Morrer e voltar em Chicago – um relato de fim de semana

Se um dia quiserem morrer, recomendo vivamente que o vão fazer a Chicago. É um sítio muito agradável para o efeito, na minha opinião. Tem um estilo, figura e presença muito elegantes, com prédios altos de todos os feitios, com muito vidro, betão e aço. Very American, you see? Porque em Chicago estamos na capital do centro-oeste, e o centro-oeste e a sua malta são mesmo American-boa-onda. Como me disse um barman: “no este eles são presunçosos, e no oeste são somente estranhos”. Aqui são só fixes. A cidade é fixe, a comida é fixe, os museus são fixes. A cerveja é boa e anda-se bem e deve-se andar muito. Há bairros muito cool fora do centro, e tão ou mais América que o centro — ora small town style, como eu adoro; ora latino-américa, como eu não posso deixar de adorar. E acho que é uma opinião consensual esta, de que Chicago é uma bela cena, ou seja, acho que não é só uma ideia minha, de um solitário turista lusitano que vem morrer durante o fim-de-semana. Ná, perguntem a malta como o Ira Kaplan (por acaso, podia ter perguntado isso ao Ira Kaplan nos dois dedos de conversa que tivemos depois do show) que, juntamente com a Georgia Hubley e o James McNew pegou em mais dois amigos e tocaram uma versão arrasadora de não-sei-quantos-minutos-porque-quando-a-tua-banda-preferida-toca-a-tua-música-preferida-quem-é-que-no-seu-perfeito-juízo-está-preocupado-em-contar-a-porra-dos-minutos para fechar um belo gig e ainda voltou para saltar como um punk de quinze anos enquanto cantava que era um “prisioneiro do rock n’roll” (quem nunca?). Portanto, acho que isto é mesmo uma cena do Midwest, esta alegria genuína e esta confiança estilosa e amiga, este relax matreiro. Há profundidade, atente-se: as ruas dão-me isso através de um disco que é o disco que captura a cidade, e que é o Yankee Hotel Foxtrot dos Wilco (é a imagem da capa que influencia ou é a cidade que influencia a imagem da capa? Meninos, sintam apenas e não compliquem as coisas). Porque quer ande por Wabash ou Jackson ou Michigan ou North Milwaukee sinto-me isto: um American (um pouco menos aquarium drinker) que vai e segue assassin pela avenida. Quase que esta vibe me consegue transformar e converter num local. Comprar um cap dos Cubs, ir all the way americana, com uma camisa de flanela e mais um par de vans para a coleção. Mas eu sei que não sou daqui, e Moe Wagner, Jordan Poole e companhia fazem questão de me relembrar isso enquanto partem o couro aos jesuítas do Loyola College e me fazem temer pela vida (já morto e ainda a temer pela vida, can you dig it?) enquanto celebro cada ponto da final four num bar em zona inaciana — e que pela primeira vez na vida, e só hoje, é zona inimiga. A verdade é essa: posso gostar de ir ouvir os blues, de dar voltas no loop, de ir ao museu e meet the Hopper e os Pollocks e os Picassos e Matisses e Mirós e (bocejo…), de virar margaritas em Wicker Park, de explicar o que é o futebol — “conceito, ciência e arte” foi o título da minha apresentação improvisada com duas IPAS à frente — a um porto-riquenho tatuadão e de fazer amigos em lojas de discos que me vendem vinis de artistas electro-locais da boa. Mas sei que sou só um turista, um lisboeta chill, com o meu casaco de neve escuro e a minha camisola amarela, o cachecol tricotado pela mamã, uma pelugem facial e capilar considerável (pequeno fun-facto: reparei noutro dia ao espelho que estou com cerca de vinte e um cabelos e pêlos brancos and counting), umas calças de ganga e umas boas botas castanhas, com as mãos nos bolsos, uma cruz no coração, um mapinha no bolso e uma caneta na cabeça. Pelo menos foi assim que me vi reflectido naquele feijão turístico que existe no meio de Millenium Park. E reflectido ou não sei que posso “ter algumas reservas” sobre o mundo em geral e a vida em particular, mas not about you, not about you. Não, não sobre ti: como clarifica o Frankie Ocean na viagem de comboio de regresso, sob um glorioso sol de ressurreição: “I care for you still and I will (forever) / that was my part of the deal / honest, we got so familiar“. G’andas tempos, White Ferrari. E pronto, assim foi. Resumidamente, para aqueles que entraram agora na sala e viram o título: apanhei um comboio numa madrugada escura e nublada, com alguma chuva (podia dizer-se: uma chubita) e fiz quatro horas até Chicago para morrer, e em Chicago morri, e confesso que num sentido literal até estive perto disso por três vezes, graças a [a] um abusivo número de quilómetros percorridos; [b] YLT (<3) a partirem a loiça e todas as outras shits que existem no mundo; e [c] uma gulosa e claramente irresponsável tentativa de comer uma pequena (quatro fatias) deep dish pizza (esta última fez-me suspeitar que não ia sair do túmulo com Cristo; ele podia sair, mas o meu estômago ainda precisava de um quarto dia para voltar), mas no final voltei e estou vivo e saí domingo de madrugada com o céu limpo e o sol a nascer sobre o lago Michigan — eu sei, eu sei, é um clichê chegar do Michigan com chuva e partir para o Michigan com sol e acordar e sair do hostel e ver o sol a levantar-se por cima do lago Michigan… mas se foi um facto, qual é o stress, peeps? — e agora estou em casa. E ainda tenho mais dois mesinhos (uh-uh!) de América (o quê, ainda não leram?!) pela frente. Como acreditam os Hassidim, “Everything will be as it is now, just a little different”. Siga varrer o que resta?