O sorriso mais admirável

O sorriso mais admirável não é o do vento que entra pela janela de manhã, na sala da torre, que entra “nos meus versos” e vale “oitenta escudos”. Não é também o sorriso do poema do autor que admiro, o autor solene e desperado, “vencido do catolicismo”, mas no qual encontro sempre uma esperança difícil, uma luz de muitos escudos. Não é o sorriso da canção australiana que costumo ouvir todos os primeiros de janeiro, não por vontade mas porque me vem sempre à cabeça, nos primeiros de janeiro, começando pelo verso (primeiro, também ele), que fala de “voar sobre Chicago” e ver “as árvores nuas na neve branca”. O sorriso mais admirável não é, por muito que tenha achado que sim, o daquela memória afectiva que tiro por vezes do saco (aquela, sabes?), quando caminho a pé pela quinta, a catalogar mentalmente as plantas e a paz que cada canto de verde me traz. Não, não é o mas admirável, de todo, o sorriso que tive em conjuntos seguidos de dias por razões mundanas e suficientes, não más, mas não necessariamente boas. O sorriso mais admirável é outro. É o sorriso não de um fim, mas de um caminho; se quiseres que me explique, diria que é o sorriso de uma promessa, da liberdade. É certo, o sorriso, a promessa, a admiração, a liberdade (e a intuição?). O sorriso é difícil, e é raro. Mas é. E vai ser para sempre: é um sorriso “sem corpo”, mas mais cheio do que uma presença. É um sorriso no qual podia apostar os poucos escudos que me restam, as economias pessoais e sentimentais que tenho guardado com mais cuidado e apego no interior, como as imagens rosadas do céu na minha janela do Beiral, ou o jogo do trinta-e-um que um sobrinho faz sozinho no campo de basquetebol. Ou ainda a água do rio, tal como a água do tanque, ou a água do mar, a água só, que é o meu símbolo para o verão, a água que não sai do meu alcance, do horizonte próximo, e na qual desejo ardentemente cair, ficar e estar. A água que, tal como a promessa,  não desaparece, não deixa de correr, não deixa de ser livre. Acho que o sorriso mais admirável é o sorriso que sinto (que sei?) ser de Deus, e o qual tens o privilégio e a sorte de poder partilhar, não num desses momentos em que rezas, ou que corres, nem sequer quando escreves, mas naquela categoria de evento contínuo  e despreocupado que é o acto de gestão mundana, momento fronteira entre a linguagem, o ser e o estar — como escolher o livro académico (fintech, federalismo ou kafka?) em que pousar a chávena da meia-de-leite, antes de me sentar na secretária. Momento que vem, e depois vai. E o que fica? Lá está, o sorriso. Não sei dizer, ou explicar de outra forma que não a mencionada supra. Só sei que concordo e “relaciono-me” com o que aqueles que são “mais” (espécie rara, e altamente admirável por isso) dizem. “A vida recomeça e o sol brilha / a tudo isto chamam primavera / mas nada disto cabe numa só palavra / abstracta quando tudo é tão concreto e vário”. E é isso.