Apanhados soltos

O céu solarengo nublado da semana. O cinzento-leve celeste visto de uma janela na Palma de Cima. A maresia do rio contra a cara numa corrida matinal de domingo. A descoberta de um grupo de dança de bossa nova no coreto da Estrela, pela noite. A contemplação das árvores e plantas do jardim da Estrela e do seu movimento contra o vento, enquanto sentado num banco junto a um candeeiro, por duas noites. O reflexo da luz de uma lua cheia em cheio no Tejo escuro, visto do cimo da S. João da Mata, perto das meias-noites deste mundo. Um romance de Dino Buzzati, um pequeno tratado de Jean-Pierre Gueullette, uma tese de Francisco Lucas Pires, um ensaio de Umberto Eco, cento e poucos exames para corrigir, um sem-fim de textos blockchain-cripto-tech-cenas para ler. Um artigo da New Yorker sobre como calcular níveis de dor. A despedida de Andrés Iniesta, a ascensão de Kylian Mbappé. Um disco de Caroline Says, uma canção nova dos Reis da República. Um poema de Ruy Belo, decorado entre lavagens de dentes e bochechares de elixir dentário com sabor a menta. Uma estrutura de tese, um artigo sobre competências europeias, uma taça de papas de aveia com frutos secos e frutos vermelhos de manhã para acompanhar as notícias. Um pôr-do-sol no campus de Campolide, um passeio pelo Rossio, cerca de seis páginas por semana de notas quotidianas escritas no caderno de notas. Uma aula de ióga ao final do dia, um descafeinado por dia antes de dormir. Vinte minutos em silêncio, sentado na cama, de olhos fechados, antes de dormir. Um livro de contratos comerciais. Uma orquídea roxa a florir: três, quatro flores. Uma canção da Kacey Musgraves na cabeça, uma tradução irrisória de “Don’t you know / You’re my golden hour” para “Sabes lá / como és a minha hora d’ouro”. Um carro encomendado, um bailarico de santos na mouraria, um jantar de ensopado de borrego cozido em lume brando por horas a fio até a carne sair dos ossos com uma ternura impecável. Um, dois, três, tantos artigos do Rogério Casanova sobre o mundial da Rússia. Uma, duas, três séries de exercícios por dia. O sol a bater no pátio interior da casa, junto ao quarto. A chuva a bater no pátio interior da casa, junto ao quarto. Uma ideia para um conto em que Giovanni Drogo, personagem principal do Deserto dos Tártaros, vai ao jardim da Estrela passear e lê um livro, chamado o Deserto dos Tártaros, que é sobre um jurista chamado Martinho Pires que vai para uma fortaleza nos confins do seu país, junto a um deserto branco. Uma ideia para um outro conto em que uma rapariga, que é consultora jurídica numa grande empresa está a correr ao Domingo de manhã junto ao rio e a ouvir música enquanto passa pelos pescadores e pensa em dizer “Então, o peixe morde ou quê?” mas depois não diz nada porque não lhe apetece. Os livros em cima da mesa do escritório, as folhas amarelas cheias de notas, técnicas ou ideológicas ou criativas mas sempre soltas. O caderno de notas e a agenda, sempre lado a lado, qual romance de Verão. As flores / folhas / frutos (escolher o correcto termo biológico e riscar os errados) amarelas/os que caem das árvores em Santos, junto ao Teatro da Barraca. Um pensamento sobre pensar para dentro, pensar a escrever, não pensar e apenas “viver”, e mais uma nota para o caderno de notas. A frase de Jacinto Lucas Pires a sugerir aos escritores para serem rigorosamente descarados. Os filmes do Tarkovsky em fila na estante. A falta que na realidade acho que não faz falta — ou faz? — de ter e usar óculos. O discurso dado de forma algo paternalista a um jovem amigo sobre escrever e o problema de escrever por sentir e de escrever por pensar e se é possível escrever sem sentir ou sem pensar, e depois numa segunda-feira de manhã enquanto se escreve um artigo académico aproveitam-se quinze, vinte minutos para escrever um postal chamado “Apanhados soltos” porque, olha, sei lá. A meia-de-leite do bar do edifício da biblioteca da Católica versus a meia-de-leite caseira com um novo tipo de cápsula Nespresso (a primeira, completamente). O estudo nocturno de um artigo na Wired sobre uma empresa de blockchain (com notas) e o estudo nocturno (sem notas) do guia do Boom Festival edição 2018. E o silêncio. Tanto, muito, silêncio. Fim.