Estrada nacional

Descrevemos os sentimentos por palavras, encaixamos reflexões em caixas de texto, e depois arranjamo-nos, tiramos pêlos da ponta do nariz com uma pinça e perfumamo-nos depois de um banho, enquanto o fumo nos tapa a visão no espelho de outros detalhes do corpo e apenas nos projecta a nossa forma, que em forma ou fora dela é sempre justa, e colocamos um bom fato, uns bons sapatos e uma boa camisa, uma boa gravata com um nó possível, e uns óculos escuros, os quais perderemos mais tarde sem saber como nem porquê, e assim, todos pipis, pegamos num carro e guiamos, pela tarde, rumo a uma festa, e olhamos para a estrada, e pensamos que a estrada em que estamos é bonita, o que quer dizer que a paisagem em redor da estrada é bonita, porque uma estrada é feita de alcatrão e tinta, mas o que a rodeia é maior, é um mundo autêntico, um mundo feito de árvores e jardins, de hortos carregados de áceres, de casas caiadas de branco com estruturas de pedra maciça e brilhante, com bombas de gasolina que dispõem de bar, restaurante, antiquário e cabeleireiro, tudo na mesma bomba, que para além de um negócio podia ser uma rua, e pensamos que a paisagem é bonita, que a zona é bonita, e ficamos levemente emocionados, e pensamos num diálogo imaginário, em que dizemos ao outro que nos ouve, imaginariamente, que se não fôssemos lisboetas seríamos minhotos, por certo, e pensamos num verso que pudesse servir para um poema imaginário, uma frase ou parágrafo para um conto assombrado de realidade, do género dos contos de Herberto Helder, algumas premissas literárias que rasguem e provoquem ao ponto de nos diminuir a alma e o sentido ao nível mágico da evidência dos factos, transcrições desenhadas a caneta de escritório de advogados numa folha amarela de linhas que veio da América, uma soma de palavras seguidas e gramaticalmente coerentes, uma coisa assim tipo: “Já percorreu uma estrada nacional minhota? Não? Mas tem ideia, por certo, dessa construção metafísica e sublime que é a nacional duzentos e um, sentido Ponte de Lima para Braga, conduzida à tardinha de um sábado em que se oferece um matrimónio ao mundo? Ou então já lhe chegou aos ouvidos e ao coração a ideia da mesma via, o mesmo alcatrão e tinta, mas percorrido no sentido de Braga para Ponte de Lima, de madrugada, com o céu ameno, a paisagem serena, e a velocidade excessiva dos automóveis que isoladamente nos acordam do sonho de vida em que estamos?”, e pensamos depois se chegaremos antes da noiva, se a noiva se vai atrasar mais do que o devido, e quando a noiva entra na Igreja do Mosteiro e o coro começa a cantar ao nosso lado a canção da banda do noivo, sobre uma estrada branca que é um caminho e ao mesmo tempo um grito de desejo, de verdade, da promessa de um encontro e da descoberta do amor, coisas abstratas mas sentidas, e pensamos outra vez na forma justa de passar coisas que se sentem e que se refletem, se em texto ou se em canção, mas a canção também é texto e também é inútil, no fim do dia toda a descrição é inútil, porque o que interessa é o que se vê, é o que se é, é onde se está, e o que interessa é a felicidade indiscutível dos nossos amigos recém-esposados, são as paredes de pedra da pousada, são os montes do Gerês e o pôr-do-sol que vai caindo, são as mesas de jantar  colocadas a céu aberto, dentro do pátio da pousada, são os sorrisos dos outros amigos dos teus amigos, alguns deles teus amigos também, todos suados e bêbados e divertidos numa pista de dança, carregando o noivo em ombros, bailando com a noiva nos braços, circulando entre si um belíssimo chapéu de cabedal, comprado numa loja em New Orleans, onde havia um saxofonista a tocar e os empregados ofereciam rum aos clientes, esse chapéu que não perdemos, que levamos connosco da pousada, já com a gravata dobrada no bolso e os óculos escuros perdidos, quem sabe se para sempre, muito provavelmente para sempre, com a luz do dia a nascer por detrás dos montes do Gerês, e pensamos enquanto entramos no nosso carro novo, que já agora diga-se que se está a portar muito bem, pensamos enquanto guiamos pela estrada, de forma lenta e cuidada, sem música no rádio e com as janelas abertas, o quão bom foi estar ali, e pensamos nas mesas em que nos sentámos, e tomamos consciência de que estivemos sentados a comer arroz de tamboril numa mesa em que se discutia violentamente a monarquia e a república, e que aborrecidos pelo tema fomos comer vitela numa outra mesa, com amigas que foram amantes dos teus amigos, um cenário felliniano incrível, cheio de descaramento, álcool e humor, ou apenas uma coisa banal, e não por isso menos digna e espetacular, como o vento na cara, o poema do vento e a palavra liberdade, que temos sentido e usado tanto nos últimos tempos, pensamos nisso, na liberdade, e o céu já está azul e a estrada já é outra, já estamos em Talharezes a passar o Adão, a passar a placa para Gondufe, a passar esses nomes que podiam ser de discos ou de bandas, ou que nos fazem lembrar discos e bandas, e pensamos em não adormecer hoje, em parar na aldeia antes de casa, sair do carro, pôr o chapéu na cabeça e ir à pastelaria Moinho comprar pão para casa, e aproveitar e tomar o pequeno-almoço, não vá a fome tornar-nos sentimentais, uma meia-de-leite e um croissant, algo mais do que suficiente para nos sentirmos confortados, embora seja uma opção de vida obviamente mais cobarde que a adoptada pelo o senhor que está ao nosso lado no balcão, que nos diz bom dia, que nos diz que o grupo que está lá fora fala muito alto, o senhor a quem respondemos que sim, que é impressionante a energia que se pode ter às seis e quarenta e seis da manhã, enquanto pensas porque é que estão dez pessoas em amena cavaqueira numa padaria em Gandra às seis e quarenta e seis da manhã de domingo, o senhor que se contenta em pedir o “costume” e que recebe da empregada o “costume”, um café com um copo de bagaço, para que a manhã comece logo com cheirinho, mas a nossa manhã também começa com um cheirinho, neste caso a trinta carcaças quentes, divididas em dois sacos de papel e transportadas no banco de trás do carro, e “no banco de trás de carro / o meu amor diz que” estamos bem, bastante bem para quem dormiu apenas cinco horas na noite anterior, a noite anterior que neste momento já foi há um dia atrás, quando o tempo estava fresco e cinzento, não como este dia que começa e já se vislumbra quente e claro, como se fosse verão, e fresco só está o orvalho da relva da casa, quando pensamos em sentarmo-nos na relva da casa para gravar os sentimentos, encaixar as reflexões em ficheiros digitais de voz, e somos espertos o suficiente para pôr uma mão primeiro na relva antes de deixarmos assentar o rabo, sentindo de imediato a humidade fresca do verde, e levantando-nos de seguida, optando por gravar os sentimentos de pé, ouvindo a nossa própria voz rouca, cansada e sentida, e depois entrando em casa, como se fosse um dia como outro e não domingo, um dia de trabalho semanal, em que acordámos cedo, vestimos um fato e pusemos um chapéu, fomos à aldeia tomar o pequeno-almoço, talvez até “o costume”, e voltámos com dois sacos de pão quente para a casa, e depois seguimos para o nosso escritório e pusemos o chapéu em cima da mesa, o casaco nas costas da cadeira, fechámos os olhos e rezámos, abrimos os olhos e os livros de federalismo e direito, sim, um dia normal, pensamos que podíamos viver essa personagem, não dormir e viver isto como se fosse mais um dia, mas já nos conhecemos, e caímos na cama com as portadas do quarto fechadas, com a ténue luz do sol a tentar entrar pelas frechas, e sabemos que não vamos dormir muito, que vamos acordar cedo e com os músculos doridos, com a voz perdida, com demasiado açúcar no sangue, e que talvez tenhamos de fazer domingo à séria, beber copos de água e comer bolo de limão caseiro, ir tomar banho ao tanque, ler um livro de Herberto Helder e outro de federalismo, e adormecermos cedo, e com pinta, depois de vermos e pensarmos naquilo que temos para dar à semana que amanhã começa. E depois dormimos.