Meta-realidade

Era para ser um dia de trabalho. Oficialmente. Também era para ser feriado, e foi. Oficialmente. Faltou a gasolina – ou não quis arriscar que faltasse a gasolina. Ou não quis voltar? Algo de verdade em tudo, na realidade e no desejo. Os factos e os números, a emoção da pele contra os elementos, como o sabor do sal do mar na pele. A frescura disso tudo, uma sonoridade interna que cresce. Estava a dado momento de janela aberta, numa via rápida, a caminho de – de, de – e ouvia uma boa canção no rádio. Lembro-me sempre da canção, porque quando passamos demasiado tempo no Minho interior apercebemo-nos do quão deliciosamente aparte este mundo é. Oiço os Wilco, e depois acontece um filme, ou a vida, como preferires. A ficção do Minho torna-se uma realidade (ou vai para lá dela) da seguinte maneira: uma festa popular. Luzes de várias cores, cores vivas. Gente, imensos carros parados nas bermas, o mais próximo do conceito de engarrafamento que pode acontecer a 350km de Lisboa, na estrada. Fecho as janelas; toca a canção número dois do disco And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (Matador Records, 1998). Luzes, estrada, canção… porque é que nos preocupamos em pensar ou imaginar coisas se… se podemos parar, enquanto vivemos, como se de repente nos apercebêssemos de que estamos sentados no carro, a vida na estrada, e nós a vê-la a acontecer-nos, a nós, na estrada. Depois, claro, temos de “voltar”, porque, claro, fomos nós mesmos e havia um monte e estava escuro e subimos e o carro e a autonomia descem tipo 70km e a reserva entra em 2minutos… pormenores. Há quem diga que o Diabo está nos pormenores, e que Deus está nos detalhes. Ou vice-versa. É um debate. É feriado, e o coro da Igreja é afinado. Há uma banda filarmónica à porta, também ela afinada. De dia o monte é verde, e não é escuro; a janela continua aberta. Vejo nomes das terras, só me lembro de três: Penegate, Bico e Alto da Prova. Realidade, ficção ou… outra coisa? Tipo, o Minho? Suspiro: o quão verde pode ser o meu verão – resposta: mais, graças a Deus mais do que o suficiente. Comprei pão, numa aldeia onde ainda não tinham ido à missa. Gostava de dizer que pertenço à aldeia. Se calhar daqui a duas semanas já pertenço, já posso meter os papéis, tal como o casal de chineses ao meu lado na missa de Paredes de Coura. Oito da manhã, uma missa. Bebi antes uma meia-de-leite “directa de máquina”. Definições e conceitos, escolas de vida, novas realidades? Cheguei a casa e caí no sofá. Falava e pensava sobre Dali, Paris, pães que sabem a borracha. Nada surreal, garanto. Acordei depois, com uma chamada em que me perguntaram se o trabalho estava a ir bem. Está a ir muito bem. Fui encher o tanque. Fui comer um pão da panilima de sementes de girassol e sésamo, puro. Fui ler. Li muita coisa nos últimos dias. Elazar, Halberstam, Schutze, Palermo e Kossler, Burgess, Madison e Hamilton e Jay. Mas também Helder, Buzzati, Campilho, e Lerner. O Lerner é o maior. Acreditem em mim, pelo menos nisto. Estou no sofá vermelho da sala da torre a ler o Lerner – o mesmo sofá onde dormi, antes. Dorme-se melhor lá do que numa tenda em Coura, sem saco-cama, com uma camisola emprestada e dezasseis putos nortenhos, todos muito bem fodidos, a cantar, lá fora, às cinco e trinta e oito da manhã, DEIXA-ME, OLHAR, DEIXA-ME, PERGUNTAR, SE GOSTAS DE MIM. Ainda assim, agradeço a dormida e a amizade que a proporcionou. Porque sou só um soldado, e agradeço tudo o que me é dado a mais (que é demasiado). E era dormir numa tenda nestas condições ou no carro. Sabem o que é “glamping”? Aprendi ontem: parece que é uma cena. Para meninos. Porque este wanna-be-minhoto que faz “camping” está sentado-deitado no sofá a ler-viver o Lerner (Leaving the Atocha Station; Granta; 2011). Ele fala de jantares românticos exagerados, fala de drogas, fala de humilhações e de poesia, fala da História e de atentados terroristas e de Madrid. Adoro Madrid. Adoro os livros do Lerner. Estou a ler este e o telefone dá aquele toque. E eu volto, naquele preciso momento, a ver-me ao volante do carro, e a ver a estrada, e na estrada estou eu no sofá, a ler o Lerner e o telefone a tocar. Não há menção a gaivotas no mar, ainda. Não há vinho verde, ainda. Há calor, mas estou na sala. E consigo estar no carro a rir-me, ou a sorrir, com o rádio desligado, sem canção que toque, que não o ritmo desta ficção que a minha personagem vive na estrada, que na realidade acontece, e eu penso. Penso: estou como o personagem do Lerner (o próprio), “looking to myself looking upward to myself”. Depois penso: filho-da-puta, que génio. E depois penso. Que bom. Penso, e sinto, que bom. Sinto-me cheio — as if bem. É. É, é, como se não se tivesse passado mesmo nada, tem graça. E depois a minha mãe diz-me para ir desligar a mangueira do tanque. E eu fui. Já estava quase, quase cheio, as if —