Composição: uma corrida no jardim da Estrela

Na minha vida real estou a entrar no jardim, seis horas e quatro minutos da manhã, para começar a correr. Na minha cabeça de ontem à noite estou já no jardim, e é mais tarde do que manhã, mas não quero quantificar o tempo. Estou a andar pelo corredor onde se encontra a estátua do Actor Taborda (com “a” maiúsculo, s’il vous plaît: respect the artist), a mesma onde ao Domingo costumam montar uma mini-feira de produtos e objectos artesanais que não têm ponta de interesse. Estou com um casaco leve, aberto no peito, e o céu está cinzento-claro. As árvores altas por cima, o meu corpo a andar por baixo, muito lentamente, tudo muito expectante. Na vida real estou a correr a cinco-ponto-vinte minutos por quilómetro, culpa de uma canção dos Rolling Blackout Coastal Fever que me vai puxando o ânimo. Olho, nas duas vidas, para os dois lados, para os bancos de jardim, para as plantas, para o lago à esquerda, para as flores púrpuras que estão caídas no chão. Na vida real encontro um homem sentado num banco a ler, já na subida à direita, onde imagino que malta “da pesada” ou jovens namoradeiros se escondem durante o dia para se divertirem. Na vida imaginada chego à estátua do Actor, ao quiosque-biblioteca dos cotas, e aos bancos onde me sentava (dependendo de estarem ou não livres) para ler durante o Verão do ano passado. Ou ler, ou rezar, ou sonhar, ou sentir: é possível fazer tanta coisa num jardim durante o Verão. E durante o resto do ano também. Aposto que as árvores à esquerda, para lá do Coreto, estão completamente molhadas e vermelhas. Tal como naquele dia de fim de Outono cinzento-chuva em que entrei no jardim por cima, depois de almoçar peixe em Campo de Ourique, e me deixei cair num banco húmido e chorei que nem uma madalena porque a vida, a vida, sei lá, a vida é mesmo assim (por vezes, bué aguada). A vida que seguiu e agora segue, e neste momento está ao ritmo de uma malha das Haim, e apesar de algumas nuvens no céu o sol vai-se mostrando, e apesar da chuvinha tola (uns minizinssímos respigos) que me cai na cara enquanto passo por um cartaz com informações sobre a Menopausa (“uma mudança positiva” é o que diz o primeiro sub-título da exposição) sinto algum calor, e na vida imaginada estou ali, à minha actual direita. Não, não aí no lago dos patos com cabeças vermelhas que me fazem lembrar perus (patos-perus: tremo só de pensar em tamanha mutação aviária), mas sim na zona da relva onde está a estátua de João de Deus. Estou aí, de pé, e não há ninguém no jardim inteiro. Não há outros corredores, grupos de exercício urbano-out-cenas a armar aos cucos e a esforçarem-se para arfar um pouco, senhoras e senhores a passear, sozinhos ou com cães, fotógrafos de plantas e turistas matutinos, nada. Nem sequer os yogis estrangeiros de final da tarde ou os velhos dos restelo da hora de almoço, ou os dançarinos nocturnos ou domingueiros – estas são duas espécies diferentes, pois dançam duas cenas diferentes: uns uma cena qualquer americana cujo nome me disseram mas eu esqueci (shame) e outra que suponho ser chorinho – nada. Só estou eu, de casaco aberto, camisa cinzenta, calças escuras (não sei porquê) e óculos escuros (também não sei porquê), de pé, no meio do parque. E deixo-me cair na relva, e fico deitado, sentindo muito bem a terra ligeiramente molhada debaixo das pernas e das mãos e do cabelo. E até pode haver um cão, um rafeiro branco e castanho, que salte por todo o lado em liberdade mas não ladre, que não me chateie enquanto estou deitado, um cão a quem, caso me apetecesse falar-lhe, possa chamar “Jorge”, ou “Weiler” (se tivesse um cão chamá-lo-ia “Jorge” ou “Weiler”; mais uma vez, peço-vos: ask no questions, because je sais pas, vraiment). E estou assim, só, deitado no jardim da Estrela, sob um céu cinzento-claro, em silêncio enquanto um cão solto corre à minha volta. Na vida real estou a seis minutos e poucos segundos de acabar os quarenta minutos de corrida devidos à vida, e passo por um cartaz com informações quanto à Dieta Mediterrânea, e depois pela estátua de Antero de Quental, e penso que um putativo grande nome para um rapper português pausado seria Antero do Quental. E depois estou a pensar no que já andava a pensar ontem e no dia anterior, que é que vou ter saudades disto: de viver ao pé do jardim da Estrela, de poder passar pelo jardim da Estrela pelo menos duas vezes ao dia. Porque no outro dia lembrei-me, enquanto voltava para casa, do quanto gosto de passar por aqui, e depois lembrei-me que falta pouco (mas ainda falta um quito) para deixar de ter de passar por aqui para ir para quase todo o lado. Não que esteja emocionado ou melancólico ou algo do género, mas fiquei a pensar: estou em despedida. E essa constatação faz com que estes pequenos momentos idiossincráticos, como o sejam uma corrida matinal ou um passeio de fim-de-semana, ou um pensamento imaginado parvo ou uma mera e necessária saída de casa se tornem, por momentos, em possíveis pequenos tesouros. Vivi muito no jardim da Estrela no último ano e meio, sem ter noção – antes de viver aqui perto e enquanto vivia aqui perto – que este sítio era do caraças. E agora ele sabe-me a casa. Posso despedir-me bem, aproveitando os momentos que restam. E isso é do caraças, não acham? Quer na vida imaginária, onde já não estou (o silêncio, o silêncio já me trouxe de volta à terra), quer na real, sete-ponto-oitenta-e-dois quilómetros depois de ter chegado à entrada do parque. Olho para a direita e está um “patão” – que é o termo científico e não-latino utilizado para designar um pato mesmo grande e assustador (podem chécar nas enciclopédias, really) – em cima da cerca do parque infantil a olhar-me de volta. E eu vou para a esquerda e ele vai para a direita, e pronto. Vou para casa, e depois passar por aqui para ir para o trabalho, e ouvir um grande disco de Snail Mail enquanto escrevo umas palavrinhas pequenas sobre o jardim que (olha!) são estas. Enfim. À bien tôt folks, see you já.