Pela Estrada, Episódio 25: Meu Pai, meu deus

Meu Pai, meu deus

Estava há dois meses atrás a folhear uma edição da New Yorker quando me deparei com um artigo sobre Grant Wood, o autor de American Gothic, a propósito de uma retrospectiva da sua obra no museu Whitney em Nova Iorque. No artigo dizia que Wood tinha perdido o seu Pai aos dez anos, e que para o célebre pintor o Pai foi, ou era “more like a god than a father to me”.

Esta caracterização da sua relação com o seu Pai ressoou comigo de uma maneira muito forte porque captura, de uma certa forma, algo que eu também sinto e que nunca consegui muito bem nomear até hoje.

Tal como Wood, também perdi o meu Pai quando tinha dez anos. E o que sempre senti, mais do que uma perda, foi uma ausência. Perder alguém é uma coisa. Sentir a falta de alguém é outra. Sentir uma falta que não pode ser colmatada é uma dor terrível. Cria uma ansiedade e uma expectativa insaciáveis. A perda dói e aceita-se, com maior ou menor dificuldade. A ausência é mais complicada de lidar, porque é complicada de suprir — em especial quando essa ausência é definitiva e deixou um espaço grande que nem sequer pode ser preenchido.

Eu não deixei só de ter Pai aos dez anos. Deixei de ter aquele Pai. Francisco Lucas Pires, o académico original, o homem cheio de, como anos mais tarde me disse um outro querido Francisco, muita “bonomia”, um político dedicado e um homem cheio de mundo, verdade, coragem, e amor. Continuei a ter mundo, força, verdade e a ter muito amor — tenho uma Mãe e irmãos que merecem todos os céus e mais alguns, ao contrário de mim — mas não o tive a ele. Tive as histórias, dos meus familiares; tive outras de amigos seus ou de desconhecidos. Recebi sempre sorrisos ou afirmações sobre ele que senti serem justas e honestas, mesmo de pessoas que discordavam das suas ideias e convicções. Tive os textos académicos e políticos, que continuam a surpreender-me a mim, um académico de meia-tigela, com ideias que estão ainda tão actualizadas e com tanto rasgo e sentido, tanto risco e profundidade (e tão acertados, especialmente hoje, diga-se de passagem) que me tiram do sério. Tive as fotografias, as imagens do jovem estudante e professor, muito “coimbrão”, a viajar por esse mundo com um ar curioso e levemente desajeitado (trago sempre as suas fotografias do Japão comigo quando viajo; sinto-me bem em tê-lo assim ao lado, dessa maneira muito especial).

As memórias que se têm aos dez anos são complicadas de manter. Algumas continuam, outras aparecem de forma surpreendente. Quando vejo o meu irmão Simão a falar com os filhos lembro-me imediatamente — pela voz, pelo jeito? — da maneira do Pai Chico brincar comigo e com o mesmo Simão, dos abraços e da forma como a barba raspava na minha cara. Lembro-me do sorriso, e de viagens de carro, e dele levar aquele chapéu meio Indiana Jones e os óculos escuros (trago igualmente sempre esse chapéu comigo quando vou para fora, a ver se o espírito de aventura nunca me deixa, nem a sua presença.)

O que nunca me esqueço é do sorriso. Um sorriso confiante, bondoso, divertido, mas sábio. Penso muito nesse sorriso quando estou em baixo, com dúvidas. Ou quando estou contente, mesmo muito contente. Gostava de ter esse sorriso ao lado, de lhe poder perguntar coisas, de ouvir os seus conselhos, receber os seus “carolos” (como ser humano, e jurista, e tipo armado ao criativo creio que teria muitos, mesmo muitos para receber) e poder partilhar com ele o que vivo, o que sinto, por onde viajo e o que vejo, quem conheço, e quem amo.

Às vezes perguntam-me se escolhi Direito, e se gosto de Direito Público, e se fui fazer o doutoramento em Direito Europeu como forma de “seguir as suas pisadas”. A verdade é que não, a sério. Nunca me imaginei seriamente como advogado ou professor, e quando comecei a aceitar o que era nunca imaginei que o pudesse conseguir fazer e gostar. Mas há coisas que são mais fortes que nós, e quando olho para trás e vejo onde estou não posso deixar de sorrir com isso. Sinto-me mais próximo dele assim, admito. Sinto igualmente uma exigência tripla em fazer as coisas. Mas ao mesmo tempo, sinto uma certeza e com essa — acreditem ou não — um humor muito próprio para lidar com isto. E é uma coisa boa.

Pode ser estranho dizer que o meu Pai é mais um deus do que um Pai para mim. Mas creio que a melhor maneira de explicar como lido com a ausência é exactamente através dessa caracterização. É transformar uma ausência numa presença, e não numa presença qualquer: numa presença que está, efectivamente, em todos os momentos que vivemos. Uma meta, um guia, um amigo, um conselheiro. Um Pai.

O meu Pai morreu há vinte anos mas continuo a sentir a sua presença e a procurá-la sempre que posso. Não é fácil viver com uma ausência, não é fácil lidar com ela, e não sei até que ponto em termos de personalidade (acho que em muitos) sou moldado pela mesma. Mas vive-se, aceitando a mesma, não numa memória morta mas num presente vivo, e numa promessa de futuro, de respeito e de legado que se quer sempre em movimento.

Hoje marcam-se os vinte anos do falecimento do meu Pai, Francisco Lucas Pires. Existem muitas pessoas bastante capazes para vos falar da sua obra, do seu impacto político, académico e social, do seu sorriso, da sua bonomia. A única coisa de que posso falar é de quanto eu o sinto hoje, de quanto o gostava de o sentir, de quanto o procuro, e do quanto tento continuar o seu legado, mesmo com dificuldades: o legado de viver de forma séria e justa, com simpatia e abertura, com crítica e tolerância, conhecimento e busca, amor e verdade, e — nunca é demais referir — humor e serenidade, e o quanto julgo que esse legado deve ser prosseguido, em público e em privado.

A ausência tirou-me a oportunidade de usar o seu nome, de o chamar durante o dia, e durante a vida. É difícil não poder usar o nome pai. Mas às vezes, especialmente de noite, quando me lembro dele, digo o nome baixinho. “Pai, pai.” Emociono-me imediatamente, e aperto as mãos com força, como se o estivesse a abraçar e a agarrar. Gostava muito de lhe poder dar um abraço nesses momentos.

Gostava de ser muitas coisas, mas o que mais gostava era de ser pelo menos um décimo do que o meu Pai era enquanto pessoa. Vou tentando, procurando tê-lo a meu lado, uma ausência que dói, mas que na sua presença me motiva e me faz crescer. Passaram-se vinte anos e estou numa estrada norte-americana, a conduzir um carro com o seu chapéu na cabeça e a sua fotografia japonesa ao lado. E segue-se. Sempre com um sorriso no horizonte.

Um grande, grande abraço, Pai, Mãe, Jota, Rafa e Simas.