Mergulho lento

As hortênsias estão rosa. É do sol. A caminho do tanque vejo uma cobra; oiço os pássaros entre as folhagens. O tanque está muito cheio, prestes a transbordar. A água continua fria, mas reparo que esta noite não caíram tantas folhas do castanheiro. A pedra, o cimento, a água, e duas ou três folhas. Chama-se a isto uma segunda-feira. A água quase que me chega às virilhas; ontem estava-me pelos joelhos. Ajoelho-me para mergulhar. Há duas libelinhas no tanque, uma vermelha e uma azul. Sonhei esta noite que estava num quarto, a dormir, e que acordava com uma presença ao meu lado. Não abria os olhos, mas sabia que ela estava lá. Toquei-lhe na nuca, senti-lhe os cabelos na minha cara. Depois acordei, no sonho, e mais tarde acordei, com o despertador. Era de dia e estava calor. Estou sentado nos meus calcanhares e a água chega-me ao peito. A pele, o calor, a água do tanque, e um desejo. Já cá estava antes, na semana passada, no tanque e na estrada. Estava num carro na quinta-feira a guiar pela nacional 303 em direcção a Paredes de Coura. Passei por Vascões, Rio Frio, Cachamundinho, mas não por esta ordem. Olhei para fora e via o vale e via o verde, ambos intermináveis, ambos eternos, e o dourado do sol cadente de final do dia por cima de tudo. Lembrei-me do poema de Robert Frost, de que nada dourado resta, muito menos o verão. Chama-se a isto a suprema impermanência das coisas. Depois pensei no quão real e vivo e ao mesmo tempo surreal e cinematográfico (mas cinema não é vida?) é o verão. Achei que era um bom início de poema: “se quiseres / fazer do teu verão um / filme (tal como o Miguel / Gomes fez de um filme o / verão) então / sugiro que faças o / seguinte:”. Não continuei. Tirei umas notas, durante o concerto dos Slowdive. Foi um belo concerto, tal como os concertos dos Fleet Foxes, da Lucy Dacus, do Kevin Morby, dos Big Thief, e do Marlon Williams. Os Arcade Fire tocaram o Neighbourhood #3 e o Rebellion (Lies) de seguida, tal como o tinham feito naquele mesmo palco, naquele mesmo sítio, há 13 anos atrás. Nessa altura tinha um blog, e lia outros blogs. Perdia tardes inteiras a ler blogs, tal como hoje perco horas a ler livros ou poemas, ou a dar mergulhos lentos no tanque. Era uma altura engraçada — lembrei-me dela ontem — em que se ia visitar blogs sem saber se havia algo de novo ou não. Era uma espécie de relação que se estabelecia, entre o leitor, o autor, o texto e a vida. Estou no tanque, a fazer uma espécie de prancha, com os braços dentro de água, quase a tocar nos ombros. Olho para o chão e para a água. Ainda não vi um sapo este ano no tanque. Acho que foram todos para o lago. Ontem uma amiga conseguiu 50 pontos no jogo do sapo, que é a pontuação máxima, logo à sexta tentativa. Juro, vi com os meus próprios olhos a peça de metal a entrar na boca do sapo, direitinha, e a cair na caixa de madeira com o número 50. Sorte de convidado, talento de advogada, ou o quê? A água está fria e cá fora está muito calor. Gosto do cheiro das hortênsias, tal como gosto do cheiro do jasmim que está na porta de casa. “Então / sugiro que faças o / seguinte: vai / para uma casa cuja porta / cheire a jasmim”. Estou a um nariz da água, as libelinhas a rondar a minha cabeça. Pergunto-me se de tarde o tanque vai transbordar. Oiço o vento a passar pelas plantas, os barulhos dos pássaros. Não há festas populares hoje. Nada de despacitos aos altos berros, ou leilões de camas, ou músicas de rancho. Se calhar é por ser dia da semana. Deitei-me no fim-de-semana a imaginar um passeio solitário na praia da Fonte da Telha. O corpo moreno ao sabor de um sábado, os pés na areia, até chegar o momento de mergulhar, um sorriso ao emergir da água, e a sensação interior de dizer “que bom”. Era domingo quando acordei, sem sonhos e com algum desejo bom em mim. De noite acabei, sem que dessem por ela, o livro do Ben Lerner, do qual reti a seguinte frase: “Teresa would read the originals and I would read the translations and the translations would become the originals as we read. Then I planned to live forever in a skylit room surrounded by my friends“. Depois mergulhei, e re-emergi lentamente, e fui pôr-me ao sol. Pensei, não pela primeira nem pela décima vez este ano, o quão filho-da-puta de sortudo sou, e o quão tranquilo (como um grilo, ou que nem o esquilo, ou qualquer coisa do crocodilo) isto — isto, agora, aqui — é. “Que / bom”?Lembrei-me: escrevi no caderno hoje de manhã que “Bom é um só”. Depois levantei-me e fui secar-me no alpendre. A caminho parei para cheirar as hortênsias. Ouvi um pássaro / a bater as asas / na árvore ao lado.