Diário de tese, uma possível introdução

É Verão e o doutorando vai de mota pela noite. Voltou a andar de mota, o que lhe dá uma óptima sensação de leveza. Acha que é um prazer muito veranil, andar de mota de noite em Julho por Lisboa. O casaco aberto, o vento na cara, a forma como a estrada e ele parecem estar mais perto, a cidade e ele numa osmose de movimento e luz. O prazer é tal que o doutorando se vê inclinado a cantar, seguindo a dica do seu shuffle mental. Canta, contra todas as hipóteses possíveis de bom gosto, o refrão da canção “Louco por ti” de João Pedro Pais — que vai da seguinte forma, para que não haja dúvidas na vossa doutrina: “Fico louco, tão louco, louco por ti / Fico louco, tão louco, fora de mim”. Canta em voz alta, sem grande vergonha perante transeuntes surpreendidos, enquanto percorre a Avenida Cinco de Outubro e mais tarde a Avenida de Roma. Quando pára nos semáforos cala-se, criando oportunidades para considerações interiores mais amplas sobre o tempo, o espaço, e a vida. Pensa, por exemplo, que se o nome “João Pedro Pais” não fosse já a identidade pessoal-artística do músico português João Pedro Pais, então podia ser — na óptica do doutorando — um óptimo cognome para um artista português de sofisticada comédia existencial, na estepe de Father John Misty. João Pedro Pais, Father John Misty, há qualquer coisa ali a ligar, o Father no início e o Pais no fim, não sei. Quero dizer, o doutorando não sabe (desculpem, às vezes esqueço-me de que sou só o narrador desta história). Mas fica a pensar naquilo, enquanto pára a mota. Porque a noite para as motas acaba a dado momento, e depois só resta caminhar. O doutorando gosta de caminhar, e de caminhar muito. Coisa natural, pois diz-se que o doutoramento é uma espécie de maratona, nos livros de auto-ajuda que não nos recomendam antes de nos metermos a fazer uma loucura destas (cof cof: que não lhes recomendam — aos doutorandos — quando iniciam o processo de investigação). E então se se pode falar e caminhar ao mesmo tempo, é pá, su-pim-pa. A relação entre um conceito e o outro (é o “falar” que motiva o “andar” ou vice-versa) não deixa de ser interessante do ponto de vista dogmático, mas é no fundo uma querela inútil de se ter neste dia, nesta noite. Caminha-se e fala-se, basta, e bem. Da Mouraria até à Baixa, passando pela beira-rio e outras avenidas e ruas da chamada zona antiga-central de Lisboa. Ouve-se muita coisa, diz-se muita coisa; pode se afirmar que o conceito teórico de conversa ocorreu empiricamente, de forma completa, livre, leve, e solta (em homenagem a clássicos modernos da pop portuguesa, na minha opinião melhores que as canções de JPP). E a dado momento o doutorando — bem interpelado, nesse dado momento — falou sobre andar de mota, de como bastou acelerar de mota pela Rua das Trinas acima para a ideia “Diário de tese” aparecer-lhe na cabeça enquanto desculpa para poder, por uma questão de necessidade (argumento racional), vontade (argumento emotivo) ou sentimento (argumento central) escrever. O doutorando abordou um bocadinho nessa interpelação a ideia de liberdade, de que o doutoramento é uma aprendizagem de controlo e exercício de liberdade, não tanto intelectual mas sobretudo pessoal, porque pede um compromisso entre o autor, o estudo e o ser que é exigente. Mas não vos vou maçar com isso. O que gostava de deixar aqui escrito sobre este doutorando é que ao voltar para casa, com uma ligeira impressão nos pés e nas pernas por tanto caminhar, sentiu-se leve, tal como quando estava a andar de mota, ou a caminhar perto do Museu do Fado, e a ouvir e a falar. Leve e livre, no melhor sentido das palavras. Se calhar é isto a idade, a aprendizagem, o processo de doutoramento, sabe-se lá. Estar ocupado, e muito, e ter de usar muito tempo para essa ocupação, mas ter a capacidade de, entre espaços e tempos (e.g. viagens, caminhos) poder estar “tranquilio”, a curtir os fixes e os flying saucers in the sky que lhe aparecem nos dias. E ao entrar em casa, cinco e muitos da matina, já a sentir que vai estar dentro de horas o que na jurisprudência mundana se define como um “g’anda dia de praia”, vira-se para trás, para a rua, e faz uma ligeira vénia, não para ninguém em especial, mas sim para vós que o acompanham, por amizade, curiosidade, ou o que for, deixando assim a introdução possível a este período que agora (bem, se quisermos ser mesmo mesmo precisos, não é bem “agora”, porque hoje há outras coisas para fazer, mas mais “amanhã”) se iniciou. Um diário de “tese”, da que interessa à vida: a atenção e sensação do que se passa nos espaços desocupados. Bem vindos ao Verão, peeps. See you soon.