O centenário de Ingmar Bergman

Se tivesses de enumerar os momentos da tua curta vida em que achas que foi  possível teres não só sentido mas, principalmente, reconhecido, o privilégio, a dor, ou a disponibilidade da existência de Deus, serias capaz de nomear, assim de repente, eventos tão difíceis e aleatórios como, por exemplo, o final da tarde num campo de férias, no verão, algures no interior do teu país, num sítio cheio de árvores, água e pó, ou então o sorriso amigo, ou apaixonado, que te ofereceram de forma corajosa, leve e imprevisível, numa manhã ou tarde qualquer, de outono ou primavera, um sorriso que existia e era verdade para lá de qualquer coisa que pensasses ter feito ou pudesses dizer e (ou) fazer naquele momento, ou, ainda, uma viagem de carro nocturna pela marginal de Lisboa, com a janela aberta e o rádio desligado, as luzes dos candeeiros ligadas lá fora, alguma brisa na cara e no braço esquerdo, como se abraçasses a noite, como naqueles abraços íntimos que deste ao adormecer, encaixado noutro corpo, de mãos juntas e pernas entrecruzadas, numa violenta sensação de paz, parecida com o que sentiste em passeios pela baixa de Hiroshima num Novembro longínquo, ou numa viagem de mota por Roma num Julho próximo, ou numa tarde de Junho recente enquanto estavas sentado num banco no jardim da Estrela, calado, imóvel perante o silêncio do mundo, tal e qual como num daqueles filmes sérios que vias, feitos de imagens, palavras, caras e pessoas, bonitas e brutas, frágeis e divinas, simples e fundas, mas ultimamente boas, sempre boas, apesar dos gritos, das dores, do profundo e desesperado amor que tinham para dar, um filme que, sem dares por ela, enquanto estavas sentado num sofá confortável de um lugar ao qual um dia tiveste de chamar “casa”, abriu-te o coração até onde tu não sabias que ele conseguia ir, deixando-te abalado e confuso, mas não perdido, não complicado, apenas em busca de uma palavra que fosse justa o suficiente para agradeceres, em silêncio, de noite no teu quarto pequeno com janelas grandes, com o teu corpo, um amontoado de substâncias efémeras e bio-degradáveis, como carne e ossos e pêlo, completamente despido, numa postura muito direita, muito recta, com as mãos caídas para a frente, perante a terrível serenidade que se faz ao final do dia, seja isso de noite ou de madrugada, quando se pode sentir um fim e verdade, e te aperceberes do sonho real que é a vida que tens, que tiveste e que desejas, de qual é a tua esperança e de qual deve ser a tua espera, e de como fechas os olhos e te decides novamente entregar, em mais um dia, com toda a força de quem realmente és, a um pequeno jardim que cultivas cá dentro, “como o cipreste verdejante”, e sabendo que quando abrires os olhos e te fores deitar é provável que esteja tudo na mesma, o teu corpo, o teu quarto, a noite, os teus pés no tapete, aquela sensação de mimadice pessoal escondida nalgum canto do teu peito, mas com uma pequena e essencial diferença, que foi o teu esforço, mais um dia de esforço, e podes ou não sorrir, e podes ou não ignorar, mas não podes não saber que isso, que isto, é bom. É mesmo, mesmo bom.