Diário de tese: prep-week

Penso a seguinte coisa, enquanto vou entregar um livro à biblioteca da universidade — pequeno aparte: é impressionante como um simples acto de entrega de uma edição do Anuário de Direito de S. Tomé e Princípe de 2016/2017 na biblioteca desta universidade se pode tornar num evento cuja caracterização balança entre um episódio da Twilight Zone e um sketch do Gato Fedorento, tal o surreal absurdo da burocracia existente — e vejo uma rapariga com três pássaros pequenos tatuados nas costas, por cima da omoplata direita: porque é que há tanta gente com tatuagens de pássaros a voar nas costas? E depois lembro-me no domingo, de estar sentado no domingo a aproveitar o pátio, a escrever uma nota qualquer e levantar-me, e nesse momento passar-me em frente aos olhos uma pequena pena cinzenta, que cai em cima do meu caderno de notas, e de ter olhado para o céu mas pássaros nem vê-los, apenas o céu azul, as folhas das árvores com o sol em cima. Havia uma canção da Sidney Gish na cabeça, acho que o Sophisticated Space, apesar da canção para o dia (welcome back, Plácidos Domingos) ter sido o single brutal da Snail Mail, Pristine. Pus as duas na lista — na realidade, pus o Pristine e o Good Magicians da Gish — para correr, o que devido a um fim-de-semana de noitadas (“boas” noitadas, atenção, tirando a de domingo, causada pelo tríptico calor/sede/ melga no quarto) só se deu na segunda-feira, final do dia. Segunda-feira, final do dia, um dia quente, não sei se se recordam bem, e eu estava a correr junto ao rio, e a ver a quantidade de gente que anda junto ao rio àquela hora, corredores e turistas, e tirei duas fotografias mentais. A primeira foi dos pescadores junto às instalações do Clube Naval, com um BMW vermelho descapotável, circa anos oitenta, num estado impecável, com uma caixa de iscos no banco de trás. Estilo e classe para o peixe morder, topam? A segunda foi a de uma mulher, turista, vestida com um macacão cor-de-rosa de calções curtos, sem omoplatas à mostra e portanto sem tatuagens de pássaros que se vissem, a pousar junto ao Padrão dos Descobrimentos para uma fotografia tirada por uma amiga com o telemóvel. A cara da modelo olhava para o chão, com um ligeiro sorriso, o pé direito à frente do esquerdo, e as mãos caídas junto às ancas, e pensei no que é que ela quereria transmitir com aquilo, que imagem sua ela quereria passar, ou então que imagem passava (pareceu-me falsa, mas que sei eu sobre o mundo e as pessoas enquanto estou a correr a cinco-ponto-dezanove minutos por quilómetro, ao final da tarde de segunda-feira?). Pensei na pose, no verso da canção do Destroyer que diz que “uma pose é sempre vazia / uma pose nunca é vazia”, e depois na frase de Kafka que me enviaram de manhã, “para o dia”: all language is but a poor translation. Fiquei a pensar, fiquei a pensar. Pensei também, em casa, que se há algum canal de televisão que se devia valorizar pela consistência da qualidade da sua programação, então esse canal é a RTP 2. Isto é serviço público, percebem? Onde, neste nosso belo país mas que é tão medíocre em tanta coisa, é que se tem um programa com a Maria João Seixas e o José Pedro Serra a entrevistar o Vasco Vieira de Almeida (que é daqueles tipos, a par do Miguel Galvão Telles, do João Nuno Azevedo Neves e do António Serra Lopes, que para além de advogados são senhores como já não se fazem hoje em dia) sobre Roma, o império Romano, e o tipo a dar uma aula incrível e super-interessante e com graça que eu desejava que tivesse sido a minha cadeira de História de Direito Romano na faculdade, uma cadeira que até o meu avô João, que eu amo e admiro mais do que todos os senhores juntos, disse, no leito da morte, que era uma seca pegada? Onde, querem me dizer? Pois. Não há. O que há é um carro novo, que pifou antes de sair do stand (true story), mas que depois ficou bom e pôde andar, e com isso volta a existir uma nova relação de vida, porque a estrada volta a fazer parte do movimento — e vocês sabem como eu gosto da estrada, e do movimento. Agora já posso fugir, já me posso retirar para o deserto, onde segundo a profecia de Oseias (2.16.17b-18.21-22), posso ser conduzido e “falado ao coração”. Mas primeiro, vou acabar a orientação do capítulo, preparar bem os artigos que faltam ler, continuar a amar cada dia que vem com o seu devido peso e medida. Porque todos os dias são dias, embora sexta seja mais “the day” porque os “the great” Yo La Tengo vêm à cidade dar-nos vida (Yo La Tengo no NOS Alive a dar-nos vida, get the lol, do you?). Sim, pensei, enquanto ouvia no final da corrida o Today is the Day versão EP, versão sempre a abrir (que tocaram em Chicago este ano, e eu feliz, eu tão feliz), horas a seguir a ter ouvido na sala de trabalho da faculdade, depois do episódio kafkaesco da biblioteca, o Today is the Day versão disco, versão balanço bom (que ouvi num nevão em Edimburgo e me fez feliz, fez-me tão feliz), que esta semana pode ser um bom mix de trabalho (necessário), encontros (devidos), festa (essencial) e despedida (verdade), antes do deserto. A cada um o seu. A mim, agora, chama-me uma terça-feira. Over e out.