Resenha matinal

Nunca li Milton
e acordei com vontade
de viajar pela
América do Sul.
Estava no chuveiro, e pensei
que o amor está nos
olhos de quem
sente. Depois imaginei
o que seria estar em Santiago
do Chile, a trocar poemas
com Neruda, chamar-lhe
Pablo até, sem
descaramento, e ir a Buenos
Aires comprar uma camisola
do River com o nome de outro
Pablo nas costas.
Sonhar é bom — é o
que diz a minha mãe.
Acho que sonhei durante
a noite, mas não me
lembro bem. Está um dia
quente, por cá. Foi me
dado a ver um bonito
nascer do sol, quando
o meu corpo ainda achava,
despido e no meio dos lençóis, que era
madrugada, que devia ser
madrugada.
Deve ser bom viajar
com pessoas que são
sempre nascimentos, princípios e
possibilidades
inesgostáveis de (sor)risos.
E de repente apercebo-me que
sem saber ler nem escrever
virei uma imagem mental
ao contrário.
Será que é por
ter compreendido
o papel desarmante da
liberdade e da confiança, da
beleza do que
é ser e estar, sem mais, nem
menos?
Um chapéu de palha
num pôr-do-sol rosado
dentro de um mundo próprio
que é uma viagem. Às vezes
penso que viajar é uma outra
vida, tal como o cinema
é outra vida. Não é. É
a nossa, só que envolta
numa exposição de
transcendência, mundanamente
divina.
Também pensei
que ser sério é um
pleonasmo.
Quem é ‘sér’io
já é, sem mais,
percebem?
Entretanto estou a
tomar café, e pensei
(penso muito de manhã, não
penso?)que o amor está
no sorriso de quem
vive.