Sobre uma pequena road trip

Ele perguntou-me se queria um jipe. Perguntei-lhe se era mais caro. Ele disse que não. Então disse-lhe que sim, que “of course I wanted a jeep”. E assim foi. Deu-me um Patriot cinzento, com matrícula da Flórida. Só reparei a meio, numa paragem numa estação de repouso na Pensilvânia para fotografar as árvores. Vieram-me à cabeça as “counterfeit Florida plates” que os Mountain Goats cantam em juventude transcendental, o disco. Para ser sincero, não sei se foi juventude o que senti quando me lancei pela estrada desta forma, com o sol ausente nos céus brancos do Michigan, para seguir entre as planíssimas planícies do Ohio que se estendem por uma eternidade arrepiante, e que presumo serem carregadas de silêncio (no regresso, em modo poético, pensei como o [Oh]io deve ser um longo suspiro, e ainda mais de noite). Não, não sei o que é que senti quando ouvi clássicos da minha juventude na rádio e procurei fazer o devido acompanhamento vocal, filmando até para uma efémera posterioridade — filmei uma viagem; como não tinha pensado nisto antes, que as melhores stories são necessariamente viagens? — com um café na mão numa curta paragem de reabastecimento alimentar. Ouvi muitas rádios, rádios cristãs (porra), rádios country (duplo porra) e rádios de anúncios. E quando me fartava desligava e ficava só com o motor e o vento e a estrada. E não sei — é mais isso, na realidade — nomear o que sentia aí, quando guiava por estradas pequenas, e passava small town atrás de small town no interior do norte do estado de Nova Iorque, casas brancas que parecem pré-fabricadas e frágeis, perdidas no meio de campos e montes e serras, com alguma neve e muitas garagens com outros jipes e muitas Igrejas. Vi árvores, também, completamente despidas, mas em menor quantidade do que na Pensilvânia, e sem o púrpura da Pensilvânia. E vi as cataratas, famosas, e o Canadá ao fundo. Já tinha chorado no dia anterior cataratas de risos com o humor inteligente e acutilante de Jerry Seinfeld, numa outra small town, Wiles-Barre, Pê-Á. Não sei nomear o que senti nessas small towns. Ao contrário de John Mellencamp que as canta de forma sentida, eu não sou de uma small town. E talvez por isso estas pequenas e simples realidades me fascinem. Como se estivessem mais perto de um coração selvagem que quero conhecer. Ou então não, não sei.  Sei que o céu na interstate 90 — onde, na saída 57a, vi uma placa que dizia “Angola / Eden” — abria e fechava e eu continuava a sentir, mas sem nomear, e continuava a conduzir, e a contar pequenas histórias nas paragens que fazia através de uma aplicação, histórias que registavam o momento e que sabia que depois iriam desaparecer, como um filme que vês uma vez e depois zum, nunca mais, jamais. Vi, passei e senti quilómetros, compostos por imagens e pensamentos e céus e carros e pessoas e emoções e, sei lá o que mais. Diners sérvios em Akron, Ó-Agá, com posters de atrações croatas com a legenda a indicar Jugoslávia? Diners de filme em Scranton Pê-Á, com pequenos-almoços com mais calorias e colesterol que o meu dia? Ou mensagens bonitas, de amigas e amigos, ou paisagens abertas, de serras e montes e árvores e rios e cataratas e lagos e planícies e quintas? Não sei, não sei mesmo. Senti, sei que sim, e quando cheguei a casa li um poema do meu novo poeta preferido, Russell Brakefield, que me dizia a dado momento “Know youth is finite”. Será? Ele — o senhor da empresa que me alugou o carro — perguntou-me se eu queria um jipe e a minha vontade, confesso, é dizer-lhe quando entregar o carro que o que quero mesmo é este jipe, sólido e fiável, e que quero embrulhá-lo e levá-lo comigo, para onde for, porque às vezes acho que o que sinto é que só preciso de uma casa, de um carro, de pessoas, de livros, de filmes, de canções e de uma estrada para viver — o wide open country world in my eyes que Bruce Springsteen canta em No Surrender. O resto, comes with the job. Ou pelo menos é o que dizem. Acho eu. Só conduzo, e escrevo, e rio-me, e aparvalho, e viajo. Só vivo. E como gosto disso.