Iowa

Ele está sentado no sofá branco da sala de estar. A sala está às escuras. Duas das três portadas estão abertas, para arrefecer o espaço. Estava com calor enquanto jantava e escrevia. Pôs-se a ler, mas noutra sala, não menos quente. Quando acabou o sexto capítulo pousou o livro e resolveu ir rezar. Sentou-se no sofá branco, tal como agora. Pernas direitas, ambos os pés no chão, nádegas juntas às costas ligeiramente descaídas do maple. A luz do corredor está acesa; as portas para o corredor estão fechadas. Ele imagina a cena: estar sentado no sofá branco, e uma figura, que tanto pode ser o gigante escuro e dobrado que passeava pela casa teatralmente assombrada a que foi com os amigos no centro de Lisboa, há cerca de duas semanas, como DeMarcus Tillman, o basquetebolista desgraçado da segunda temporada de American Vandal (a qual acabou de ver hoje), como Martin Donovan, o anti-herói de Hal Hartley (do qual se recordou de noite, numa troca de mensagens com o seu irmão mais velho), ou até ele mesmo, só — a olhar pelos vidros da porta, para a sala. Passam carros, passam pessoas, o telefone não toca, mas a partir das onze deve tocar. Ele reza, e lembra-se enquanto está de olhos fechados do livro, cuja acção se passa no Iowa. Ele não se lembra do Iowa, neste momento, apesar de ter lá estado, mas sim do Texas, de uma pequena aldeia abandonada numa estrada paralela a uma interstate qualquer cuja velocidade máxima eram 75 milhas por hora, onde não se via um carro, onde a bomba de gasolina era uma ruína, onde as casas pareciam ter sido saquedas, e onde só se viam três miúdos a andar de bicicleta e um tipo gordo, muito queimado, que não falava nem inglês nem espanhol, mas percebia a palavra “gas”, e estava encostado a um alpendre. Lembrou-se depois de chegar a Marfa, de noite, e do quanto gostou de Marfa, e dessa adrenalina de viajar e de chegar, de descobrir e de partir, do desconhecido. Passou um carro que tocava kizomba. No livro os personagens veem cassetes de vídeo que têm mistérios dentro delas. Ele acaba de rezar e deixa-se cair no sofá a apreciar o Iowa à sua volta: a sala vazia. E o dia acaba.