Summer sol

A posição estável da nuvem branca localizada a bombordo da nave que é a minha secretária, estacionada sob o céu azul, circundada de pássaros (andorinhas?) em vôo plano. A explicação do meu sobrinho Estêvão sobre o nome do personagem “Professor Girassol” (“Ele chama-se Girassol porque a sua vida é alegre, ‘tá cheia de sol”). Os variados padrões azulados e roxos (fúcsias, lilases, púrpuras) das hortênsias do campo grande. O barulho do rio Lima junto à eco-via, a liberdade de uma corrida sem música. Um parágrafo ou página de Clarice Lispector entre estudos, na sala da torre. As “alucinações” da vida lidas com um sorriso na sala de estar. Um disco dos Parquet Courts cheio de ginga, um disco dos Arctic Monkeys cheio de estilo, e um filme dos irmãos Marx cheio de vida. Um cocktail literário falhado, uma boa tarde nublada. O silêncio que, como escreve Lóri (escreve para ela própria, ou escreve para Ulisses, ou escreve para o mundo?) é “a profunda noite secreta do mundo”. A brisa minhota que interrompe a escrita de uma anotação na biblioteca. A temperatura gelada da água da mina que cai aos poucos no tanque, nos pés. O poema sobre tanques, sobre verão, sobre como “o verão é feito de coisas / que não precisam de nome / um passeio de automóvel pela costa / o tempo incalculável de uma presença / o sofrimento que nos faz contar / um por um os peixes do tanque / e abandoná-los depressa / às suas voltas escuras”. E o cheiro leve e fresco de uma magnólia que nos surge a caminho, inesperadamente. O tempo correndo, o trabalho andando, manhã, tarde, noite, risca agenda, lista agenda, e, ainda assim, os dias — os dias cheios, com espaço. Cheios de espaço, cheios de “graça”. Cheios, os dias.