They call it “June” around here

Costumavam chamar-lhe Junho, a este período de trinta dias, que corridos equivalem à definição legal da categoria temporal “mês”. E parece que é em Junho que estou, quer dizer, que estamos — perdão —, pelo menos do ponto de vista legal, e temporal. Talvez não tanto do ponto de vista sentimental ou existencial, tal o caudal cinzento que se alastra pelo céu, pela água miúda e chata que cai do céu, tal como tenho oportunidade de sentir, em primeira mão, ao sair de casa. É quarta-feira e confesso que alguma da ressaca de chegada já parece estar a passar, e sinto uma vontade repentina de passar por “sítios antigos”, que é a definição legal de “sítios por onde costumava passar” ou “sítios por onde passei, durante muito tempo, de forma repetida e regular”. E então aproveito estar de caminho e passo pelas Flores, e pela outra casa, a outra casa que por fora ainda parece como dantes, como a casa antiga, mas sem garagem, e que tem umas manchas de cores na parede da frente. Admito que o exercício cromático possa ser um ensaio, mas é um ensaio tão neutro que, tal como o tempo no céu, só pede melancolia. Eu até gosto de cores cinzentas, não me levem a mal, mas aquela rua minúscula precisava de mais cor, não de menos. Mas que devo eu a esta rua, hoje em dia. Niente, parti. E antes de partir de volta para o caminho toco na parede exterior, não por melancolia, mas não sei porquê, por saudade? Talvez saudade seja melancolia, ou talvez não, nada a ver. Não interessa, não penso nisso quando subo a Travessa do Jasmim, que está na mesma, com o mesmo cheiro a cócó de cão. Tal como a outra Travessa, a de S. Pedro, que continua a cheirar a mijo (este cem por cento origem humana) como a amiga Sousa faz e bem notar. A amiga Sousa, com quem fui dar um cheirinho aos arraiais, neste caso o de Santa Catarina. Foi um bom balanço: das quatro sardinhas comidas só uma é que estava totalmente seca, e o pimento da salada sabia impec (que não preciso de dar a definição legal, acho eu). A dupla que animava o arraial, os G-Sport (como é que dois adultos chegam à ideia de nomear um duo de karaoke de festivais como “G-Sport”? Se calhar não quero fazer essa pergunta, ou quero?) deram bailarico, deram kizomba, deram hard-rock, deram  brasileirada, deram Xutos, e a amiga Sousa fez-me pensar, graças a uma conversa, sobre o Purple Rain do Prince, de como o Purple Rain do Prince é, para além de uma grande canção, qualquer coisa que podia ter outro significado, na minha vida. E não sei do que foi, se da segunda corrida semanal que mandei antes de sair de casa para o caminho, se do humor e amizade da amiga Sousa, se dos copos, se das sardinhas ou do arraial, se ou de tudo junto e mais alguma coisa, mas na quinta-feira acordo bem, e estou bem, sinto-me bem. Acordo e penso em coisas boas, bonitas, românticas, provavelmente muito difíceis, mas boas, e passo o dia bem, a chilar e estar bem, e reparo que faz uma semana que voltei dos USA, e estou nice, e preguiço um pouco e almoço um prato daqueles de meter o coninhas saudável do meu amigo francês Mathis Batoul cheio de fome, que é: massa integral, frango grelhado, bróculos, azeite, e um copo de tinto (tuga, não vá o francês puxar dos galões). E ouço discos, como o último da Courtney Barnett que é “muita” bom, e tem uma música me’mo fixe chamada City Looks Pretty. E Lisboa, apesar de cinzenta, looks very pretty, as always, e talvez até tenha sido bom chegar com tempo cinzento, para acalmar, não me armar aos cucos, precisava de paz e sossego para não me entusiasmar logo. Como agora, enquanto escrevo isto, depois de ter ido jantar a casa da minha amiga Maria Ana (escreves, acontece) e depois de ter ido à apresentação do novo livro do Jacinto, A Gargalhada de Augusto Reis, um livro que vocês deviam ler, não só porque o Jacinto é um grande escritor, não obstante o facto de ser também meu irmão, mas porque este livro é especialmente fixe. Digo-o porque comecei a ler no metro, quando ia para o jantar — eu, no metro, com calças de ganga e sapatos escuros, casaco de chuva de plástico Decathlon azul-forte, chapéu de cowboy “bought in New Orleans” e a ler JLP — e estou a gostar muito, tanto que acho que vou gravar uma leitura do capítulo dois, porque o capítulo dois está mesmo espetacular, a escrita, a voz, os acontecimentos. Escreves, acontece? A sério, deviam ler o livro, não só porque este tipo, actualmente a terminar a fase “menino da Lapa” e prestes a ir para a fase “ermita minhoto” antes de ficar em definitivo (até ver) como “cowboy do Chiado” vos diz que é fixe, mas porque ameaça provocar-vos coisas. E livros que nos provocam coisas devem ser lidos. A mim provocou-me, e enquanto voltava para casa, com as mãos nos bolsos do meu casaco preto de motoqueiro japonês, pensava na liberdade de podermos dizer o que sentimos, na dificuldade de tentarmos expressar o que vemos, e no descaramento de, com algum humor, vivermos como achamos bem. Está chuva, e frio, a definição legal de “um tempo de merda”, mas pelo menos vai-se sentindo, aos poucos, um ritmo. Não sei qual o ritmo, mas é um, e basta. Ontem quando vinha do arraial pensava nisso, que é preciso só um ritmo. E hoje, depois de almoço pensava: mas e se não sentes a falta, e tu sim? E agora ainda não pensei em nada, mas sabem que mais? Acho que é deixar o ritmo seguir, seguir, seguir. E agora vou dormir. Inté.