Proposta de mês, um apontamento solto

Estava encostado ao semáforo. O meu amigo Francisco apareceu, deu-me um abraço, e disse que a cena parecia o início de um filme de Hal Hartley. Imaginei por uns instantes um plano em que estava de costas, o jurista-académico de mala na mão, encostado a um semáforo na Avenida Pedro Álvares Cabral, com o sol a cair-me ligeiramente em cima do casaco. A letargia de uma noite pouco dormida fá-lo (ao jurista, não a mim) querer ficar ali, a ver os carros passar, mesmo quando a luz muda de cor. Passados um, dois minutos entra uma voz off: Estou encostado a um semáforo a ver os carros a passar. Bill Knot diz que o semáforo tem sempre razão. É um facto, ou uma ideia? Tal como a luz das sete e quarenta e três na calçada da Estrela, das sete e cinquenta na Álvares Cabral, e das sete e cinquenta e cinco no Largo do Rato, é uma proposta. Uma proposta de mês, neste caso. Recebe o que te dão, dá mais do que o que recebes. Dia um de Outubro e a luz, no céu, no semáforo. A luz do sol no rio, visto do cimo da rua, com um ligeiro nevoeiro a tapar a outra margem. Brilha muito o rio, muito claro. Antes passei pela dupla. A dupla é um par de gémeos idênticos com quem me cruzo várias vezes durante a semana em espaços localizados entre o Ginásio Clube Português e o jardim da Estrela, e que pelos vistos vai encomendar frangos à Lapa à hora de almoço. Estavam em frente à churrasqueira, gerida por um tipo que está casado / apaixonado há dezasseis anos. Parece feliz, apesar da mulher já não poder ver frango à frente. A dupla jogava ao pimpampum com as mãos. Penso: se estou num filme, que tipo de filme é? Podia ser de Jim Jarmusch, um filme que é uma representação do real e que é ao mesmo tempo uma meditação sobre o próprio real. Tempo, banalidade, rotina, espaço. Vida? Vi a palavra glow escrita num parquímetro, virada para um candeeiro. Depois vi um caroço de abacate, inteiro, com a pele toda escura e apodrecida à volta, no pátio. Era domingo. As manhãs de domingo trazem boas canções — aprendo isso a ver uma ‘stória, num dispositivo móvel — e algumas canções trazem verdades giras. Por exemplo, o apontar de que o claro laranja e leve azul do final do dia no Chiado (Chiado evening sol) serem os mesmos que o claro laranja e o leve azul do início do dia na Lapa (Lapa street blues). “Quem sabe / amanheceu ou caiu / a tarde?” É bom ser e sorrir por ser. É que “se pensarmos na parafernália de toda esta vida / como imagens misturadas / sem passado nem futuro / se encararmos com franqueza / então como poderemos” — mesmo letárgicos, sonolentos — então não ver aí / oh, como poderemos então não ver aí… a (a-a-a-a-a-a-ah), a (a-a-a-a-a-a-ah)? E o dia segue.