Romance académico, número regresso

O quão cool é o teu barbeiro? O meu corta-me o cabelo com uma navalha. True story. Fala-me de futebol, e de outras coisas da vida. Hoje falou-me da Venezuela, da crise na Venezuela. Depois disse-me que quando era mais novo costumava cantar fados, em Coimbra. Anos sessenta, esse tempo e idade. Era militar, estava lá sediado. Saía de licença e escondia o uniforme por baixo de uma capa negra. E cantava, enquanto outros, estudantes, com nomes de família (Brito? Marques?) tocavam. Faziam serenatas, os estudantes e o militar com coração de estudante, às meninas que passeavam no jardim. De dia cortava batatas e fazia desporto, e aprendia técnicas de enfermagem. Notei neste momento da história que estava com um alto de cabelo na zona do meu carapito a sobressair. Um pormenor. Mas não preciso de dizer nada. Ele já está a trabalhar em Lisboa, no hospital militar quando o pormenor é atendido e o alto é cortado. Volta para a tesoura, dobra ligeiramente os joelhos. A dado momento esqueço as histórias e concentro-me na postura dele. É uma dança, quase. Uma dança mundana, com tesouras e pentes. Pés para a frente, braços para trás, e depois ao contrário. Há uma elegância e uma classe nisto, nada esforçada, muito real. Voltemos às histórias. Lisboa, anos sessenta: juntamente com um colega, o barbeiro-fadista cedeu dois lugares numa festa popular (quero pensar que foi na Estrela, acho que ouvi a palavra Estrela, mas posso estar demasiado sugestionado) a duas senhoras. Nessa noite um capitão com nome de capitão (Neto? Sousa?) apanhou-os e chamou-os ao gabinete, no dia seguinte. Os recrutas ansiosos, e nisto entra o comandante com nome de pessoa (Faustino? Firmino?) que lhes dá um prémio, pela acção de gentileza demonstrada. Uma semana na terra, tudo pago. E lá vai o beirão divertir-se para onde gosta. Devia ser um soldado gentil, o meu barbeiro. O dançarino mundano, o senhor das tesouras, o verdadeiro benfiquista de terceiro anel. How cool é o teu barbeiro? O meu, às vezes, chega a ser poeta. Quando lhe perguntaram numa entrevista, há anos atrás, sobre se costumava falar de política com os clientes, limitou-se a responder: a minha política é cabelo. Contou-me hoje que se não fosse por políticas de cabelo podia se calhar ter ido para Bruxelas, cortar cabelos a europeus. Mas ficou, e corta-me o cabelo desde miúdo. Se calhar tinha sido a salvação da Europa, não sei. Não sei se as pessoas sabem reconhecer a importância de um bom corte de cabelo. Num cartoon, o Calvin (de Calvin e Hobbes) diz, quando está no barbeiro, que nunca se critica alguém que tem uma tesoura na mão. Nunca precisei de criticar, está sempre em ordem: o corte, o momento, a companhia. Não sei mesmo o quão cool é o teu barbeiro. Imagino que seja bom, e espero que sim, que seja bô-om. Mas prefiro o meu. O meu é um tipo bem fixe, do género verdadeiro, sabes? Nada de ilusões. Sempre o mesmo corte, sempre o mesmo ritmo, sempre a mesma simpatia. E, descobri agora, um romance académico, literal e em pessoa. Beat that.