And then, o nada

Não é / tão / bom? Acordo e está nublado lá fora. É quinta-feira, e daqui a uma semana já não estou cá. Apercebi-me disso ontem ao fazer as contas, sem querer. Estava deitado na cama, por cima do lençol, com o livro na cabeceira. Depois lembrei-me do Michigan, também sem querer. Lembrei-me da minha casa no 802 de Hill Street, dos dias de neve, do spring break em que estive sozinho na cidade e no 802 de Hill Street, do meu aniversário, e dos meus companheiros de casa. Agora estou numa outra casa, com outras pessoas, que vão e vêm. Eu fico sempre. Se calhar já sou do espaço, sou da casa. Tal como os morcegos, ou os sapos, ou as libelinhas do tanque. A dinâmica de uma casa é uma coisa gira. No princípio só há o espaço, vazio. Depois vêm as pessoas, e depois, com o tempo, passa a haver… o quê? Que nada é esse que, de repente, existe? Leio as notícias e sinto o cheiro da cafeteira a vir da cozinha. Abro a porta e vou andar lá fora. A relva está húmida, os pássaros escondidos, e o ar fresco. Não se ouve nada, praticamente nada. Não é tão bom? Disseram-me isto com uma leveza desarmante há uns tempos (não fiz as contas). Estava na cidade a andar, quando — de repente — saiu-me aos ouvidos a frase, não como provocação, mas como uma liberdade partilhada e querida. “Não é tão bom, o nada?”. Que deliciosa coragem, pensei. É, o nada é bom. A promessa, a esperança do nada, ou só o que é. O ano passado traduzi a expressão icónica de Kurt Vonnegut, “so it goes”, para “é o que é”. E o que é pode ser muita coisa, pode ter sido outra muita coisa. Mas é algo. Bom, ou menos bom, mas é. É bom viver as coisas como elas são — as crenças mais certas são as mais simples, mas também as mais lame (“ponto aceite”). Acho que Udo Berger, personagem do Terceiro Reich (Bolaño, 1989, edição inglesa da Picador) não as vive dessa forma, por exemplo. Não deve ser fácil, perante a promessa do mundo, da sua riqueza e expectativa, aceitar e viver o nada. Os sistemas federais, por exemplo, são experts em viver o nada, porque no final do dia estão sempre na dúvida quanto ao ponto zero que delimita precisamente o espaço de acção do centro perante a periferia. Este foi o meu único apontamento nerd. Agora vamos falar a sério. Anteontem acordei com uma música dos Yuck na cabeça, chamada Get Away. É aquilo que na doutrina federalista se chama “um som do camandro”. E apetecia-me dizer qualquer coisa. Não sei se sobre a música, se sobre a sensação da música, se sobre o quê. Tinha um nada em mim, que era e eu não sabia o quê. Nessas alturas é bom viver, não forçar. Mas percebia que ia querer falar, que ia ter de dizer. Da mesma forma que ao pensar numa história — sobre um tipo de 30 anos, lisboeta, que acabou de comprar um carro e que está prestes a mudar de casa (mas que não está a fazer doutoramento, isso seria uma seca; antes, vive como influencer no mundo das criptomoedas, embora não acredite no mundo das criptomoedas) e que vem para uma casa de família no norte de Portugal escrever um romance existencialista, e que passa o mês de agosto inteiro nessa tarefa, lendo nos entretantos outros romances, livros de poesia, livros sobre regulação tecnológica e notícias desportivas várias, ou correndo junto a uma eco-via, ou mergulhando diariamente num tanque de água gelada, ou saindo para festivais psicadélicos no interior do país com os amigos de sempre, ou para casamentos fellinianos, ou para festivais de música onde encontra amigos mais ou menos chalados, mas sempre tendo como base o sítio onde escreve, essa espécie de paraíso na terra, que o prende ao que é, que lhe ensina todos os dias o que é, fazendo-lhe companhia, tal como a correspondência que vai recebendo e respondendo, enfim, tudo um delicioso nada que diariamente “é”, e que num golpe de asa, no fim da história, esse nada que o personagem vive “vira-se do avesso” (um clássico do nada), e ele percebe que o romance que queria escrever afinal já o viveu, e foi o seu mês de agosto, querido e divertido, trabalhoso e intenso, mas sensacionalmente tranquilo — pensei se a devia escrever. Mas depois percebi que não, que não. Já a vivi, ainda a estou a viver, sem exageros ou ficções. Falta uma semana, fiz as contas. Não queria, mas aconteceu. Estou sentado na secretária da sala da torre, onde estive nos últimos vinte e um dias de manhã. Abri a janela, sentei-me, senti a brisa, e tirei notas. Depois, olhem, depois vem a vida — o nada. Não / é / tão / bom? Entretanto, o céu abriu, e eu tenho de voltar a trabalhar.