Sobre um encontro fortuito com José Tolentino Mendonça no Jardim da Estrela

Estava a subir a Avenida Álvares Cabral. Tinha uma mochila às costas e alguns metros (talvez dois, ou até três quilómetros) nas pernas, frutos de um “pequeno” passeio até à Avenida de Roma para ver o meu melhor amigo, a sua mulher, e o meu afilhado — que, já agora, é seu filho. Pelo caminho tinha encontrado o meu irmão Simão no trânsito, tinha lanchado numa Padaria Portuguesa no Monumental, e tinha reparado como alguns prédios no caminho já estavam recuperados, ou então em obras, ou então iguais ao que estavam quando me fui, há quatro meses atrás, somente. No caminho de regresso virei na Barbosa do Bocage, reparei que a Pastelaria Namur está com um décor mais chique que antigamente, e enquanto subia a Defensores de Chaves reparei numa mulher, de gabardine bege e calças escuras, com sabrinas pretas e cabelo preso, e pensei que podia ser a minha amiga Maria Ana, cujos pais moravam na Elias Garcia, ali ao lado. Avancei levemente para lhe pregar um susto, mas apercebi-me — e a tempo — que a mulher era uma desconhecida. A minha amiga Maria Ana (de casaco preto, calças vermelhas, cabelo preso e sabrinas pretas) acabaria por se cruzar comigo uns metros mais à frente — true story — e acompanhei-a a casa, agora sua casa e do seu marido e dos seus dois filhos. Talvez vá lá jantar amanhã. Mas isto tudo começa depois, muito depois, depois dos muitos metros feitos a pé sob um céu meio cinzento, que ainda assim não impediu os muitos yuppies do Saldanha de irem tomar copos a esplanadas, como se estivéssemos em Junho e o Verão estivesse à porta, né? (lol). Começa muito depois daquele cruzamento com um sócio de mercado de capitais da sociedade de advogados PLMJ, ou pelo menos com um tipo muito semelhante a este sócio, perto da entrada da Feira do Livro no Marquês de Pombal, enquanto pensava aluadamente sobre tanta coisa e sobre os livros que tenho de ir lá comprar antes daquilo fechar. Same old story, os livros e eu, falhar descontos e eu, mas tudo isto começa de outra forma. Começa comigo a subir a Álvares Cabral, de mochila às costas — acho que já disse isso — e a virar para a rotunda do Pedro Nunes, e a entrar no jardim da Estrela, e a olhar para a direita e ver a figura dele, um bocadinho mais cheia do que da última vez que nos vimos, mas não muito, de fato sem gravata, mãos nos bolsos, como se fosse um qualquer trabalhador do mundo, mas não, era ele, e avancei para o cumprimentar, igualando a lentidão do seu passo, e acho que ele demorou a reconhecer-me quando se apercebeu da minha aproximação, mas eu percebo, já não tenho barba, e o cabelo está muito, muito grande. Ele já me viu assim, muitas vezes, há anos atrás, quando eu era mais adolescente do que sou hoje em dia. Agora apanhou-me, e abraçámo-nos. Falámos intimamente, como dois bons amigos, e confessei-lhe o meu estado de espírito. Porque está a ser difícil regressar de um sítio onde se viveu muito, e se calhar é sempre difícil chegar e recomeçar, re-engatar a máquina e o movimento dos dias, dos desafios, das viagens (que continuam, os três, a ser muitos). E é difícil ser eu, ponto. Disse-lhe: é difícil ser eu, mas acho que já aprendi a viver assim. Talvez tenha, sinto que é verdade. Porque sinto, no fundo no fundo, uma paz e aceitação pelo que é, mesmo que à superfície ainda apareça alguma ansiedade afectiva. Porque, é assim, não é? Disse-lhe: estava a subir a Álvares Cabral e sabes no que estava a pensar? Estava a pensar na frase que um amigo meu, o Quica, que tu também conheces, diz muito, que é: Love is a long road, ou “o amor é uma estrada longa”. E o Tolentino acenou e disse que era verdade, que a frase era verdade. Eu também acho que sim, que é. Depois eu disse mais umas coisas, e o Tolentino outras, como “os milagres acontecem”, ou “é preciso confiar”, e eu confio, até demais, e depois ele pegou-me nas mãos e apertou-mas, e depois despedimo-nos, serenamente, cada um virando-se de costas para o outro e distanciando-se. Estava, antes de o encontrar, a ouvir na minha cabeça a canção “No banco de trás do carro”, que é a versão que fiz da canção “Drunk Drivers / Killer Whales” dos Car Seat Headrest, que estava a passar nos meus édefones. E depois de o encontrar voltei a pôr a canção a tocar, enquanto saía do jardim e pensava no quão grande o meu afilhado está, nos livros que tenho de comprar na feira do livro, no postal que vou escrever quando chegar a casa chamado “Sobre um encontro com José Tolentino Mendonça”. Penso em chegadas, penso em canções, penso em trabalhos e projectos, e sinto-me consolado. Não sei se ele fez qualquer coisa quando me apertou as mãos, ou se simplesmente aconteceu, mas sinto-me. Filmo no telemóvel uma imagem do rio Tejo, ao longe, visto do cimo de uma rua na Lapa. E depois paro a música que toca, chamado “At your best (you are love)” do Frank Ocean (na realidade, é uma versão do Frank Ocean de uma canção da Aaliyah), e fico a pensar, porque fico sempre a pensar, e depois ponho o telefone no bolso e vou para casa. Estou com fome, e apetece-me beber um copo de tinto, antes de começar a escrever. E é isso.