Diário de tese, o regresso

O quarto estava fresco quando acordei. Dizem que hoje vai ser um dia quente. Tinha medo do calor, e por isso ontem adormeci sem roupa. Mas de manhã quando acordei puxei o lençol para cima do meu corpo bronzeado, e depois sorri. Hoje é o meu último dia de férias de verão. Passei as minhas férias num acampamento na Beira Interior, a ouvir música transe e a tomar banhos sem roupa num lago, e em Lisboa, a ler poemas e a fazer passeios nocturnos junto ao rio ou pelo interior da cidade. Ando a ler muita poesia e a andar muito. Se calhar há alguma ligação entre “dar passos” e “ler poemas”, ou escrevê-los. Se calhar é pelo espaço que existe, numa rua e num verso. Se calhar passear é a forma ideal de viver e sentir a poesia da vida, ou pelo menos de descobrir e percorrer um tipo de poesia existencial, num caminho muito próprio. Não sei — só sei que nestes dias entrei numa livraria para comprar um manual de direito de valores mobiliários e saí com duas colectâneas de poetas portugueses. Quem nunca? Fui jantar a Campo de Ourique e fui lanchar ao Saldanha. Estive com amigos, fui à missa de noite, e andei de mota. Provei molho inglês e partilhei guardanapos de papel. Sentei-me de noite, quase madrugada, à porta de um prédio, onde julgo onde um dia ter entrado para tratar de problemas forenses, a olhar para a rua, para o lugar da antiga livraria Bucholz, com o ombro direito preenchido de sonhos e promessas livres. E fui à praia. Peguei num carro, levei uma cadeira, uma garrafa de água, uma toalha e um amigo, tive uma mini-quebra de tensão, comi uma bola de berlim, fui ao mar, e li poesia. Foi o meu primeiro e talvez único dia de praia deste verão. Isto porque se me acabaram as férias. Estou na sala de estar de casa e a sala de estar também está fresca. Tenho uma mala para fechar e um carro para encher. Depois vou guiar, pelo meio do calor, estrada acima, de volta para o pequeno paraíso minhoto onde estão os meus livros, as minhas ideias, a minha família, e uma parte importante de mim. Levo poemas, tenho lá outros; tenho também muitos livros de direito, de contratos comerciais e de federalismo, entre livros de tecnologia e romances sul-americanos. Não tenho ruas, não tenho jardins, não tenho molho inglês. Mas tenho uma janela e da janela vê-se o céu. O céu é sempre o mesmo, onde quer que se esteja. Como a vida; a vida é sempre a mesma, onde quer que se esteja. A nossa janela — exterior e interior — é que muda. Lame? Talvez. Mas que querem? Acabaram-se-me as férias, mas não se me acabou o verão. Esse — um longo, livre e bonito poema, de uma leveza tão apreciável e de passos (versos?) lentos, certos e preenchidos — continua. Inté soon.