I: Mostra (o investigador lê a mensagem. A mensagem diz: “o recruta? Não há muito a dizer. Ele é só o maior pedaço de lixo humano que existe, e para além disso é uma merda de pessoa. Nada mais”.) Pois. Não há muito a dizer.

R: Iá, pois. Acho que ela me odeia, mesmo. Mas pronto. É assim. É o que faz este grande país ser grande.

I: Não percebi (o investigador não percebe muitas vezes o recruta). O que é que faz este país ser grande?

R: (literalmente) “Freedom, man. That’s the shit. Freedom.”

O recruta levanta-se e pega no telefone e volta para o quarto. O investigador matuta por um segundo no que o recruta disse, e pensa se não será isso que faz este país onde ele se encontra ser uma grande loucura. Abana o pensamento e volta a olhar para as notícias.

Está no jornal generalista português, e continua tudo same old, same old na sua terra, tal como quando ele saiu. O francês, entretanto, está sentado na outra cabeceira, com a panqueca em frente, a ler um livro chamado “The subtle art of not giving a f*ck” e a fumar o seu estiloso cigarro eletrónico, que ao que parece se chama Jewel. O investigador sabe que há alguma coisa na imagem que soa a caricatura, mas não consegue perceber bem o que será. Nisto o francês pousa o livro, dá dois bafos e olha para a janela, com um olhar que se percebe distante, pensativo.

F: Hoje sinto-me niilista.

I: Acontece aos melhores.

F: Este livro que estou a ler pôs-me assim.

I: É o risco de ler livros.

F: Já alguma vez leste Nietzsche?

I: Tentei ler o Crepúsculo dos Ídolos em inglês, há alguns anos atrás. Cheguei a metade. Não me lembro muito bem.

F: Esse é dos fáceis. É bom esse.

I: Já leste mais dele.

F: Já li todos dele.

I: És fã.

F: Tenho sempre um livro dele por perto.

I: Porquê?

F: Nunca sei quando é que posso precisar.

I: Para as emergências. Tipo um kit primeiro-socorros. Pensos, comprimidos, e um niilismo de bolso.

F: Exactamente. Kit essencial. Não podes viver sem isso. Eu não posso, pelo menos.

I: Ok. Tipo chardonnay e batidos de proteína, bebidos à uma da manhã de forma intercalada?

F: Do género, sim.

Ontem, muito depois do jantar, quando o investigador estava no sofá a ler, o francês saiu de casa de propósito para ir comprar uma garrafa de chardonnay. Depois de beber dois copos foi à cozinha fazer um batido de proteína, e começou a beber, intercaladamente, o batido com o chardonnay. E agora diz esta do Nietzsche. O investigador pergunta-se a si mesmo se a tese que devia fazer, se o verdadeiro objecto de estudo que tinha encontrado nos USA não estaria neste momento a comer uma panqueca à sua frente, em vez de estar nos muitos manuais que tem no seu gabinete.

Entretanto, ouvia-se a voz do recruta vinda do quarto a dizer “Fuck, bitch, bastard, come on, fuck, bitch, bastard”. Ou estava a falar com a ex-namorada ou a jogar jogos de vídeo. O investigador achava que era o segundo.

Voltou para o ritual. Leu o jornal desportivo português, leu o jornal desportivo espanhol, foi para o jornal generalista inglês e estava a acabar a granola. Começou a sentir alguma ansiedade por fazer as palavras cruzadas. Estava a demorar a lá chegar. Sentia que o mundo se lhe estava a escapar das mãos. Primeiro a sirene, depois a liberdade, agora Nietzche e chardonnay. Precisava urgentemente de se concentrar na vida. Mas para isso, tinha de cumprir a ordem e chegar às palavras cruzadas.

Nisto aparecem a colega de casa número quatro (“a polaca”) e o seu engate singaporenho (hum, talvez… “o engate”?). Estão a discutir. O investigador não quer saber da discussão. O investigador não quer mais confusão. O investigador só quer fazer as palavras cruzadas. Mais nada. É um ritual, e é mais do que necessário. É exigido.

P: Estás completamente enganado. Estás com-ple-ta-men-te enganado. Pfff. Como é que podes achar isso?

E: Desculpa, mas é a verdade. Tens de admitir. Não pode ser de outra forma.

P: Estás parvo? (Olha para o investigador e para o francês, que continua a ler o livro e a pensar no infinito) Pessoal, Beyoncé ou Rihanna?

E: Rihanna, certo?

O investigador quer seguir o ritual. Acreditem, quer mesmo. Não há nada que ele mais queira e precise neste momento, juro pela minha alma. Mas ele é um homem sério, e com valores. E quando alguém diz uma barbaridade destas ele sente-se obrigado a responder, para repôr a verdade inabalável no mundo e o equilíbrio no universo. E ele responde. Levanta-se, e vira-se para o engate da outra, e diz-lhe, de forma organizada e coerente e assertiva, que a Rihanna é sua gémea, nasceu no mesmo dia e no mesmo ano, e tem grandes canções, claro, o Umbrella, Diamonds in the Sky, iá, até podem ser fixes, e parece ser uma rapariga simpática e interessante. Mas compará-la à Queen B? À cantora do Love on Top? Nem é preciso chamar o Singles Ladies para aqui, ou o Lemonade, ou o casamento com o Jay-Z ou qualquer outra coisa. Basta isto: Love-on-top. É que não dá para discutir, é um caso perdido, é uma afronta, é um erro, e o investigador não consegue não ficar a bater neste ponto até que ou o engate da outra concorde com ele, ou o esmurre, ou morra de cansaço, ou saia da cozinha. Que é, no fim de contas, o que a polaca o leva a fazer, voltando para o quarto, possivelmente para discutirem de forma mais acalorada um debate que nem sequer devia existir em primeiro lugar. Mas as pessoas são estranhas. Não é?

O investigador, neste momento, respira fundo. Está tenso. Está de pé. Olha para a mesa. A granola já acabou. Falta-lhe só o jornal norte-americano. Depois, as palavras. Cruzadas. E, depois, fica tudo bem. Aquela mistela escura ao lado já não está quente, mas tem cafeína e isso ajuda. Portanto ele move-se lentamente até ao seu lugar, sentando-se, respirando fundo como lhe ensinaram há muito tempo nas aulas de ióga, e procura voltar a tentar sentir-se parte de algo que é real e possível. Pronto. Leu o jornal. Agora as palavras. É só carregar no ecrã, e o mundo vai voltar a ser um lugar melhor. Tão difícil, e tão fácil ao mesmo tempo.

Nisto, o francês olha para ele e diz, no meio do vapor do jewel.

F: Sabes, estava aqui a pensar numa coisa engraçada. Aquela sirene de barco que tocou ontem? Pode até fazer sentido ter sido de um barco; afinal de contas, estamos em Ann “H”arbor! Ah ah ah ah ah! Não é divertido?