Postal do Beiral

Fui fechar as caves. Eram vinte e uma e trinta e quatro quando olhei para o relógio. O céu estava  azul claro-morno. À minha frente, do outro lado do muro, estavam os montes. O monte da direita era uma sombra escura com uma ligeira luz laranja no topo. O monte da frente, mais distante, estava igualmente escuro, mas mais ainda, devido a um rasgo vermelho de céu que lhe cobria a fronte. As árvores no cume pareciam esculturas de papel, desenhos soltos deixados por algum criativo engenhoso. Fico parado a olhar para tudo isto. Depois olho para o verde que está à minha volta, e deito-me em cima de uma das mesas de madeira que estão na relva do jardim. Fico deitado a olhar para o céu. Reparo que este tem umas manchas muito ligeiras que o esbatem, aqui e ali. Vejo uma estrela mesmo em frente, a começar a arrebitar. Passa um avião muito ao longe, na vertical, e eu olho para o lado porque ouvi um pássaro a bicar na pedra da porta. Quando me volto a virar para o céu o avião está agora na horizontal (é o mesmo? pode ser outro?). Tomo nota dos ruídos. Grilos, um que deve estar mesmo por baixo da minha mesa. Rãs a coaxar (não é tão fixe, a palavra “coaxar”?), cães a ladrar ao fundo. Alguns, poucos motores — um carro, talvez dois, e uma famel. Olho para o monte da esquerda, escuríssimo, com as luzes das casas acesas. Pequenos pontos laranja, como se fossem pirilampos. Toca o sino da Igreja, a dar as vinte e uma e quarenta e cinco. Noto que está tudo ligeiramente mais escuro — o vermelho, o azul, os montes — mas ainda bom, ainda bonito. Lembro-me da primeira linha de um poema de e.e. cummings: somewhere I have never travelled,gladly beyond / any experience,your eyes have their silence. Depois levanto-me, e vou para dentro. Está a começar a ficar frio, e sinto uma ligeira impressão na lombar esquerda. Va savoir.